Polêmica

O ‘não à barbárie’ nada mais é que a política do mal menor

Editorial de A Terra é Redonda apresenta a eleição como escolha entre democracia e catástrofe, mas deixa em segundo plano as contradições do governo e das instituições que pretende

O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso

O editorial Não à barbárie!, publicado por A Terra é Redonda nesta sexta-feira (25), apresenta as eleições de 2026 como algo muito maior do que uma disputa entre candidaturas. De um lado estaria a manutenção do Estado Democrático de Direito; do outro, forças que levariam o Brasil à autocracia, à condição de protetorado dos Estados Unidos e até ao risco de desintegração nacional.

Essa formulação, convenientemente, torna secundária a discussão sobre o que o próprio governo fez, quais interesses atendeu e quais reivindicações populares deixou de realizar. Flávio Bolsonaro, é um direitista, mas a política do “mal menor” desvia o debate. Como o governo Lula entregou pouco para o trabalhador, passa-se a insistir sobretudo no perigo representado pelo adversário.

O expediente fica claro quando o editorial afirma que não se trata propriamente de defender o governo Lula, mas de impedir a “barbárie”. Mais adiante, resume sua posição ao dizer que “o mais realista agora é defender Lula”.   A campanha deixa, assim, de ser apresentada a partir de um programa próprio e passa a ser organizada em função do que poderia ocorrer caso o adversário vença.

A política que o editorial apresenta não apresenta limites . Em nome do “mal menor”, setores da esquerda brasileira chegaram a apoiar Joe Biden contra Donald Trump. É a lógica é recorrente de que diante de um adversário apresentado como ameaça excepcional, alianças cada vez mais amplas passam a ser justificadas.

No Brasil, isso significa pedir ao eleitor que defenda uma coalizão cuja vice-presidência é ocupada por Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB e adversário histórico do PT. Alckmin continua oficialmente como vice-presidente da República em 2026. O editorial, praticamente não discute o significado político dessa composição.

Em lugar disso, constrói uma longa sequência de previsões sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro. Afirma que haveria emparedamento do Judiciário, vigilância generalizada, destruição de direitos, privatização de empresas estratégicas, desestruturação do SUS, desaparecimento da universidade pública como existe hoje e até risco à unidade territorial brasileira.

Supondo que isso seja verdade, qual é a política a ser defendida? Tem que ser a do enfrentamento, o da organização da classe trabalhadora. Não dá para tentar convencer pessoas apresentando uma cadeia de acontecimentos futuros como se sua realização estivesse estabelecida. O editorial passa da crítica política para uma previsão catastrófica e utiliza essa previsão para fundamentar sua conclusão eleitoral.

Qualquer que seja o resultado, a prioridade tem que ser a defesa da independência de classes e de um programa próprio dos trabalhadores.

A própria defesa do chamado Estado Democrático de Direito aparece sem exame suficiente do papel das instituições que deveriam representá-lo. Em março de 2025, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal mudou seu entendimento sobre o foro por prerrogativa de função. Por maioria, decidiu que o foro para crimes cometidos durante o cargo e em razão dele pode continuar mesmo depois que a autoridade deixa a função, inclusive quando o inquérito ou a ação penal são iniciados posteriormente. A nova interpretação passou a valer imediatamente para processos em curso. 

Não existe uma “democracia” abstrata, situada fora das disputas políticas. Não existe Estado Democrático de Direito quando o próprio STF modifica o alcance de sua competência, usurpa atribuições do Congresso e passa a legislar, ou quando abre um inquérito sem prazo para ser encerrado e que a cada oportunidade vai introduzindo elementos novos.

Há ainda um esforço para explicar o crescimento da extrema direita principalmente pela manipulação. Segundo o editorial, técnicas de produção de imagem e a disseminação pela internet teriam levado parte dos eleitores a acreditar “que o mal é o bem, que a mentira é a verdade, que o mau é bom, que o ignorante é sábio”.

Manipulação da informação, campanhas de imprensa e utilização política de escândalos existem muito antes das redes sociais. Basta recordar o Mensalão e a Lava Jato justamente para questionar a ideia de que a fabricação interessada de versões seja uma novidade criada pela internet.

O editorial deixa de discutir algo muito importante, que o crescimento de forças de extrema direita em vários países ocorreu após décadas de políticas econômicas que atingiram trabalhadores e setores médios que passaram a uma política “antissistema”.

Outro ponto aparece quando o editorial lamenta que a “aceitação institucional” do bolsonarismo tenha permitido a circulação de manifestações consideradas intolerantes e sustenta que teria sido necessário agir para contê-las.

Ao fazer alarde sobre o perigo que pende sobre as cabeças de mulheres, minorias sexuais, etc., o texto não explica que o máximo que a esquerda fez em favor dessa parcela da população foi criar novas modalidades de crimes, aumento depenas e maior intervenção judicial.

Esses poderes excepcionais conferidos ao Estado, ainda que estejam em determinados momentos sendo utilizados contra a direita, vão se voltar com muito mais força contra a classe trabalhadora, como a história demonstra.

O editorial também concentra em Jair Bolsonaro a responsabilidade pelo desastre da pandemia. Mas a tragédia envolveu diferentes níveis de governo. É preciso cobrar também os governadores, grandes meios de comunicação e outras autoridades pelas decisões tomadas naquele período.

No final, a estrutura do editorial se torna clara. Primeiro descreve-se um futuro de destruição institucional, econômica e até territorial; depois apresenta-se uma saída considerada “realista”: Lula, Alckmin e uma bancada parlamentar alinhada.

O fato é que Lula, o PT e a esquerda, estão sendo identificados como o sistema, e a classe trabalhadora está em contradição com esse sistema. A tentativa de tentar amedrontar o eleitor com a barbárie não vai funcionar, é uma política negativa e constatação do fracasso da Frente Ampla.

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