O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, participou de uma longa entrevista ao programa Iron Talks, na qual discutiu as eleições presidenciais, a crise do PT, a história do movimento operário e as perspectivas políticas do Brasil. Diante de apresentadores conservadores, que defenderam a eleição de Flávio Bolsonaro, Pimenta criticou duramente o governo Lula, mas rejeitou a ideia de que uma vitória do candidato do PL resolveria os problemas nacionais.
A conversa começou com uma pergunta sobre a derrota de Lula no primeiro turno. Pimenta afirmou que o resultado não decorre de erros de campanha, mas do esgotamento da política desenvolvida pelo PT ao longo de mais de duas décadas. Segundo ele, os governos petistas limitaram-se a administrar a miséria, sem enfrentar suas causas.
“Eu acho que nós estamos diante de um esgotamento da política do PT. Não é um problema de uma eleição. E certamente não é um problema técnico. Claro, eleição é uma coisa técnica, você tem que ter conhecimento. Mas eu acho que o PT sofre do seguinte: quando o PT ganhou a primeira eleição, a situação social do Brasil era muito dramática. Então ele veio com um conjunto de programas paliativos, como, por exemplo, o Bolsa Família. Quer dizer, o programa não era dirigido a corrigir uma situação. Ele era dirigido a aliviar uma situação muito ruim. E essa situação ruim continuou. Ela não melhorou. A situação social do trabalhador é muito ruim. Eles não se dão conta disso.”
Pimenta comparou as condições atuais dos trabalhadores com as de décadas anteriores, quando um operário industrial podia alimentar a expectativa de adquirir sua casa, sustentar a família e proporcionar educação aos filhos. O desaparecimento de uma parcela significativa da indústria brasileira, a perda de direitos trabalhistas e a multiplicação de ocupações informais destruíram essa perspectiva para milhões de pessoas.
O problema apareceu na discussão sobre os trabalhadores que sobrevivem como motoristas de aplicativos e entregadores. Os participantes criticaram a situação de pessoas submetidas a jornadas exaustivas, sem estabilidade e sem garantias em caso de acidente ou doença. Pimenta relacionou esse processo à desindustrialização do País e à incapacidade do PT de apresentar uma solução.
Questionado sobre as razões pelas quais o partido perdeu sua ligação com a população trabalhadora, o presidente do PCO recorreu à história de sua fundação. Embora tenha surgido durante uma das maiores ondas de greves da história brasileira, a direção petista procurou impedir que os operários assumissem o controle da organização.
“O PT não foi formado com eles. O PT era um partido de esquerdistas, a maioria deles de classe média, alguns operários, lógico, e políticos profissionais e intelectuais da USP. Então eles criaram um partido e procuraram deixar os trabalhadores fora do partido. E isso daí se reflete na situação política. Você vai ver que, na vida do PT, Lula nunca chamou os trabalhadores a intervir politicamente. Nunca. Ele, por exemplo, hoje em dia não seria possível, mas no começo do PT, se ele chamasse os metalúrgicos para ocupar as ruas de São Paulo, eles viriam. Ele tinha essa autoridade política, mas ele nunca fez isso. Então, quer dizer, o PT é um partido que se organiza marginalizando o próprio trabalhador.”
Pimenta participou das mobilizações sindicais das décadas de 1970 e 1980 e recordou assembleias com 50 mil a 70 mil metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Nelas, os operários decidiam diretamente sobre greves e acordos salariais. Lembrou ainda a atuação das oposições sindicais, que enfrentaram as direções ligadas à ditadura militar e tiveram papel decisivo na fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Durante a discussão, um dos apresentadores questionou quais conquistas aquelas greves teriam proporcionado. Pimenta apresentou exemplos de sua própria experiência no movimento sindical.
“Os trabalhadores estavam sofrendo com a inflação, como toda a população, com exceção da burguesia. Mas eles estavam sofrendo e eles reagiram. Por exemplo, uma reivindicação que era fundamental era o reajuste trimestral de salários. Nós fizemos só no sindicato dos químicos umas 300 greves pelo reajuste trimestral, fábrica por fábrica, e ganhamos o reajuste trimestral em todas. Depois veio a greve pela redução da jornada de trabalho. Essa discussão que tem hoje sobre a jornada de trabalho é daquela época. A Constituinte estabeleceu as 44 horas semanais por causa das greves. E os trabalhadores das fábricas ganharam muita coisa.”
A ascensão das oposições sindicais acabou provocando um confronto com a direção lulista da CUT. Segundo Pimenta, a oposição chegou a reunir quase metade dos delegados no congresso nacional da central. A direção petista reagiu modificando os estatutos, particularmente a partir de 1988, para marginalizar os setores que haviam dirigido as mobilizações.
Pimenta também rejeitou a teoria, apresentada como hipótese por um dos entrevistadores, de que o PT teria sido criado por iniciativa do general Golbery do Couto e Silva para enfraquecer o trabalhismo. A acusação, explicou, foi difundida pelo antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), que via no surgimento do PT uma ameaça à sua influência sobre os sindicatos.
A história das greves provocou uma divergência sobre o papel do Estado. Um dos participantes defendeu a conciliação entre patrões e empregados como alternativa aos confrontos que poderiam prejudicar a produção industrial. O presidente do PCO respondeu que as conquistas dos trabalhadores nunca foram concessões espontâneas dos capitalistas.
“O Estado não defende o trabalhador. Quem defende o trabalhador é o próprio trabalhador. Esse negócio do Estado benevolente, protetor, isso é um mito. O Estado é uma ferramenta, mas quem utiliza o Estado são os poderosos, são os capitalistas, são os donos do dinheiro. Se eles derem alguma coisa para o trabalhador, é porque eles têm medo de que o trabalhador vá arrancar mais do que eles estão dando diretamente.”
A perda dessa capacidade de mobilização ajuda a explicar, segundo Pimenta, a situação atual do PT. O partido afastou-se dos operários e passou a ser dominado por uma camada de classe média, que frequentemente demonstra desprezo pelos trabalhadores que não acompanham suas posições políticas.
O dirigente criticou particularmente a hostilidade de setores petistas contra os brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro.
“Eu vejo muitos petistas falarem do eleitorado do Flávio Bolsonaro de uma maneira muito negativa. Eu sou contra isso. Eu acho assim: a pessoa decidiu votar no Flávio Bolsonaro, ela tem os seus motivos. Nunca vou falar que a pessoa, como eu ouvi, é um retardado, perverso, nunca. Até porque eu acho assim: esse pessoal que está votando no Bolsonaro votou no Lula. É o mesmo povo. Eles hoje votam no Bolsonaro. Amanhã ninguém sabe o que eles vão fazer. A sociedade muda. As pessoas mudam. As pessoas estão sob o impacto da situação do momento.”
Pimenta avaliou que tanto entre os eleitores de Lula quanto entre os de Bolsonaro existe uma profunda insatisfação com a situação nacional. A preferência por um ou outro candidato depende das alternativas que cada setor da população considera possíveis. Por isso, classificou como um grave erro político tratar os votos na direita como expressão de uma adesão definitiva ao bolsonarismo.
Sobre a possibilidade de Lula vencer o segundo turno, afirmou que uma recuperação seria teoricamente possível, mas muito difícil. Na sua avaliação, o PT atravessa um declínio irreversível e o sistema político brasileiro caminha para uma reorganização de forças, processo que também se manifesta em outros países.
A discussão ganhou força quando os apresentadores passaram a defender a eleição de Flávio Bolsonaro. Um deles argumentou que a nova composição do Congresso e do Senado permitiria ao candidato realizar reformas econômicas e enfrentar os obstáculos que, segundo sua interpretação, impediram Jair Bolsonaro de governar.
Pimenta contestou a expectativa. Explicou que vencer uma eleição não significa conquistar o controle do Estado. Os principais centros do poder econômico permanecem nas mãos dos grandes capitalistas, independentemente de quem ocupa a Presidência. Para ilustrar sua posição, comparou os políticos a empregados que vivem no quarto de despejo de uma mansão: o fato de habitarem a propriedade e cuidarem dela não os transforma em seus donos.
O presidente do PCO comparou a situação de Flávio Bolsonaro à chegada de Lula ao governo em 2002. Segundo sua análise, o petista somente pôde assumir a Presidência porque aceitou entregar a política econômica aos representantes dos bancos. Pimenta afirmou que Flávio já havia estabelecido um acordo semelhante.
“Os donos do País chamaram ele e falaram assim: você quer governar o País? Ele falou: quero. Então você vai aceitar aqui esses nomes da política econômica que nós vamos indicar para você. Indicaram o ministério econômico dele, que é o ministério dominado pelos banqueiros, e a política econômica também. Ele se conformou com esse papel e tentou atuar nas brechas que esse sistema permitia. Está aí uma das grandes causas do fracasso dele, porque isso aí não é nada. O Flávio Bolsonaro já fez esse acordo. Essa Daniela Marques é uma mulher dos bancos. Quem vai ditar a política econômica são os bancos.”
Pimenta recorreu a outra comparação para explicar a submissão dos governos ao capital financeiro: os banqueiros decidem como será construída a casa, enquanto o presidente recebe autorização para escolher as cortinas. Advertiu que, caso Flávio Bolsonaro tente contrariar os interesses que controlam a política econômica, poderá enfrentar uma crise capaz de impedir a conclusão de seu mandato.
O dirigente também atacou a proposta de ampliar as privatizações e a abertura econômica. Lembrou que o neoliberalismo foi aplicado em diferentes países, destruindo indústrias e empobrecendo suas populações. Para ele, uma nova rodada de medidas dessa natureza aprofundaria a situação que levou o PT à derrota eleitoral.
Perguntado diretamente se Lula seria, então, o candidato menos ruim, Pimenta rejeitou a política dos dois concorrentes.
“O caso Lula é um caso encerrado. A política do Lula nunca foi a minha. Eu não acredito que a fórmula dele leve o País para algum lugar. É uma ilusão. Eu não vou chegar e falar assim: vamos acreditar nessa ilusão. Porque seria uma canalhice da minha parte. Eu vejo o pessoal do PT acreditar que isso daí é uma coisa muito boa. Eu não acho. Eu acho que nós estamos nessa situação ruim porque essa política não leva a lugar nenhum. Mas não acho que o Flávio Bolsonaro vai ser melhor, não.”
Outra divergência surgiu na discussão sobre o crescimento dos movimentos nacionalistas. Pimenta sustentou que a decadência da dominação norte-americana está permitindo o aparecimento de forças que procuram conquistar maior independência para seus países. Distinguiu, porém, o nacionalismo econômico, baseado na defesa dos interesses nacionais, daquele que se limita a exibir a bandeira do País enquanto mantém a submissão ao imperialismo.
A guerra contra o Irã foi apresentada como uma manifestação da crise dos Estados Unidos. Para Pimenta, a resistência iraniana demonstra que Washington já não consegue impor sua vontade como fazia anteriormente. Seus fracassos militares e políticos encorajam outros povos a enfrentar a dominação imperialista.
Os apresentadores questionaram se o marxismo não estaria em desvantagem diante de movimentos nacionalistas que procuram apoio nas tradições religiosas e culturais de seus povos. Pimenta respondeu que o PCO não pretende impor sua ideologia à população, mas organizar a luta em torno dos interesses concretos dos trabalhadores.
“Nós somos, no Brasil, o partido que mais apoia o Irã. Nós temos uma verdadeira paixão pelo Irã. E nós temos uma paixão pelo Hamas, na Palestina. Agora, o que é o Irã? O Irã é um país dominado pelo clero xiita. Nós somos marxistas. Não temos nada a ver com isso. Nós nem acreditamos em Deus. Mas o problema é o seguinte: você não pode travar uma guerra ideológica. Você tem que olhar a ideologia, ela deve servir para esclarecer os problemas no mundo real, não para um confronto ideológico.”
Pimenta explicou que o apoio do Partido ao Irã decorre da luta daquele país contra o imperialismo e de seu auxílio à resistência dos povos do Oriente Médio. As diferenças religiosas não impedem essa unidade política. Pelo contrário, o dirigente defendeu o respeito às crenças dos povos que combatem a dominação estrangeira.
A questão palestina também foi discutida. Questionado sobre a diferença entre a resistência palestina e a ocupação sionista, Pimenta afirmou que o sionismo representa uma política colonial, comparando os colonos instalados na Palestina aos franceses que ocuparam a Argélia. Defendeu o direito dos palestinos de recuperar suas terras e combater a ocupação.
Ao tratar do Brasil, explicou que a luta pela independência nacional não exige que os participantes compartilhem a mesma religião ou concepção filosófica.
“Nós não vamos nos chocar com o povo brasileiro porque ele é católico ou mesmo protestante. Tem 30% de protestantes. Nós não vamos entrar nesse negócio. Para nós, a luta maior é contra o imperialismo, a defesa do País, é o progresso do País, é o bem-estar do povo. Então é um programa que qualquer católico, qualquer muçulmano, qualquer protestante pode abraçar. É o programa do brasileiro.”
O programa dedicou uma parte extensa à discussão do comunismo. Os apresentadores recorreram às experiências da União Soviética e da China para questionar a possibilidade de uma sociedade sem classes. Pimenta distinguiu o marxismo da política da burocracia estalinista, responsável por impor uma ditadura e comprometer o desenvolvimento econômico soviético.
Criticou especialmente a orientação de sacrificar a produção de bens de consumo em favor de uma industrialização concentrada na indústria pesada. Para o presidente do PCO, a incapacidade de oferecer à população os produtos necessários ao seu bem-estar contribuiu para as sucessivas crises enfrentadas pela União Soviética.
“As pessoas acham que o comunismo é um sistema que é inimigo da liberdade das pessoas. Essa é uma tese totalmente absurda. Tem a ver com a União Soviética, porque o estalinismo era uma ditadura implacável. Mas, por exemplo, Marx nem sairia de casa se fosse para fazer um negócio tipo da União Soviética. A essência do comunismo é o bem-estar da população. Senão, nem tem sentido você ter uma doutrina, seria uma coisa meio perversa. Quer dizer, eu quero ter uma doutrina onde todo mundo vai sofrer. Não faz sentido. Pelo contrário, isso quer acabar com o sofrimento das pessoas.”
Pimenta explicou que uma sociedade comunista precisaria alcançar um grau de desenvolvimento econômico capaz de satisfazer amplamente as necessidades da população. A abundância permitiria reduzir radicalmente a jornada de trabalho e dar a milhões de pessoas a oportunidade de desenvolver seus talentos, em vez de consumir a maior parte da existência na luta pela sobrevivência.
Quando os apresentadores questionaram quem realizaria as tarefas desagradáveis, o dirigente apresentou exemplos de organização comunitária e de divisão coletiva do trabalho. Recordou experiências de sua juventude e afirmou que, quando as pessoas reconhecem que uma organização social atende às suas necessidades, estão dispostas a contribuir para seu funcionamento.
Também rejeitou a ideia de que a revolução produziria imediatamente uma sociedade perfeita. Segundo ele, uma revolução resulta de contradições que chegam a um ponto insustentável, enquanto a eliminação das classes sociais e da escassez constitui um processo histórico prolongado.
A discussão econômica voltou ao problema dos bancos. Pimenta defendeu a estatização do sistema financeiro como condição para recuperar a indústria brasileira e libertar o País da submissão aos grandes capitalistas. Citou o economista Celso Furtado como um dos defensores dessa medida e lembrou que o controle estatal sobre os bancos e grandes setores industriais foi decisivo para o desenvolvimento chinês.
Já próximo ao encerramento, uma pergunta enviada pelo público abordou o peso da dívida pública sobre o orçamento nacional. Pimenta respondeu apresentando diretamente o programa defendido pelo PCO.
“Não tem que pagar a dívida. O País está sufocado pela dívida. Isso daí é uma obrigação contratual que um país soberano pode simplesmente desconhecer. E já aconteceu inúmeras vezes no mundo. Não é que eu estou propondo uma coisa que não existiu. Tem que parar de pagar a dívida e estatizar os bancos.”
A entrevista também abordou a proibição das apostas promovida pelo governo Lula. Pimenta criticou a tentativa de controlar as escolhas pessoais da população e defendeu que o Estado fiscalize as empresas para impedir fraudes, sem recorrer à proibição geral dos jogos. Lembrou que as apostas fazem parte dos costumes brasileiros e que sua ilegalidade nunca conseguiu impedir a existência de estabelecimentos clandestinos.
Ao final da transmissão, os apresentadores agradeceram a participação de Rui Costa Pimenta e manifestaram interesse em recebê-lo novamente. Também discutiram a possibilidade de promover novos encontros com personalidades de diferentes posições políticas.
Pimenta elogiou a oportunidade de discutir suas ideias diante de um público que não compartilha necessariamente das posições do PCO. Ao comentar as possibilidades oferecidas pelos novos meios de comunicação, afirmou:
“Eu acho que a internet, nesse sentido, é uma revolução na comunicação.”





