Candidato à Presidência

Na PlayTV, Rui Pimenta defende soberania nacional e ruptura com a dívida pública

Em conversa com Bob Navarro, candidato do PCO discutiu industrialização, dívida pública, crise do PT, China, soberania e a necessidade de uma transformação profunda do País

O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, participou na sexta-feira (25) de uma longa entrevista com Bob Navarro, na PlayTV. Durante quase uma hora de conversa, Rui falou sobre sua trajetória política, a expulsão de seu grupo do PT, a destruição da indústria brasileira, a dívida pública, o desenvolvimento da China e a necessidade de recuperar a soberania econômica do Brasil. A participação estava prevista na agenda oficial do candidato para as 20 horas.

Navarro, que deixou claro durante a transmissão que nunca votou na esquerda, abriu a conversa destacando justamente aquilo que considera uma característica singular de Rui: a disposição de defender suas posições independentemente do cálculo eleitoral.

O apresentador afirmou que encontra no dirigente do PCO uma coerência rara entre políticos brasileiros e observou que pessoas identificadas com a direita também passaram a acompanhar suas posições, principalmente em temas como soberania nacional, privatizações e crítica ao sistema financeiro.

Rui explicou que sua trajetória independente não surgiu de uma decisão de abandonar o PT. O grupo que posteriormente fundaria o PCO pretendia permanecer dentro do Partido dos Trabalhadores, mas acabou expulso durante o processo de mudança política da legenda.

“Nós pretendíamos permanecer ali e lutar dentro do PT pelas nossas posições, mas a direção do PT considerou que era incompatível e nos expulsaram. Uma coisa antidemocrática, porque nós não nos colocamos contra nada essencial daquilo para que o partido tinha sido fundado. O PT estava numa mudança de política naquela época, naquele momento começa a ser aquilo que ele vai ser hoje.”

Questionado sobre o momento em que essa ruptura ficou mais evidente, Rui destacou a administração de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo. Segundo ele, a repressão às greves dos trabalhadores da Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC) mostrou que um governo petista poderia se voltar contra o próprio movimento operário que havia impulsionado a formação do PT.

Rui recordou a demissão de trabalhadores e a contratação de fura-greves e afirmou que a política aplicada naquele período ajudou a preparar o caminho para a posterior privatização do transporte municipal.

A entrevista avançou então para um dos temas centrais da campanha do PCO: a perda da capacidade produtiva do Brasil.

Rui descreveu o impacto das décadas de política neoliberal sobre a indústria e sobre a própria classe operária. Citou como exemplo os sindicatos metalúrgicos da Grande São Paulo, que chegaram a organizar centenas de milhares de trabalhadores quando o parque industrial brasileiro possuía peso muito maior.

“O Brasil andou para trás de uma maneira espetacular. Naquela época para cá, o Brasil perdeu um terço da indústria. Era para ter aumentado. O Brasil ficou muito atrás.”

Segundo Rui, o problema não decorre de uma ausência de recursos. Ao contrário: o Brasil possui petróleo, minerais, capacidade energética, agricultura, indústria siderúrgica, infraestrutura e um enorme mercado interno. O candidato sustentou que o País permanece subdesenvolvido porque sua economia está subordinada aos interesses do grande capital financeiro e das potências imperialistas.

A discussão levou diretamente ao problema da dívida pública.

Navarro exibiu durante o programa dados sobre o peso do serviço da dívida e questionou por que praticamente todos os governos discutem cortes em despesas sociais enquanto o pagamento aos credores permanece fora do debate.

Rui respondeu de maneira direta:

“Eu acho que tem que parar de pagar. Calote mesmo. Tem que dar o calote.”

O cancelamento da dívida pública faz parte do programa apresentado pelo PCO nas eleições, juntamente com a anulação das privatizações, aumento emergencial dos salários e outras medidas econômicas.

Em junho, a Dívida Pública Federal já superava R$ 9 trilhões, segundo dados do Tesouro Nacional.

Para Rui, tratar o pagamento dos credores como uma obrigação intocável significa subordinar todo o funcionamento da economia a uma minoria de grandes bancos e investidores. O candidato argumentou que o Brasil possui condições materiais muito diferentes das de países pequenos e dependentes, o que permitiria enfrentar pressões econômicas externas caso houvesse uma política de desenvolvimento independente.

Foi nesse ponto que a conversa passou para a China.

Rui relatou uma viagem realizada ao país asiático, durante a qual participou de uma conferência voltada à imprensa internacional. Segundo ele, a experiência permitiu perceber que a China procura parceiros econômicos porque sua enorme capacidade industrial exige mercados externos.

O candidato ressaltou, porém, uma diferença entre a política chinesa e a norte-americana: enquanto os Estados Unidos possuem instrumentos políticos, econômicos e militares para impor condições, a China precisa oferecer vantagens concretas para ampliar seus negócios.

“Eles não têm o poder que os Estados Unidos têm. Então eles têm que vir aqui e mostrar a mercadoria deles como sendo interessante para quem vai comprar. Eles dão muita facilidade. As condições para fazer negócio com eles são muito boas.”

Rui mencionou também a enorme infraestrutura construída pelos chineses. Recordou uma viagem ferroviária de mais de mil quilômetros concluída em aproximadamente três horas e contrastou esse desenvolvimento com a situação brasileira.

Para ele, o Brasil possui uma vantagem importante: não precisaria começar do zero. Mesmo depois de décadas de desindustrialização, ainda conserva um parque siderúrgico, sistema energético, produção de petróleo e conhecimento técnico capazes de servir como base para uma política de desenvolvimento acelerado.

Nesse debate, Rui também recuperou a experiência do governo de Getúlio Vargas. Embora tenha ressaltado divergências políticas com Vargas, reconheceu a importância das medidas que estabeleceram as bases da industrialização brasileira, como a criação da Petrobrás e o desenvolvimento da siderurgia e da infraestrutura energética.

“Ele sentou as bases para a industrialização nacional. Ele criou a Petrobrás, lançou as bases para a Eletrobrás, já tinha conseguido construir a CSN. Ele deu a base para a nação, para o poder que a gente tem atualmente.”

Navarro observou que algumas dessas posições aproximam o discurso do PCO de temas historicamente levantados por setores nacionalistas da direita, citando Enéas Carneiro. Rui respondeu que concordava com determinadas propostas defendidas pelo antigo candidato do Prona, inclusive a necessidade de o Brasil desenvolver sua capacidade nuclear.

Durante a conversa, Rui voltou a defender que o Brasil saia do Tratado de Não Proliferação Nuclear e desenvolva armas atômicas como instrumento de soberania e defesa nacional.

Outro tema foi o governo Lula. Perguntado por Navarro sobre uma eventual escolha entre os dois principais candidatos, Rui afirmou que sua avaliação não passa por decidir quem seria pessoalmente “mais traidor”, mas pelo programa de cada força.

Ele recordou que o PCO apoiou Lula em 2022, depois do processo de perseguição que retirou o petista da eleição anterior, mas disse que até mesmo as baixas expectativas depositadas pelo Partido no atual governo não se realizaram.

“O potencial do Lula de fazer algum bem para a população meio que está esgotado por questões dele próprias. Esse governo mostrou que ele não consegue agir. Ele não conseguiu colocar em prática nada do que prometeu na campanha eleitoral. Essa é a grande realidade.”

Segundo Rui, o principal defeito da política petista é procurar acordos dentro das próprias instituições em vez de mobilizar a população para enfrentar os grandes interesses econômicos.

A conversa também abordou a própria participação eleitoral do PCO. Rui rejeitou a ideia de que sua candidatura parta da expectativa de transformar estruturalmente o País apenas por meio das urnas.

“Eu não acho que dê para mudar o Brasil através de eleições. Tem que falar claro com a população. O sistema político brasileiro não permite mudança. Quando você tem uma revolução, o que ela visa é mudar o sistema político para poder mudar o sistema econômico.”

Para Rui, a campanha serve para popularizar um programa e fortalecer uma organização capaz de atuar também fora do período eleitoral. Essa política está ligada à defesa do salário mínimo calculado pelo DIEESE, reestatização das empresas privatizadas, redução da jornada e outras propostas apresentadas pelo PCO durante a campanha.

Ao longo da entrevista, Navarro voltou diversas vezes ao fato de encontrar pontos de acordo com Rui apesar de sua própria formação política de direita. O apresentador afirmou que isso demonstraria que determinadas questões de soberania e desenvolvimento nacional ultrapassam a divisão eleitoral mais imediata.

No encerramento, Rui relacionou sua permanência na atividade política à perspectiva histórica que orienta o PCO.

“Eu sou marxista. Eu acredito que o mundo vai mudar. Pode ser que eu não veja isso, mas estou tranquilo com relação a isso. Estou fazendo a minha parte.”

Pouco depois, acrescentou:

“Eu tenho confiança que o povo brasileiro vai se levantar contra essa situação.”

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