Amapá

Jairo Palheta defende exploração da Margem Equatorial no debate da NCTV

Candidato do PCO criticou a política de terras do governo estadual e defendeu formação técnica e participação popular sobre os recursos do petróleo

Jairo Palheta, candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo do Amapá, participou nesta segunda-feira (28) do debate promovido pela NCTV Amapá. Também estiveram no programa Clécio Luís (União Brasil), Carlos Cley (PSTU) e Marcos Reátegui (DC). Antônio Furlan (PSD), igualmente convidado, não compareceu.

No primeiro confronto, diante do governador Clécio Luís, o candidato falou de sua própria atividade como agricultor e criticou a política estadual para os assentamentos. Segundo ele, as quatro associações existentes em seu assentamento não receberam apoio do programa Amapá Mais Produtivo.

“Para quem mora no interior, eu sou agricultor familiar, trabalho com produção de mandioca, macaxeira. O meu assentamento, este ano, nós não tivemos apoio, nem para o ano que vem, do governo do estado, porque nós somos quatro associações lá e nenhuma das nossas associações teve acesso ao Amapá Mais Produtivo deste ano. Hoje, se você for nos centros urbanos e nas periferias de Macapá, a gente observa que o maior consumo de alimentos é de alimento embutido, que faz muito mal, tem muito hormônio, tem muito sal e faz mal para a nossa comunidade. Por quê? Porque não está tendo investimento na agricultura familiar. A agricultura familiar está basicamente deixada de lado.”

Jairo contrapôs a pequena produção à expansão da soja no estado. Sustentou que a promessa de que o cultivo do grão ajudaria a diminuir o preço da ração não se confirmou e afirmou que parte importante dessa produção segue para o exterior. Clécio contestou a crítica e declarou que a maior parte dos títulos concedidos em terras estaduais é destinada à agricultura familiar, acrescentando que os assentamentos federais não estão sob administração direta do governo do Amapá.

O candidato do PCO respondeu apontando para aquilo que chega diariamente às feiras do estado.

“Toda a soja que está sendo produzida no Amapá está sendo embarcada, vai para a China, está indo para a França para alimentar porcos de lá, enquanto a nossa produção não melhorou em nada aqui. Hoje, a saca da ração só está aumentando de preço. Nós esperávamos cair esse preço e não caiu porque a produção que está sendo feita não está ficando aqui, não está sendo transformada aqui em ração. Se você for à feira, você não vai achar nenhum produto do agronegócio. Você vai achar produto da agricultura familiar, que é quem faz a macaxeira, mandioca, cheiro-verde, pimentão, a galinha caipira; é quem alimenta as feiras de Macapá.”

A exploração de petróleo na costa do Amapá foi outro assunto colocado diretamente a Jairo. Em duelo com Marcos Reátegui, ele defendeu que o estado prepare desde já trabalhadores para os empregos mais qualificados da indústria petrolífera. Para isso, citou o Instituto Federal do Amapá (IFAP), a Universidade Federal do Amapá (Unifap) e a Universidade do Estado do Amapá (Ueap).

“Quando fomos candidatos em 2024 à Prefeitura de Macapá, nós já falávamos: precisamos pegar o IFAP, a Unifap e a Ueap para formar, na verdade, engenheiros. Ouve-se muito falar em técnico, em cursinho que dão por aí, isso é importante. Hoje, se a Petrobrás viesse explorar petróleo aqui, o nosso pessoal ia servir para limpar o chão, servir de segurança, motorista, o serviço básico. E nós não teríamos capacidade de empregar os nossos jovens porque os jovens não estão formados como deveriam.”

Jairo citou particularmente a engenharia química e questionou por que os cursos necessários à eventual indústria do petróleo não começaram a ser organizados antes. Marcos concordou com a necessidade de qualificação profissional, embora tenha ressaltado que a produção comercial ainda não está confirmada e que seria preciso preparar também a infraestrutura do estado, especialmente o Porto de Santana.

A discussão não ficou apenas na preparação da mão de obra. Jairo defendeu que a população acompanhe diretamente o destino do dinheiro obtido com uma eventual exploração. Sua proposta é criar um Conselho Popular do Petróleo com representação de trabalhadores e setores atingidos diretamente pelas decisões econômicas do estado.

“Nós vamos criar o Conselho Popular do Petróleo, que vai estar ligado diretamente aos quilombolas, aos índios, às domésticas, aos desempregados, aos professores, aos estudantes das universidades, às universidades, para que possam participar. Porque, se não for dessa forma, se nós não fiscalizarmos, a gente vai correr no mesmo erro. A população precisa participar.”

A formação profissional reapareceu no confronto seguinte com Clécio, desta vez com a educação como tema sorteado. Jairo questionou por que recursos disponíveis ao estado não haviam sido utilizados anteriormente para ampliar a preparação técnica dos jovens. Clécio respondeu que o governo já havia iniciado o Qualifica Amapá, afirmou que cinco mil alunos estavam matriculados e anunciou mais cursos em parceria com IFAP, Unifap, Ueap e Senai.

Nesse mesmo duelo, Jairo atacou a relação política entre Clécio e o senador Davi Alcolumbre. Chamou o senador de “patrão” político do governador e afirmou que a influência de Alcolumbre condicionaria a administração estadual. Clécio rejeitou a acusação, respondeu que seu “patrão é o povo” e afirmou que não recebe ordens do senador. A acusação voltou mais tarde e resultou em um direito de resposta concedido ao governador pela organização do debate.

Na rodada sobre saúde, Jairo dividiu a responsabilidade pelos problemas do sistema estadual entre a administração atual e governos anteriores. Concentrou sua intervenção no tratamento de câncer e defendeu maior autonomia para a Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon).

“Hoje nós estamos vivendo um caos na saúde pública do Amapá. Não é de agora, não é só culpa do governador Clécio. Ele também é culpado, mas não é só dele. Inclusive do predecessor dele, que o elegeu, o Waldez Góes, e de Waldez Góes para trás, sucessivamente. O que é que nós propomos? Nós vamos criar a Unacon, porque um dos maiores problemas hoje é o câncer no Amapá. Hoje a Unacon está dentro de uma estrutura hospitalar e, até esse recurso sair do gabinete, passar pela Secretaria, passar pela administração e chegar na Unacon, existem muitas outras necessidades.”

O candidato também criticou a terceirização na saúde e relatou dificuldades enfrentadas por pacientes que dependem de Tratamento Fora de Domicílio (TFD). Citou o caso de uma prima que, segundo seu relato, somente conseguiu o atendimento fora do Amapá quando sua situação já estava gravemente deteriorada.

Nas considerações finais, Jairo retornou ao ponto que havia aberto sua participação. Apresentou-se como produtor de pimenta, mandioca e macaxeira e voltou a defender o investimento na agricultura familiar. Também criticou a concentração das obras públicas em grandes contratos e propôs dividir parte dos serviços para permitir a participação de empresas menores.

“Eu sou trabalhador, trabalho com produção de pimentinha, macaxeira e mandioca. A agricultura familiar é quem mais emprega depois do setor público no Amapá. Se nós democratizarmos a terra, a gente vai gerar mais riqueza. Nós precisamos produzir aqui no Amapá uma riqueza que hoje nós temos. Vamos produzir alimento de qualidade para que você pare de estar comendo só embutido, para que seu filho pare de estar comendo só mortadela. Nós precisamos baixar o preço das verduras, das carnes frescas, mas só investindo na agricultura familiar, não investindo no agronegócio que concentra a terra.”

O debate ocorreu nos estúdios da NCTV Amapá e foi transmitido na reta final do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A emissora havia convidado os cinco candidatos registrados para a disputa estadual.

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