Manifestantes marcharam nesta terça-feira (6) até a embaixada dos Estados Unidos, em Tóquio, para exigir a retirada das tropas norte-americanas do Japão. O protesto ocorreu após a prisão do fuzileiro Devin Jacob Ballard, de 20 anos, acusado de matar Anna Yagi, de 39, em um hotel de Naha, capital de Oquinaua, e roubar seus pertences.
Ballard está lotado na base aérea de Futenma. Segundo a polícia japonesa, Yagi morreu asfixiada. O governo japonês apresentou protesto formal a Washington e o comando norte-americano impôs toque de recolher, restrições ao consumo de álcool e dois dias de suspensão das atividades para treinamento disciplinar. Oquinaua concentra a maior parte dos fuzileiros dos Estados Unidos estacionados no Japão.
As medidas não contiveram a revolta. Diante da embaixada, uma manifestante afirmou: “Nem os militares dos Estados Unidos nem a embaixada apresentaram um pedido de desculpas adequado. É natural estar com raiva disso”. Outro participante ligou diretamente os crimes à existência das bases: “É realmente revoltante que a presença dessas bases leve mulheres a serem mortas ou estupradas dessa maneira. Não posso perdoar isso”.
O protesto de Tóquio é apenas o episódio mais recente de uma luta que atravessa gerações. Oquinaua corresponde a somente 0,6% do território japonês, mas concentra cerca de 70% da área das instalações de uso exclusivo das forças norte-americanas no país. Na ilha principal, aproximadamente 15% do território é ocupado por bases. O próprio governo provincial registra problemas de ruído, acidentes, crimes e contaminação relacionados às instalações militares.
A presença norte-americana começou com a invasão de Oquinaua, em 1945. Os Estados Unidos construíram instalações ainda durante a batalha e conservaram a ilha sob sua administração depois da guerra. Oquinaua só voltou formalmente à administração japonesa em 1972. As bases, porém, permaneceram.
Desde então, milhares de soldados estrangeiros continuam instalados permanentemente na ilha, com áreas próprias para bases, treinamento e operações militares. Essa presença é uma das expressões da subordinação do Japão aos Estados Unidos depois de sua derrota na Segunda Guerra Mundial.
A oposição popular às bases nunca desapareceu. Manifestações são realizadas contra sua ampliação, contra os voos militares, contra acidentes, agressões sexuais e contra a construção de novas instalações em Henoco. Em agosto de 2024, organizadores calcularam que cerca de 2.500 pessoas participaram de um ato em Ginouan contra casos de violência sexual perpetrados por militares norte-americanos.
A população também se pronunciou diretamente contra a expansão das instalações. No plebiscito de fevereiro de 2019 sobre o aterro necessário à construção da nova base de Henoco, 434.273 pessoas, 71,7% dos votos, disseram não ao projeto; 114.933, ou 19%, votaram a favor. Mesmo assim, as obras foram mantidas pelo governo central, capacho dos EUA.
Os crimes praticados por integrantes das forças norte-americanas estão entre os principais motivos da revolta. Em setembro de 1995, três militares sequestraram uma menina de 12 anos e a estupraram. No mês seguinte, ocorreu a maior manifestação contra as bases até então. Os organizadores estimaram 85 mil participantes. Parte dos manifestantes marchou até Futenma gritando “Yankee, go home” (“Gringo, vá para casa”).
O crime também expôs os privilégios concedidos aos militares pelo acordo que regula a presença das tropas norte-americanas. Os acusados permaneceram sob custódia dos Estados Unidos até serem formalmente indiciados e só então foram entregues à polícia japonesa. A demora ampliou a indignação popular e transformou o estupro numa grave crise entre Washington e Tóquio.
Em 2016, outro caso provocou enorme revolta. Rina Shimabukuro, de 20 anos, foi estuprada e assassinada por Kenneth Franklin Shinzato, ex-fuzileiro norte-americano que trabalhava numa instalação militar dos Estados Unidos. O Tribunal Distrital de Naha condenou Shinzato à prisão perpétua em dezembro de 2017.
As denúncias não ficaram no passado. Novos casos de violência sexual envolvendo militares voltaram a levar milhares de pessoas às ruas nos últimos anos. O governo e a Assembleia de Okinawa acumulam protestos contra agressões, acidentes, ruído de aeronaves e problemas ambientais relacionados à concentração militar. A prisão de Ballard acrescentou outro caso a uma história que já dura décadas.
Essa presença estrangeira remonta diretamente ao fim da Segunda Guerra Mundial. O Japão imperial havia submetido vários povos asiáticos a uma guerra de conquista brutal. A derrota do regime japonês, porém, veio acompanhada de um massacre contra a própria população do país. Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre Hiroxima. Três dias depois, outra bomba destruiu Nagasaqui.
A esmagadora maioria das vítimas era civil. Os bombardeios foram um dos maiores crimes da história recente da humanidade. O Japão já estava militarmente devastado, com sua Marinha derrotada, sua aviação praticamente destruída e numerosas cidades arrasadas por bombardeios convencionais. Em 8 de agosto, entre os dois ataques nucleares, a União Soviética entrou na guerra contra o Japão. As bombas foram também uma demonstração de força do imperialismo norte-americano diante da União Soviética e dos povos de todo o mundo.
Depois da derrota veio a ocupação direta pelos Estados Unidos. Ela terminou juridicamente, mas os acordos militares e as bases permaneceram. Oquinaua, mantida por Washington sob administração direta até 1972, carrega até hoje a maior parte dessa presença.
É por isso que cada novo crime cometido por um integrante das forças norte-americanas atinge um problema muito maior que a responsabilidade individual do acusado. Mais de oito décadas depois da guerra, tropas estrangeiras continuam ocupando extensas áreas do arquipélago, e Oquinaua suporta uma parcela desproporcional dessas instalações.
Os manifestantes que marcharam sobre a embaixada norte-americana em Tóquio não pediram apenas novas punições disciplinares aos soldados. A reivindicação que voltou às ruas foi a mesma sustentada há décadas pelo movimento contra as bases: a retirada das tropas dos Estados Unidos do Japão.


