Polêmica

Arcary reduz sua política à estratégia eleitoral de Lula

Apresentado como trotskista, Valerio Arcary transforma reivindicações populares, o caso Master e até o imperialismo em peças da campanha presidencial de Lula

Lula

No artigo Lula deve ir para o confronto, avançar, avançar, avançar, publicado neste domingo (27) no Esquerda Online, Valerio Arcary apresenta sua análise da reta final da eleição presidencial. O título parece anunciar uma política ofensiva. O problema aparece quando se pergunta: quem deve avançar, contra quem e para quê? A resposta dada pelo texto é clara. Não se trata da classe trabalhadora avançando na defesa dos seus interesses, mas da campanha de Lula encontrando a melhor maneira de ganhar a eleição.

A questão é particularmente reveladora porque o próprio Esquerda Online apresenta Arcary como “militante trotskista desde a Revolução dos Cravos”. No entanto, não se vê no artigo a defesa da classe operária nem suas organizações. É Lula. Arcary analisa quando o presidente deve atacar, quais propostas deve apresentar e quais parcelas do eleitorado precisam ser conquistadas.

O artigo começa pela pesquisa Datafolha. Arcary examina segmentos do eleitorado e procura identificar onde Lula pode crescer. Há inclusive um erro nos números: afirma que Lula teria 45% no Nordeste contra 25% de Flávio Bolsonaro. O levantamento registra 55% contra 25%.

O erro é secundário diante do problema político. Arcary transforma a política numa grande operação eleitoral. Sua preocupação é descobrir quais movimentos podem aumentar alguns pontos de Lula nas pesquisas.

Isso fica ainda mais evidente quando chega ao caso do Banco Master. Arcary escreve que o “impasse no julgamento no STF permitiu ganhar tempo, e saímos da defensiva”. Uma crise gigantesca que envolve o Banco Master, Daniel Vorcaro, ministros do Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal e Ministério Público aparece como uma oportunidade porque teria permitido à campanha de Lula “ganhar tempo”.

É preciso lembrar ao colunista que informações relacionadas a Vorcaro atingiram diferentes integrantes do STF e provocaram brigas e disputas sobre investigações e acesso aos dados. Arcary reduz esse problema a um lance eleitoral. André Mendonça teria ajudado o bolsonarismo, enquanto o impasse no Supremo teria ajudado Lula. A luta entre diferentes interesses da própria burguesia fica subordinada ao esquema mais simples possível: aquilo que favorece Lula e aquilo que favorece Flávio Bolsonaro.

É o mesmo procedimento utilizado com as medidas anunciadas pelo governo na reta final da campanha. Arcary elogia cinco iniciativas e afirma que a “inflexão de linha” foi correta, ainda que insuficiente. Entre elas estão o reajuste do Bolsa Família, a proibição das bets e novas medidas relativas às dívidas da população.

É claro que a esquerda deve defender o aumento do Bolsa Família ou ampliação dos serviços públicos. O problema é que Arcary aborda essas medidas dizendo que elas poderiam provocar “deslocamentos eleitorais favoráveis entre indecisos”.

O reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets foram anunciados justamente nas semanas finais da eleição. Politicamente, isso coloca uma pergunta evidente: por que providências apresentadas como tão urgentes para a população aparecem somente na reta final de uma eleição extremamente disputada?

Arcary não questiona se isso é compra de votos. Faz quase o contrário. Avalia as medidas justamente por sua possível utilidade eleitoral.

Aí aparece toda a adaptação de sua política. O Bolsa Família vira instrumento para conquistar uma parcela do eleitorado; o passe livre aparece como proposta capaz de ampliar apoio; a taxação das grandes fortunas é encaixada na mesma falácia eleitoreira. Trata-se de uma esquerda sem princípios e que faz qualquer coisa por um voto.

Mesmo a definição da “base social” é feita nesses termos. Arcary termina perguntando qual seria a base capaz de “garantir a vitória” e aponta, acompanhando João Pedro Stedile, para as mulheres da periferia. O trabalhador, que não foi consultado para nada pelo governo, aparece como eleitor a ser conquistado para Lula.

Para alguém que se reivindica trotskista, a inversão é gritante. Trotski jamais iria comercializar a independência política da classe operária diante dos partidos da burguesia. Tudo que Arcary faz é colocar é aconselhar Lula sobre como conduzir sua campanha.

O mesmo acontece quando entra em cena Donald Trump. Arcary denuncia a ingerência norte-americana e apresenta a defesa de Lula como parte decisiva da defesa da soberania nacional. Soberania que anda bem prejudicada, dado que o ministro da Defesa disse que abriria as portas para um eventual ataque norte-americano, e a Polícia Federal age sob ordens da CIA e do Mossad.

A ingerência dos Estados Unidos na América Latina possui uma história muito anterior a Trump. Reduzir o imperialismo à ameaça do atual presidente norte-americano facilita transformar Lula em representante automático da soberania. O problema é que outro dia o presidente disse que havia entre ele e Trump uma “química”.

Essa adaptação aparece também na maneira como Arcary trata a burguesia brasileira. Ele reconhece que uma “fração liberal da classe dominante” estaria mudando de posição diante de Flávio Bolsonaro e admite a pressão empresarial por ajuste fiscal. Mas não tira daí uma política independente em relação a Lula. Tira apenas outra recomendação, a de resistir às pressões, fazer mais reformas e encontrar propostas capazes de garantir sua eleição.

O texto começa com Sun Tzu e fala repetidamente em luta, ofensiva, avanço e confronto. Mas a guerra anunciada no título se reduz, no decorrer do artigo, à batalha eleitoral pela reeleição do presidente, nada além disso. O “trotskista” termina funcionando como conselheiro da campanha de Lula

Uma política marxista parte dos interesses próprios da classe trabalhadora e julga governos, partidos e medidas a partir deles. Em seu artigo, Arcary faz o inverso, nele as reivindicações dos trabalhadores são reorganizadas de acordo com as necessidades eleitorais de Lula.

A crise geral do regime tem arrastado setores oportunistas da esquerda a posições cada vez mais reacionárias. É o que demonstra o artigo de um autor que já disse sem meias-palavras que a classe trabalhadora, ante uma hipotética luta contra o fascismo, deve passar para o lado da democracia burguesa.

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