Em artigo publicado no Brasil 247 em 11 de outubro, intitulado A única batalha que perderemos, Eduardo Guimarães conclama a militância a fazer campanha para Lula no segundo turno e condena quem, segundo ele, desmobiliza eleitores com palavras de desânimo. Durante o texto, o articulista faz da campanha eleitoral um dever de obediência, sem discutir o que os trabalhadores ganharão com ela.
Guimarães escreve: “Quem espalhar desânimo, quem ajudar a desmobilizar a militância com frases como ‘não se iluda’, ‘não adianta’ etc., estará fazendo parte da horda de descerebrados que mina a democacia com seu voto insano.” Em vez de demonstrar que determinada crítica esteja errada, ele classifica a desconfiança como desmobilização e a desmobilização como cumplicidade com a direita. E, assim, foge da pergunta que deveria organizar toda a discussão: mobilizar os trabalhadores para defender o quê?
Há uma diferença enorme entre capitular diante de Flávio Bolsonaro e recusar uma campanha acrítica para Lula. É indispensável combater a direita e denunciar a política que abriu caminho para seu crescimento. A classe operária não tem interesse em guardar suas reivindicações até depois da apuração. Se a ameaça da direita proíbe a crítica ao governo, ela já obteve uma vitória política.
Em todo o artigo, Guimarães não apresenta uma única exigência concreta a Lula. Não fala em aumento dos salários, revogação das reformas trabalhista e previdenciária, redução da jornada ou rompimento com os partidos da direita que ocupam o governo. Os trabalhadores devem fazer campanha, mas não se sabe em defesa de quais interesses. O que ganharão com uma eventual vitória de Lula? O articulista não responde. Para ele, basta derrotar o adversário.
Guimarães encerra afirmando que “A única batalha que se perde é aquela que não lutamos por covardia”. Ora, é possível perder uma batalha justamente porque se abandonam os próprios objetivos. Um operário pode passar meses fazendo campanha, conseguir eleger Lula e continuar recebendo um salário miserável, trabalhando até a exaustão e entregando parte do que ganha aos bancos. Quem venceu a batalha? O trabalhador ou o político que conseguiu se eleger?
O resultado do primeiro turno deveria levar os defensores do governo a examinar a situação. Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente recebeu cerca de 3,4 milhões de votos a menos do que em 2022. Depois de quase quatro anos de governo da frente ampla, o bolsonarismo chega à frente na eleição presidencial. Guimarães deveria explicar como isso aconteceu, em vez de insultar os que não estão satisfeitos com o governo.
Quem escolheu Geraldo Alckmin para vice-presidente de Lula? Quem decidiu formar um governo com representantes dos grandes empresários e dos partidos que participaram do golpe de 2016? Quem decidiu preservar os interesses dos banqueiros enquanto os trabalhadores continuam recebendo salários miseráveis e pagando juros exorbitantes? Certamente não foram os trabalhadores que hoje são acusados de desmobilizar a campanha. Essas decisões partiram dos dirigentes da frente ampla.
Agora, diante da crise eleitoral, os responsáveis por essa política querem jogar a culpa sobre os eleitores descontentes. Se Lula perder, a culpa será de quem criticou o governo ou não demonstrou entusiasmo suficiente. O governo, os banqueiros e os partidos da direita que participam da frente ampla ficam isentos de qualquer responsabilidade. Se Lula ganhar, tudo poderá continuar como está. Afinal, a tarefa da esquerda, segundo essa concepção, seria simplesmente garantir a vitória do presidente.
O próprio Guimarães oferece uma demonstração de onde leva essa política. Ele recorda que o Estadão falou em “escolha difícil” entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro em 2018, mas observa com esperança que a grande imprensa agora “mudou o tom”. Os mesmos jornais que ajudaram a preparar o terreno para a ascensão da direita aparecem como possíveis aliados na luta contra ela. Guimarães deposita mais esperanças numa mudança de posição da imprensa capitalista do que na mobilização dos trabalhadores em defesa de suas reivindicações.
Por que não aproveitar a campanha para exigir de Lula compromissos concretos? Por que não reivindicar a reposição de todas as perdas salariais, a redução da jornada sem redução dos vencimentos e a revogação das reformas que retiraram direitos dos trabalhadores? Se o futuro do País está em jogo, como afirma Guimarães, seria razoável começar pelas condições de vida da maioria da população.
Em 2022, Lula concentrava a reação de amplos setores populares à perseguição política e ao governo Bolsonaro. Hoje, depois de quase quatro anos à frente do País, é Lula quem deve prestar contas de sua política.
Guimarães afirma que “Em jogo está o futuro” e procura transformar o apoio a Lula numa obrigação moral. Mas que futuro está sendo oferecido aos trabalhadores? Se não podem reivindicar aumentos salariais porque isso atrapalharia a campanha, tampouco poderão fazê-lo depois da eleição, quando o governo alegará que precisa preservar sua base parlamentar e garantir a governabilidade. Na eleição seguinte, a ameaça da direita será novamente utilizada para exigir que os trabalhadores abandonem suas reivindicações. Essa política transforma a luta contra a direita numa desculpa permanente para não enfrentar os banqueiros e os patrões.
Pior ainda, ela contribui para entregar uma parcela enorme da classe trabalhadora ao bolsonarismo. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro há operários, aposentados, desempregados e moradores dos bairros pobres. São trabalhadores que enfrentam os mesmos problemas que aqueles que votaram em Lula. Chamá-los de descerebrados ou tratá-los como pessoas incapazes de pensar não ajudará a conquistar nenhum deles. A tarefa da esquerda deveria ser apresentar um programa capaz de mobilizar esses trabalhadores, demonstrando que seus problemas não serão resolvidos pelos políticos da direita.
A verdadeira covardia política está em esconder os problemas do governo para não contrariar os interesses de seus aliados capitalistas. É muito fácil exigir que um trabalhador mal remunerado faça campanha para Lula sem exigir do próprio Lula qualquer compromisso com a melhoria de suas condições de vida. Os sacrifícios ficam para os trabalhadores, enquanto os políticos da frente ampla preservam suas alianças com os banqueiros e os grandes empresários.
As eleições são apenas um episódio da luta de classes. Os trabalhadores não podem abandonar sua organização independente nem suas reivindicações para garantir a vitória de um candidato. Sem um programa próprio, até uma vitória eleitoral poderá servir para conservar a política que permitiu o crescimento da direita. Se a classe operária entrar na campanha obrigada a calar suas reivindicações, já terá perdido a batalha principal, independentemente de quem vencer o segundo turno.




