Editorial

Lula faz Flávio parecer o ‘mal menor’ para os aposentados

Enquanto Flávio promete aumentos acima da inflação, governo Lula estuda reduzir a valorização das aposentadorias para atender às exigências dos banqueiros

Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, nesta quinta-feira (8), conceder aumentos reais às aposentadorias caso seja eleito presidente. A declaração foi feita em resposta às notícias de que sua equipe econômica estudava medidas para cortar despesas previdenciárias. O candidato bolsonarista percebeu uma oportunidade criada pelo próprio governo Lula, que não concedeu aumentos reais aos aposentados que recebem acima de um salário mínimo e agora estuda novas restrições aos benefícios.

Durante o atual governo, apenas os aposentados que recebem o piso previdenciário foram contemplados pela política de valorização do salário mínimo. Para quem ganha mais, os reajustes ficaram limitados à inflação oficial. Isso significa que milhões de aposentados passaram os últimos anos sem qualquer aumento efetivo de seus rendimentos.

A equipe econômica de Lula, porém, considera isso insuficiente. Conforme noticiado em agosto, o Ministério da Fazenda estuda, para um eventual novo mandato, uma mudança que reduziria a valorização das aposentadorias em relação ao salário mínimo. A proposta permitiria conter o crescimento das despesas previdenciárias, fazendo os aposentados pagarem a conta do ajuste fiscal exigido pelos banqueiros.

A discussão ganhou força quando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou Pedro Malan e Armínio Fraga, dois dos principais responsáveis pela política econômica dos governos de Fernando Henrique Cardoso, para discutir os rumos de um possível quarto mandato de Lula. O governo petista, que pede votos para impedir a volta da direita, busca justamente entre os representantes da política econômica tucana a orientação para administrar o País.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, resolveu prometer o contrário. Ele declarou: “Eu não vou fazer economia em cima de quem precisa. Das pessoas mais carentes desse Brasil. Aposentado, fique tranquilo. Não caia nessa fake news do PT dizendo que eu vou acabar com reajuste de aposentadoria. Pelo contrário”. Questionado se assumia o compromisso de conceder aumentos reais, respondeu afirmativamente.

A promessa não apaga o fato de que sua própria equipe econômica também estudava cortes previdenciários. Mas Flávio teve ao menos o cuidado de rejeitar publicamente uma medida que prejudicaria milhões de eleitores. Lula, ao contrário, deixa seus auxiliares discutirem como economizar dinheiro à custa das aposentadorias, justamente quando deveria apresentar propostas para recuperar o poder de compra da população.

O resultado do primeiro turno mostrou o desgaste do governo petista. Em vez de responder às necessidades dos trabalhadores, Lula procura conquistar a confiança dos grandes bancos, oferecendo garantias de austeridade fiscal. Quanto mais concessões faz ao capital financeiro, menos motivos oferece aos trabalhadores para apoiarem sua candidatura.

O PT insiste em apresentar a eleição como uma disputa entre a democracia e o fascismo. Entretanto, sua política econômica aproxima-se cada vez mais daquela defendida pelos banqueiros, que exigem a redução das despesas públicas para assegurar o pagamento da dívida. O dinheiro que falta para aumentar aposentadorias não falta para remunerar o capital financeiro.

A situação chegou ao ponto de um candidato bolsonarista conseguir apresentar uma promessa mais favorável aos aposentados do que a política efetivamente aplicada pelo governo petista. Não porque Flávio tenha abandonado os interesses da burguesia, mas porque Lula se comprometeu de tal maneira com o ajuste fiscal que oferece à direita a oportunidade de explorar reivindicações populares elementares.

Para conquistar a confiança dos bancos, Lula perde a confiança do povo. Sua própria política alimenta o crescimento da oposição que pretende derrotar. Flávio Bolsonaro, ao menos durante a campanha, parece ter compreendido aquilo que o PT se recusa a admitir: ninguém conquista o apoio dos aposentados anunciando que pretende economizar dinheiro sobre suas aposentadorias.

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