O chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, afirmou que o governo de Yamandú Orsi não retomará as relações diplomáticas com a Venezuela enquanto Delcy Rodríguez estiver na Presidência. Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada no sábado (10), chamou-a de “tão ilegítima quanto Maduro”. Flávio Bolsonaro ou Donald Trump poderiam ter feito a mesma declaração. Lubetkin, porém, é ministro de um governo da Frente Ampla.
Sobre a retomada das relações com Caracas, foi taxativo: “De forma alguma, e não vamos retomá-las”. Lubetkin quer eleições e diz que reconhecerá o vencedor depois que “uma corte independente” confirmar o resultado. O chanceler mencionou que Nicolás Maduro está preso nos Estados Unidos, sem condenar a violência cometida contra a soberania venezuelana.
A exigência de uma corte “independente” entrega a decisão às instituições controladas por Washington e pela direita golpista venezuelana. Se o resultado das urnas não lhes agrada, o governo eleito passa a ser chamado de ilegítimo. Os venezuelanos ganham o direito de escolher seus governantes apenas quando a escolha recebe o aval do imperialismo.
O chavismo contou com o apoio da maioria do povo venezuelano para realizar reformas sociais e defender os recursos nacionais. Por enfrentar o domínio norte-americano, foi alvo de golpes, sanções e campanhas internacionais que chamam seus dirigentes de usurpadores. A direita venezuelana, mesmo após suas tentativas violentas de derrubar o governo, é apresentada como juíza da democracia.
Orsi já havia chamado o governo venezuelano de “regime autoritário” na campanha presidencial de 2024 e admitido classificá-lo como “ditadura”. Lubetkin deu consequência à posição do presidente: enquanto Delcy Rodríguez governar, o Uruguai manterá rompidas as relações diplomáticas. O governo da Frente Ampla se recusa a reconhecer a Venezuela porque o imperialismo e seus aliados golpistas contestam suas autoridades.
De Mujica a Almagro
Lubetkin não é o primeiro chanceler saído da Frente Ampla a servir à política norte-americana. Luis Almagro ocupou o cargo durante todo o governo de José Mujica, de 2010 a 2015, e depois assumiu a direção da Organização dos Estados Americanos (OEA). Tornou-se cão de guarda dos Estados Unidos: atacou a Venezuela e Cuba, fez campanha contra a Nicarágua e deu cobertura à ofensiva que terminou no golpe contra Evo Morales na Bolívia, em 2019.
Almagro foi expulso da Frente Ampla em dezembro de 2018, após se recusar a descartar uma intervenção militar na Venezuela. Sua expulsão não apaga o fato de que Mujica o nomeou chanceler e deu cobertura às suas ações golpistas anteriores. O governo de Orsi demonstra, agora, que o partido continua apoiando o golpismo contra a Venezuela.
No Equador, em outubro de 2019, trabalhadores e indígenas protestavam contra medidas de austeridade quando Almagro elogiou o presidente Lenín Moreno. A OEA reconheceu o governo equatoriano como legítimo e condenou a suposta tentativa de desestabilizá-lo. Foi o oposto do tratamento dispensado à Venezuela: Moreno recebeu apoio enquanto reprimia manifestações contra a política do Fundo Monetário Internacional.
A Frente Ampla uruguaia não é um partido de esquerda. É uma colcha de retalhos que vai de organizações originadas nas lutas operárias e populares a setores da burguesia, do latifúndio e dos bancos. Estes últimos não participam para executar um programa dos trabalhadores. Entram para impedir que o governo ataque seus interesses e para usar o apoio popular da esquerda em benefício próprio.
Tabaré Vázquez e Mujica não esconderam a política econômica neoliberal de seus governos. Danilo Astori, ministro da Economia de Mujica, preservou a orientação adotada sob Vázquez: manter a confiança dos bancos e dos investidores estrangeiros. A presença de antigos militantes populares no governo não mudou a posição dos grandes proprietários na economia uruguaia.
Na entrevista à Folha, Lubetkin elogiou o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Calculou para o Uruguai uma economia de US$ 35 milhões em tarifas e cotas e projetou mais de US$ 100 milhões em um ano. Esse acordo é uma das maiores violações da soberania coletiva da América do Sul em décadas, aproximando-se da falida tentativa de construir a ALCA.
Os governos da Frente Ampla atenderam totalmente aos interesses dos bancos em casa e apoiam os Estados Unidos na ofensiva contra um país vizinho. Seus dirigentes mantêm a linguagem da esquerda, mas adotam o critério do imperialismo quando falam da legitimidade do governo venezuelano. Na verdade são liberais pró-imperialistas.
A mesma política no Brasil
No Brasil, a frente ampla ainda não se transformou num único partido. PT, MDB, PSD, Rede e outras organizações mantêm suas siglas, mas o PT entrega aos aliados de direita espaço no governo, nas candidaturas e na definição do programa. Os trabalhadores são chamados a abandonar suas reivindicações em nome da unidade contra o bolsonarismo; os banqueiros e empresários recebem garantias de que seus interesses serão preservados.
A aliança foi apresentada como a única maneira de impedir a volta dos bolsonaristas ao poder. Para mantê-la, os petistas apoiaram políticos que haviam combatido o próprio PT e deixaram seus aliados burgueses ditar os limites da campanha. Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva receberam o apoio do bloco petista para o Senado e foram derrotadas. No Rio Grande do Sul, o PT abriu mão de encabeçar a chapa e a direita venceu no primeiro turno, assim como no Rio de Janeiro.
O PT manteve Geraldo Alckmin na vice-presidência e somou MDB, PSD, antigos tucanos e outros direitistas às alianças estaduais. No primeiro turno da eleição presidencial deste mês, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula. O presidente recebeu cerca de 3,38 milhões de votos a menos do que em 2022, após quatro anos de governo de frente ampla, e deverá ser derrotado também no primeiro turno, ao que tudo indica.



