O governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), foi acusado de intimidar, ameaçar e tentar subornar Iraciely, candidata a vice-governadora na chapa de Jairo Palheta, do Partido da Causa Operária (PCO). Segundo Palheta e fontes ouvidas pelo Diário Causa Operária, a pressão teria começado poucas horas depois do debate realizado pela NCTV Amapá, na segunda-feira (28).
O programa colocou Jairo frente a frente com Clécio. A participação do PCO foi particularmente incomum numa campanha em que o Partido tem denunciado sua exclusão de debates eleitorais. Jairo aproveitou a oportunidade para atacar a administração estadual e expor as ligações políticas do governador com Davi Alcolumbre, presidente do Senado e principal dirigente do União Brasil no Amapá.
Clécio tem uma trajetória que começou no PT, passou pelo PSOL, Rede e Solidariedade e chegou neste ano ao União Brasil, partido comandado no estado pelo grupo de Alcolumbre. A proximidade política entre os dois é pública.
Pouco depois do debate, Jairo divulgou por aplicativos de mensagem um áudio relatando que havia recebido informações de que sua vice estava sendo procurada e pressionada.
“Olá, companheiros, eleitores, novos eleitores. Aqui é Jairo Palheta, candidato do PCO ao governo do Amapá. Boa noite. Sou liderança também do sem-teto e do sem-terra. Hoje, daqui a pouco tempo, algumas horas, fiquei sabendo por terceiros que o senhor Clécio Luís, o governador do Amapá, futuro ex-governador, está intimidando, ameaçando e até tentando subornar a nossa candidata a vice. Tenho certeza que ela não irá se dobrar a mais esse ataque que estão fazendo à nossa única candidatura operária nessa eleição.”
Segundo os relatos recebidos pelo DCO, a investida teria incluído uma oferta de dinheiro para que Iraciely atacasse publicamente Jairo. Também teriam sido feitas ameaças.
Para Jairo, a reação teria sido provocada diretamente pelo que disse na televisão. Durante o debate, ele apresentou Clécio como subordinado politicamente a Alcolumbre e mencionou as mensagens encontradas pela Polícia Federal no telefone de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
“O candidato partiu para o desespero depois que lá, da NCTV, falei que ele é mandado do Davi Alcolumbre. Alcolumbre é o patrão dele e que, segundo a própria Polícia Federal, ele é amigo de Vorcaro, para o qual enviava mensagem tipo ‘meu amor’, e ainda o próprio Vorcaro disse que mandou 35 milhões de dólares para ele, e eu ia ficar calado?”
Conversas obtidas pela Polícia Federal e reveladas pela imprensa mostram uma relação pessoal próxima entre Alcolumbre e Vorcaro. Em fevereiro de 2025, após ser parabenizado pelo banqueiro por sua eleição à Presidência do Senado, Alcolumbre respondeu: “Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna!”. Em outra conversa, escreveu: “Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!”. Alcolumbre sustenta que as trocas eram pessoais e que não demonstram qualquer ilegalidade.
O valor atribuído pela imprensa à proposta de colaboração de Vorcaro envolvendo Alcolumbre foi de US$30 milhões. A Polícia Federal não aceitou a proposta, e o presidente do Senado nega ter recebido dinheiro do ex-banqueiro.
O ponto levantado por Jairo no debate, porém, era político: Clécio disputa a reeleição abrigado justamente no partido controlado no Amapá pelo grupo de Alcolumbre. O candidato do PCO usou seu tempo na NCTV para levar essa relação ao centro da disputa estadual.
Foi depois disso, segundo Palheta, que sua candidata a vice passou a ser alvo das pressões.
O episódio atinge uma chapa muito diferente das grandes máquinas que disputam o governo estadual. Jairo é trabalhador rural, ligado aos movimentos de sem-terra e sem-teto, e não integra os grupos tradicionais que controlam a política amapaense. É justamente essa condição que torna o caso particularmente grave: um trabalhador conseguiu chegar a um debate de televisão, denunciou o governador e seus principais aliados e, horas depois, recebeu a informação de que sua vice estaria sendo pressionada.
Jairo também relacionou diretamente o episódio à exclusão sofrida pelo Partido nos meios de comunicação:
“É por isso, e você que está ouvindo, que a gente observa que é tão raro que uma emissora como a NCTV teve a coragem de chamar o PCO para esse tipo de debate, porque só o nosso Partido fala aquilo que o povo precisa ouvir e que os grandes patrões tentam esconder a sete chaves.”
A trajetória de Clécio é um dos elementos utilizados pelo PCO para atacar a apresentação de seu governo como progressista. Ele participou da fundação do PSOL no Amapá e foi eleito prefeito de Macapá pelo partido, mas posteriormente passou pela Rede, pelo Solidariedade e finalmente pelo União Brasil. Hoje disputa a eleição integrado ao grupo político de Alcolumbre.
Na interpretação do Partido, essa passagem é representativa da formação de uma ampla coalizão de interesses em torno do governo estadual, distante da independência política dos trabalhadores. Essa é uma avaliação partidária; o fato concreto é que Clécio chegou ao União Brasil e mantém aliança política com Alcolumbre, enquanto Jairo disputa pelo PCO sem a estrutura eleitoral dos grandes partidos.




