39ª Conferência Nacional

PCO aprova: nenhum voto aos candidatos do capital

Partido da Causa Operária deliberou pelo voto nulo no segundo turno nas eleições estaduais e presidencial

Neste domingo (11), a partir das 10 horas, ocorreu a 39ª Conferência Nacional do Partido da Causa Operária (PCO), no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), em São Paulo. Convocada entre os dois turnos das eleições, a reunião discutiu o resultado do primeiro turno, fez um balanço da campanha do Partido e aprovou a orientação de voto nulo nas disputas restantes.

O PCO destaca que é o único partido brasileiro a convocar uma conferência nacional entre os turnos para deliberar coletivamente sobre sua posição. A participação da militância na discussão e na votação da política partidária deveria ser uma prática de todos os partidos, principalmente daqueles que se apresentam como representantes dos trabalhadores. Durante a campanha, Rui Costa Pimenta recusou-se a antecipar uma decisão que caberia à organização.

A equipe do Diário Causa Operária foi convidada a acompanhar a Conferência. A discussão teve como base um documento da Direção Nacional, distribuído aos presentes, que examina a crise do petismo, o avanço eleitoral da direita e as tarefas do PCO diante da situação aberta pelo primeiro turno.

O balanço considera que o resultado de 4 de outubro atingiu a própria política de acordos com a burguesia defendida pelo PT nas últimas décadas. Mesmo uma eventual vitória de Lula no segundo turno, conforme a avaliação apresentada, não resolveria o fracasso dessa orientação. O governo passou quatro anos fazendo concessões à direita, mas chegou à eleição sem conseguir atender às necessidades dos trabalhadores nem conter o crescimento do bolsonarismo.

O documento distingue esse revés das ofensivas anteriores contra o PT. No julgamento do chamado mensalão, na Lava Jato e no golpe de 2016, o partido foi atacado pela burguesia, pela imprensa capitalista e pelo Judiciário. Em 2026, a Direção Nacional identifica na política do próprio governo a causa fundamental do enfraquecimento petista: a frente ampla comprometeu Lula com os interesses dos capitalistas e afastou parcelas da população que o apoiavam.

Para explicar essa mudança, o informe retoma a crise do regime estabelecido pela Constituição de 1988. Durante anos, a disputa nacional esteve organizada em torno de dois grandes blocos, representados pelo PSDB e pelo PT. A aplicação da política neoliberal, a resistência dos trabalhadores e as sucessivas vitórias presidenciais petistas levaram a burguesia a recorrer a medidas cada vez mais abertamente autoritárias para impor seus interesses.

A repressão à greve dos petroleiros de 1995 aparece como um antecedente desse processo. O golpe contra Dilma Rousseff, a prisão de Lula e sua exclusão da eleição de 2018 aprofundaram a intervenção do Judiciário na vida política. Segundo o documento, a reversão de condenações da Lava Jato não desfez as mudanças impostas ao regime, como a censura, a perseguição a adversários e a manipulação das condições da disputa eleitoral.

Ao mobilizar a extrema direita para derrubar o PT, a burguesia também alimentou uma força que passou a disputar o comando de seu próprio campo político. O bolsonarismo ocupou o espaço perdido pelo PSDB, enquanto fracassavam as tentativas de recompor uma candidatura burguesa tradicional com força eleitoral. A crise atual do petismo, na avaliação da Direção Nacional, agrava a desorganização desse regime.

O terceiro mandato de Lula é examinado como o fracasso da tentativa de recuperar, por meio da frente ampla, as condições dos governos petistas anteriores. Subordinado aos bancos na economia e apoiado no STF para enfrentar seus adversários, o governo não realizou as reformas esperadas por sua base. As concessões aos capitalistas se acumularam sem produzir a melhora nas condições de vida que poderia sustentar o apoio popular.

O balanço também trata das derrotas da frente ampla nos estados e no Senado, da dificuldade do PSOL diante da cláusula de barreira e das mudanças na bancada petista. Conforme o levantamento apresentado pela Direção Nacional, o PT perdeu 22 deputados identificados com sua velha guarda. O documento critica a substituição de quadros com trajetória no movimento operário e popular por representantes de organizações não governamentais, personalidades da Internet e parentes de políticos.

Outro aspecto discutido foi a reação de setores do eleitorado petista ao resultado. O informe condena as manifestações de hostilidade contra trabalhadores que votaram na direita, inclusive os desejos de que sejam castigados por um futuro governo bolsonarista. Para o Partido, responsabilizar os pobres pelo fracasso da frente ampla expressa o afastamento de uma parcela da esquerda em relação à classe operária e sua aproximação com a mentalidade da direita liberal.

O documento também apresenta um balanço da campanha eleitoral do PCO. A avaliação geral foi de que o Partido realizou uma excelente campanha, ampliou a divulgação de seu programa e cresceu politicamente e em organização. A participação nas eleições foi examinada a partir desses objetivos: apresentar uma política própria aos trabalhadores, aproximar novos setores e fortalecer o Partido para as lutas posteriores à votação.

Em seguida, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, fez uma avaliação geral da situação política com base no documento. Sua intervenção foi apresentada em matéria específica deste Diário:

Rui Costa Pimenta: ‘o PT não é alternativa em nenhum sentido’

Depois do informe, abriu-se a discussão para as intervenções da militância. Os participantes debateram a análise apresentada, o resultado das eleições e a orientação que o Partido deveria adotar no segundo turno.

“É um momento de muita discussão e de fortalecimento do Partido. Já participei de várias conferências eleitorais ao longo dos anos e sempre há espaço para que o Partido ouça sua militância e decida em conjunto o que será feito em relação ao segundo turno”, afirmou a este Diário Victor Assis, membro da Direção Nacional do PCO.

Ao final, a proposta de voto nulo foi submetida à votação e aprovada. A orientação abrange tanto a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro quanto os segundos turnos das eleições para os governos estaduais.

“A discussão feita ao longo da Conferência deixou claro que a única política possível é a de voto nulo. Acima de tudo, o PCO defende seus princípios, sendo um deles a independência da classe operária diante da burguesia e do imperialismo”, explicou um participante ao DCO.

A resolução parte desse princípio para examinar as candidaturas. Um partido operário participa das eleições para divulgar seu programa e organizar os trabalhadores como uma força política independente. Por isso, sua orientação de voto precisa expressar os interesses próprios da classe operária, sem subordiná-la a uma das alas da burguesia.

O documento explica que esse critério orientou decisões diferentes em eleições anteriores. O PCO votou nulo diante das candidaturas de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, mas apoiou Lula em 2018, até sua exclusão da disputa, e em 2022. A diferença estava no caráter social e na situação concreta de cada candidatura, particularmente na relação de Lula com os trabalhadores mobilizados contra a perseguição política e o golpe.

Na avaliação aprovada, essa condição não se mantém em 2026. Depois de seu terceiro mandato, Lula chega à eleição como representante de um bloco que reúne o petismo, setores do STF e da direita tradicional, comprometido com a política do grande capital. O apoio a essa candidatura significaria orientar os trabalhadores a acompanhar um dos setores burgueses em disputa.

O informe aponta a condução econômica de Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo, a manutenção das restrições aos gastos sociais pelo arcabouço fiscal e a submissão aos interesses dos bancos. Também critica a política externa do governo, particularmente diante da Palestina e da Venezuela, e a aliança com o STF, acompanhada da defesa de medidas de censura e repressão.

O temor de um governo Flávio Bolsonaro, conforme a resolução, não elimina o problema. O Partido reconhece que uma vitória da direita poderá agravar ataques aos trabalhadores, mas rejeita transformar essa possibilidade numa obrigação permanente de apoiar candidatos comprometidos com os capitalistas. A adoção sucessiva do chamado mal menor impede a formação de uma alternativa própria da classe operária.

A capacidade de enfrentar um próximo governo dependerá da organização e da mobilização dos trabalhadores. Para desenvolver esse argumento, a resolução retoma a eleição de 2014: Dilma venceu nas urnas, mas a vitória não impediu o golpe dois anos depois. A confiança nos acordos parlamentares e nas instituições deixou o PT sem condições de organizar uma resistência à ofensiva da burguesia.

Segundo a Direção do PCO, nos próximos dias, o Partido publicará uma nota oficial descrevendo a posição aprovada. O documento citado nesta reportagem encerra com uma definição clara sobre o segundo turno:

“A classe trabalhadora não tem nada a ganhar ao votar em Lula. Por isso nossa mensagem tem de ser inequívoca: nenhum apoio aos dois candidatos do capital, trabalhador só vota em trabalhador.”

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