A campanha de Lula adotou o lema “bandido preso e trabalhador protegido” para disputar o segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Precisando ampliar sua votação, o PT oferece ao eleitor conservador uma das principais bandeiras da direita: a repressão como resposta aos problemas da população. A esquerda que denuncia o PCO por conversar com bolsonaristas aceita que o candidato petista procure esse eleitorado assumindo suas posições políticas.
A acusação contra o Partido da Causa Operária confunde duas coisas distintas: disputar os trabalhadores que seguem a direita e adotar o programa da direita. O PCO procura convencer esses trabalhadores a romper com o bolsonarismo. O PT, ao incorporar suas propostas, confirma as ideias que deveria combater e pede ao eleitor que apenas troque de candidato.
O trabalhador que deposita suas esperanças em Bolsonaro procura uma saída para dificuldades reais. O salário não paga as contas, o emprego é incerto, as dívidas aumentam. A incapacidade dos governos petistas de resolver esses problemas abre espaço para a demagogia da direita. A experiência de frustração com o PT pesa mais do que a advertência de que seu adversário é pior.
Esse trabalhador pode acreditar que a privatização melhora os serviços ou que mais violência policial trará segurança. Mas continua dependendo do salário e sofrendo com a exploração patronal. É nessa contradição entre suas opiniões e seus interesses que os revolucionários devem intervir. Cabe explicar por que as propostas bolsonaristas não resolvem suas dificuldades e organizar a luta pelas reivindicações que a direita procura sufocar.
Os bolcheviques enfrentaram um problema semelhante na Rússia czarista. Em Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lenin recordou a participação de militantes em assembleias e associações operárias organizadas por Zubatov, agente da polícia do czar. Lenin as descreve como organizações operárias dos Cem Negros, a extrema direita monarquista. Os revolucionários entravam nesses locais, faziam agitação e conseguiam retirar trabalhadores da influência dos agentes policiais.
A presença de operários tornava aquele trabalho necessário. Recusá-lo por causa da orientação reacionária que impregnava a mente daqueles operários significaria deixar os trabalhadores sob seu controle. Os militantes não defendiam o czar para conseguir ser ouvidos: apresentavam a política revolucionária a pessoas que ainda acreditavam na monarquia. Procuravam ganhá-las para a revolução sem exigir que já fossem revolucionárias antes do primeiro contato.
É essa tradição que orienta o PCO diante da base popular bolsonarista. O Partido leva suas posições aos trabalhadores independentemente de seu voto, de sua religião ou das ideias que tenham sobre os problemas do País. Não esconde seu programa nem faz concessões políticas e ideológicas à direita. A aproximação serve para desenvolver a consciência de classe de quem ainda deposita confiança nos representantes da burguesia.
Em 2022, durante os bloqueios de caminhoneiros que apoiavam Bolsonaro, o PCO apresentou uma aplicação concreta desse método. Enquanto setores da esquerda cobravam repressão, o Partido defendeu que Lula e a CUT procurassem a categoria com um programa em defesa de suas necessidades. Entre as propostas estava a estatização completa da Petrobrás, vinculada à redução do preço do diesel.
O combustível caro comprometia o sustento de caminhoneiros que haviam votado na direita. Discutir o controle do petróleo permitia mostrar que os lucros dos grandes capitalistas eram incompatíveis com suas necessidades. Para conquistar esses trabalhadores, não era preciso aceitar a privatização defendida por Bolsonaro. Era preciso explicar por que combatê-la interessava à categoria.
A esquerda pequeno-burguesa identitária condena esse esforço e chega a chamar o próprio PCO de bolsonarista. Considera suspeito o contato com setores populares conservadores, como se a ideologia determinasse definitivamente a posição de cada pessoa na luta de classes. Um operário que apoia a direita passa a ser tratado como inimigo, embora enfrente o mesmo patrão e precise dos mesmos direitos que seu colega petista.
Essa postura expressa o afastamento da esquerda em relação ao povo. Em vez de discutir as razões pelas quais um trabalhador acredita em Bolsonaro, seus críticos o insultam por sua religião, seus costumes ou sua falta de instrução. A direção que não apresenta uma saída para a crise acusa os explorados de ignorância por procurarem outra alternativa. O bolsonarismo se beneficia desse desprezo: pode apresentar-se como defensor das pessoas que a esquerda hostiliza.
A necessidade de votos no segundo turno, porém, obriga o PT a procurar esse eleitorado. Surge então a disposição de fazer concessões que nada têm a ver com o trabalho revolucionário ou mesmo progressista. Na segurança pública, o discurso policial ocupa o lugar das reivindicações populares. Na economia, as promessas de cortes de gastos e ajuste fiscal substituem uma política favorável aos trabalhadores. Nas questões morais, cede-se às pressões religiosas. O esforço é convencer o eleitor de que também encontrará no PT a política que o atraiu para a direita.
O lema sobre prender bandidos mostra o resultado. O trabalhador preocupado com a violência recebe a confirmação de que a solução está no fortalecimento da repressão. Não se explica por que essa mesma repressão atinge os moradores dos bairros pobres. Tampouco se enfrenta a falta de emprego, moradia e perspectivas que pesa sobre a população. A campanha aceita os termos da propaganda bolsonarista e tenta tirar proveito deles.
Isso é uma adaptação reacionária. O eleitor permanece sob a influência das mesmas ideias, agora repetidas por uma candidatura que se apresenta como adversária do bolsonarismo. A autoridade política que o PT ainda conserva entre os trabalhadores passa a servir à divulgação de propostas da direita.
Os que acusam infundadamente o PCO de bolsonarismo “bolsonarizam-se”.
Nem sequer há, nessa imitação, uma razão para o bolsonarista preferir Lula. Se considera correto o programa de Bolsonaro, encontra em Flávio um representante dessa orientação. O PT abandona as reivindicações que poderiam atrair o trabalhador descontente e disputa quem aplicaria melhor uma política que seu adversário já defende.
A consequência aparece também entre os próprios eleitores petistas. Ao ouvirem sua direção apresentar mais repressão como proteção ao povo, passam a defender medidas que antes identificavam com a direita. O PT não retira o trabalhador bolsonarista da influência do bolsonarismo; leva essas mesmas posições para dentro de sua base.





