Os estudantes franceses convocaram uma nova jornada nacional de protestos para esta terça-feira (13), mantendo a mobilização contra o governo Emmanuel Macron apesar das prisões e das mutilações provocadas pela polícia. Em Paris, a marcha organizada pela União Estudantil sairá às 14 horas da Praça da Itália em direção aos Inválidos, perto da sede do primeiro-ministro e do Ministério da Educação. “Eles não nos escutam, vamos buscá-los”, anunciou a entidade.
O chamado “Ato V” exige a supressão do Parcoursup, sistema de seleção para o ensino superior, e um plano de 10 bilhões de euros para os liceus, correspondentes às escolas de ensino médio. A União Sindical dos Secundaristas considera que o governo ofereceu apenas “migalhas”. O envio de três mil professores substitutos, iniciado na segunda-feira (12), não encerrou os protestos, que chegaram à quarta semana.
A falta de professores, as salas superlotadas e os prédios deteriorados deram origem à revolta nas regiões operárias próximas de Paris. O governo respondeu aos bloqueios com operações policiais. A partir daí, os estudantes passaram a enfrentar, além dos problemas escolares, a repressão às suas próprias organizações e manifestações. A brutalidade dos agentes alimentou a indignação contra Macron e tornou os confrontos cada vez mais violentos.
Na segunda-feira, 15 pessoas foram detidas em Mérignac, na Gironda, depois que um grupo de jovens ateou fogo na pista e lançou objetos contra policiais. O departamento registrava 13 liceus fechados. Em Marselha, a prefeitura informou que um policial foi alvo de um disparo de artefato pirotécnico diante do liceu Saint-Exupéry. Os episódios mostram que a juventude continua enfrentando a polícia, mesmo depois das graves lesões sofridas por manifestantes nas semanas anteriores.
Na região de Paris, quase 80 liceus tiveram suas atividades afetadas, segundo as autoridades regionais. Cerca de 30 fecharam ao longo do dia. Um grande incêndio atingiu o liceu Marcel-Deprez, na capital; em Moissy-Cramayel, ocorreram incêndios e vidraças foram quebradas no liceu de la Mare-Carrée. A responsabilidade das organizações estudantis por esses episódios não foi estabelecida nas informações divulgadas.
O movimento também chegou ao ensino superior. Na sexta-feira (9), estudantes da Escola do Louvre aderiram aos bloqueios. A CGT-Cultura convocou os funcionários do Ministério da Cultura para a paralisação desta terça-feira, acompanhando as mobilizações em escolas de artes, arquitetura, música e dança. A adesão amplia a luta iniciada pelos secundaristas e aproxima estudantes e trabalhadores atingidos pela falta de recursos nos serviços públicos.
Para anunciar um recuo dos protestos, o Ministério da Educação destacou que 96,5% dos estabelecimentos permaneciam abertos. Informou 130 escolas fechadas na segunda-feira, contra 172 na sexta-feira, mas não divulgou o total de unidades com atividades afetadas. A omissão importa: receber alunos não significa funcionar normalmente. Bloqueios, assembleias e manifestações podem ocorrer em escolas que não aparecem na relação de fechamentos totais.
O ministério combinou esses números com a denúncia de uma “intensificação das violências”. Assim, procura apresentar os manifestantes como uma minoria isolada e perigosa, contra a qual seriam necessárias novas operações policiais. A convocação nacional desmente, ao menos, a expectativa de que o envio de professores bastaria para encerrar a luta. As entidades estudantis mantiveram tanto os protestos quanto as reivindicações.
A repressão sanguinolenta tem responsáveis e vítimas identificáveis. Em 28 de setembro, Eden, de 14 anos, teve a mandíbula destroçada por um disparo de granada de gás lacrimogêneo em Saint-Ouen-l’Aumône, no departamento de Val-d’Oise. Em Lens, outro adolescente perdeu uma das mãos. Foi depois dessa mutilação que o governo suspendeu o uso de granadas de efeito moral nas manifestações estudantis.
O ministro do Interior, Laurent Nunez, havia explicado a orientação dada às forças repressivas. Segundo o L’Humanité, ele declarou à TF1, no início de outubro, que “não há nenhuma orientação de contenção” e “nenhuma orientação para não utilizar todo o armamento intermediário à disposição das forças de segurança interna”. A violência contra os estudantes, portanto, não pode ser reduzida à conduta de alguns agentes: o próprio ministro defendeu o emprego do arsenal policial.
Na sexta-feira (9), o Ministério do Interior anunciou 24 investigações da Inspeção-Geral da Polícia Nacional sobre ocorrências registradas desde o início dos protestos. Dois dias depois, François-Noël Buffet, à frente do órgão francês de defesa dos direitos, informou o recebimento de 28 denúncias individuais. A instituição já tinha aberto um procedimento sobre o caso de Eden.
Buffet, entretanto, evitou denunciar a violência policial. Declarou ser “imperativo conciliar a segurança com a proteção dos direitos e liberdades das pessoas, particularmente quando se trata de menores”. As denúncias continuam em exame. A promessa de fiscalizar as regras de conduta dos agentes oferece pouca resposta a um movimento cujos participantes foram atingidos por armas que o ministro autorizou expressamente a utilizar.
A imprensa imperialista francesa ajuda a preparar o terreno para a repressão. O Le Monde, em reportagem com informações da AFP publicada na segunda-feira, destacou no título os “pelo menos oito” profissionais da educação feridos e o percentual de escolas abertas. Relatou também o ataque contra um policial em Marselha e reproduziu declarações de dirigentes escolares sobre a violência sofrida. Os adolescentes mutilados e a posição de Nunez sobre o armamento ficaram fora do texto.
Em Reims, dois funcionários de um liceu foram feridos por artefatos pirotécnicos, segundo a prefeitura. A notícia é usada, ao lado de outros episódios, para apresentar os representantes do Estado como alvos de uma juventude descontrolada. Sem os disparos, as mutilações e as ordens ministeriais, a cobertura faz parecer que a violência começou com os estudantes. O policial aparece como vítima; a política repressiva do governo desaparece da explicação dos confrontos.
Macron reforçou essa campanha na segunda-feira, cobrando manifestações “na calma, na ordem e no respeito tanto às pessoas quanto aos bens”. Também acusou a França Insubmissa de tentar aproveitar a revolta. Para atender às reivindicações, pediu tempo, negociação e discussão. Depois de quatro semanas de luta e adolescentes mutilados, o presidente exige paciência dos estudantes e preserva o comando responsável pelas operações policiais.
A marcha desta terça-feira levará novamente secundaristas e universitários ao centro de Paris. O destino escolhido fica nas proximidades de Matignon, sede do primeiro-ministro, e do Ministério da Educação, autoridades das quais o movimento cobra os 10 bilhões de euros para as escolas e o fim do Parcoursup.





