Oriente Próximo

Revolucionários lançam novos ataques a forças sauditas no Iêmen

Ansar Alá atacou posições militares em Jizan com dezenas de mísseis e drones enquanto combates se intensificam em Taiz e na costa do mar Vermelho

As Forças Armadas do Iêmen lançaram nesta quinta-feira (24) uma grande operação contra posições militares sauditas em Jizan, na fronteira entre os dois países. Segundo o porta-voz militar Yahya Saree, dezenas de mísseis balísticos e drones foram empregados contra tropas, centros de comando, salas de operações, depósitos de armamentos e plataformas de lançamento.

A operação ocorreu depois que as forças de Saná identificaram, segundo Saree, uma concentração de tropas sauditas junto à fronteira. Entre os alvos estavam instalações militares na região de Al-Tuwal, o campo de Al-Daghareer e outros pontos utilizados pelas forças de Riad em Jizan.

Saree afirmou que os ataques atingiram diretamente seus objetivos e provocaram grandes baixas entre militares sauditas e forças mercenárias pagas pelo reino, incluindo contingentes sudaneses. Disse ainda que depósitos de armamentos foram destruídos e incendiados.

“As Forças Armadas do Iêmen continuarão cumprindo suas tarefas com toda a força e determinação, atingindo as fontes da ameaça e respondendo a qualquer ataque e movimentação hostil onde quer que estejam”, declarou Saree, de acordo com a Al Mayadeen. O porta-voz afirmou também que as forças de Saná continuarão aplicando a política que chamou de “cerco por cerco e escalada por escalada” enquanto prosseguirem os ataques e o bloqueio.

A operação foi realizada durante uma nova escalada da guerra. Saree havia informado na véspera que aviões sauditas F-15 e Typhoon realizaram 52 ataques em 24 horas contra Hodeida, Taiz, Al-Bayda, Marib e Saada. Os aviões teriam decolado das bases de Khamis Mushait e Taif, enquanto outros ataques com mísseis partiram de Jizan.

Segundo as autoridades de Saná, os bombardeios deixaram mortos e feridos e atingiram estradas, pontes, escolas e redes de telecomunicações. A contagem divulgada pelas Forças Armadas iemenitas afirma que a Arábia Saudita realizou 988 ataques aéreos e com mísseis desde o início da atual escalada.

Riad também confirmou nesta quinta-feira novos lançamentos vindos do Iêmen. A coalizão liderada pela Arábia Saudita afirmou ter interceptado seis mísseis balísticos dirigidos contra Taif e Yanbu, no mar Vermelho. Até o momento da divulgação da informação, não havia confirmação de danos ou vítimas nesses ataques. Yanbu é particularmente importante para a infraestrutura petrolífera saudita, pois funciona como uma das principais alternativas para o escoamento de petróleo quando há problemas nas rotas do golfo Pérsico.

Os confrontos também prosseguem dentro do território iemenita. Nesta quinta-feira, forças do governo fantoche apoiado pela Arábia Saudita disseram ter repelido ataques do Ansar Alá contra a estrada que liga Taiz a Áden. A passagem montanhosa de Hejat al-Abd é uma das principais rotas utilizadas pelas tropas que defendem o governo sediado no sul e é importante para o abastecimento de Taiz.

A batalha pela região ocorre depois de importantes avanços das forças do Ansar Alá pela costa do mar Vermelho. Os combatentes avançaram nas últimas semanas sobre posições que podem pressionar ainda mais as tropas apoiadas pela Arábia Saudita e alterar a situação militar em áreas que haviam permanecido relativamente estáveis desde a trégua de 2022.

Foi justamente essa trégua que reduziu durante vários anos os combates diretos entre Riad e Saná. Ela não resolveu, contudo, nenhuma das questões fundamentais da guerra iniciada após a tomada da capital pelo Ansar Alá em 2014 e a intervenção militar da coalizão saudita no ano seguinte. O país permaneceu dividido, submetido a bloqueios e com tropas armadas por diferentes potências estrangeiras.

A atual ofensiva do Ansar Alá se insere na luta travada há mais de uma década contra a intervenção saudita e contra as forças iemenitas sustentadas por Riad. A resistência de Saná tem caráter de libertação nacional: apesar da enorme superioridade material da coalizão que interveio em 2015, o movimento conservou o controle da capital, ampliou sua capacidade militar e hoje consegue levar os ataques para dentro do próprio território saudita.

Essa capacidade já havia aparecido em ataques anteriores neste mês. Em 19 de setembro, o Ansar Alá anunciou operações com mísseis e drones contra locais considerados estratégicos em Riad e contra instalações petrolíferas em Yanbu. A coalizão saudita confirmou ter interceptado ao menos um míssil destinado à capital.

O avanço iemenita também levou as potências imperialistas a discutir maior apoio militar à monarquia saudita. O Reino Unido aceitou fornecer capacidade de reabastecimento aéreo defensivo a Riad depois de um pedido formal do governo saudita. Londres é há décadas um dos principais fornecedores de armamentos à Arábia Saudita.

Na segunda-feira (21), os governos do G7 condenaram as ações militares do Ansar Alá e pediram ao Irã que interrompesse o apoio ao movimento popular. Dois dias depois, Turquia, Paquistão, Egito e Arábia Saudita divulgaram uma declaração conjunta defendendo o “direito” de Riad de responder militarmente aos ataques vindos do Iêmen, demonstrando a cumplicidade desses regimes corruptos e títeres do imperialismo com o massacre de civis iemenitas.

A retomada da guerra também aprofundou a situação humanitária causada pelos ataques desproporcionais da Arábia Saudita. Dados das Nações Unidas divulgados nesta semana apontam mais de 130 mil deslocados desde o recrudescimento dos combates. A ONU estima que outros 100 mil poderão abandonar suas casas nos próximos três meses caso as hostilidades continuem no ritmo atual. Mais de 3.000 pessoas já atravessaram o mar Vermelho em direção à África.

A importância dos novos ataques não se limita às posições militares na fronteira. A guerra já interfere nas principais rotas comerciais da região. O controle do mar Vermelho e do estreito de Bab el-Mandeb afeta diretamente a navegação internacional e o comércio de petróleo.

Ao mesmo tempo, o Ansar Alá mantém a pressão sobre as forças apoiadas por Riad em Taiz e em outras regiões do país. A operação anunciada por Saree em Jizan acrescenta agora ataques em larga escala contra centros militares sauditas à ofensiva terrestre que se desenvolve no Iêmen, enquanto Riad voltou a empregar intensamente sua aviação contra áreas controladas por Saná.

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