PCO nas eleições

Canais de TV dirigem o voto dos eleitores, denuncia Izadora Dias

Candidata ao governo paulista afirmou ainda que "o dinheiro do orçamento nacional é encaminhado para os bancos, por meio da dívida pública"

A candidata do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de São Paulo, Izadora Dias, apresentou o programa defendido pelo Partido durante entrevista ao Fiscaliza Alto Tietê. Na conversa, tratou das dificuldades das candidaturas menores, da participação das mulheres na política, dos serviços públicos, das privatizações, do salário mínimo, da jornada de trabalho, da moradia e da segurança pública.

Logo no início, Izadora criticou a concentração da cobertura eleitoral em Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. Para ela, a exclusão das demais candidaturas dos principais debates e programas de televisão interfere diretamente no conhecimento que o eleitor tem das opções disponíveis.

“Aqui em São Paulo mesmo parece que só tem dois candidatos, que é o Tarcísio e o Haddad, porque a grande imprensa não convida as outras candidaturas. E nós temos, além dos dois, cinco candidatos. E a população não sabe. O PCO faz uma campanha nas ruas, a gente panfleta, a gente conversa diretamente com a população. […] A gente denuncia que isso é um tipo de manipulação das eleições, porque, se você está mostrando mais um candidato, quem não é visto não é lembrado. Então você já está impulsionando que a população escolha aquele candidato que aparece mais.”

Izadora tem 31 anos, é natural de Barra Bonita e participa do PCO há quase uma década. Integra a direção nacional e coordena o Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo. Durante a entrevista, afirmou que sua candidatura não surgiu para preencher cota eleitoral, mas de sua atuação política dentro do Partido.

A participação das mulheres apareceu ligada às condições materiais que dificultam sua presença na vida política. Izadora citou o cuidado dos filhos, o trabalho doméstico e a necessidade de conciliar essas tarefas com o emprego. Como resposta, apresentou a proposta de ampliar os serviços públicos que hoje permanecem a cargo de cada família.

“Nós defendemos que existam lavanderias coletivas, restaurantes coletivos. Então, o Estado construiria esses restaurantes, venderia por um preço mais barato, a família vai lá e come. […] Lavanderias públicas, então a pessoa vai lá, ou pode ser um espaço em que a pessoa coloca roupa lá, ou então tenha funcionários para fazer isso. Isso já livraria toda a família do trabalho doméstico, porque a gente considera que o trabalho doméstico não é só um problema para as mulheres, mas para todo mundo da casa.”

A candidata acrescentou que as creches deveriam funcionar durante 24 horas. A proposta não significa manter a criança o dia inteiro na unidade, explicou, mas garantir atendimento para mães e pais que trabalham de madrugada, de manhã cedo ou em outros horários que não coincidem com o funcionamento tradicional das escolas. Também defendeu a presença de profissionais de saúde nesses locais.

Ao falar do financiamento desses serviços, Izadora contestou a ideia de que falte dinheiro para ampliá-los. Na avaliação apresentada pelo PCO, o problema está na destinação dos recursos públicos e no volume reservado ao pagamento da dívida e dos juros.

“Não é que a gente não tem dinheiro para dar conta disso. O dinheiro do orçamento nacional é encaminhado para os bancos, por meio da dívida pública. Os juros são altíssimos e a gente paga isso cada vez mais. […] Nós consideramos que não tem que ter limite para gastar com a população. Não é que não tem dinheiro. Se a maior fatia da pizza vai para o capital estrangeiro, é claro que não vai ter dinheiro para o restante.”

Essa posição apareceu novamente quando a entrevista chegou às privatizações. O programa apresentado por Izadora prevê a reversão das privatizações de serviços essenciais e rejeita a entrega de estradas, água, energia e outros setores a empresas privadas.

“O nosso programa pede o cancelamento de todas as privatizações realizadas da água, da energia, telefônica. O petróleo precisa ser 100% estatal. Somos contra as concessões para empresas privadas, as estradas. Isso é um absurdo, porque fala que a pessoa tem o direito de ir e vir. Só que, se ela não tem dinheiro, ela não vai e não chega em nenhum lugar. […] Isso daí tem que estar estatizado e na mão dos trabalhadores.”

A candidata citou os problemas enfrentados com o fornecimento de energia em São Paulo e relacionou os longos períodos sem eletricidade à redução do número de funcionários e à falta de manutenção. Também rejeitou a ideia de que as empresas devam receber grandes indenizações caso contratos de concessão sejam rompidos, argumentando que os prejuízos impostos à população devem ser considerados nessa conta.

Na área econômica, o PCO propõe uma jornada máxima de 35 horas semanais, limitada a sete horas por dia, sem redução do salário e com o fim de semana livre. Izadora sustentou que a diminuição da jornada também abriria novos postos de trabalho, pois seria necessário contratar mais pessoas para completar os horários de produção e atendimento.

O salário mínimo de R$7.500 foi outra proposta apresentada. Diante da pergunta sobre a possibilidade de alcançar esse valor, Izadora afirmou que nenhuma conquista expressiva dos trabalhadores ocorreu apenas por decisão de governos.

“Todas as mudanças que os trabalhadores conquistaram, inclusive diminuição da hora trabalhada, tudo isso foi uma luta do movimento operário. […] Os trabalhadores não vão ganhar nada de mão beijada. Nunca isso aconteceu. Antes a classe trabalhadora trabalhava 14, 16, 18 horas. Crianças trabalhavam. E isso só aconteceu quando começaram os movimentos de greve, começaram os trabalhadores e falaram: ‘se for para a gente trabalhar assim, ninguém mais vai trabalhar’. E aí, a partir disso, conseguiram as suas reivindicações.”

O avanço da tecnologia foi apresentado sob outra perspectiva. Izadora disse considerar positiva a substituição de trabalhos repetitivos por máquinas e sistemas automatizados. Para ela, a questão não está em impedir o desenvolvimento tecnológico, mas em assegurar que ele sirva para diminuir o trabalho pesado e aumentar as possibilidades humanas.

“A tecnologia é algo que liberta o homem do trabalho forçado, então nós consideramos como algo muito positivo. Crises em relação a novos processos tecnológicos que surgem é uma coisa que já aconteceu, por exemplo, quando os trabalhadores começaram a ser substituídos pelas máquinas. […] Falam que as IAs vão substituir os homens. Na verdade, a gente vai precisar de pessoas cada vez mais capacitadas, mais inteligentes, mais conhecedoras, para poder sustentar o trabalho que essas máquinas superautomáticas vão fazer.”

Na questão da moradia, a candidata se declarou contra o despejo de trabalhadores que perderam condições de pagar o aluguel e contra a retirada de famílias de ocupações. Prédios vazios deveriam ser destinados à habitação, afirmou. Também propôs a construção de bairros e moradias pelo Estado, medida que, além de atender às famílias sem casa, geraria empregos na construção e aumentaria a procura por materiais e serviços.

A segurança pública levou a entrevista a uma das propostas mais conhecidas do programa do PCO. Izadora defendeu a dissolução dos atuais aparatos policiais e sua substituição por organizações de autodefesa dos próprios bairros, com integrantes escolhidos e controlados pelos moradores.

“O bairro vai constituir comitês, conselhos. Quem vai ser responsável? Quem vai ser as pessoas que vão fazer a patrulha? Uma organização que também tem que ser votada, tem que ser acompanhada. Se o fulano que foi escolhido para coordenar está fazendo um trabalho esquisito, não está atuando, a população vai lá e fala: ‘a gente vai trocar’. Muitos deles que atuam na polícia poderiam mudar e ser a guarda do próprio bairro.”

A ideia, segundo explicou, parte também da crítica ao deslocamento de policiais para regiões que eles desconhecem. Moradores teriam maior conhecimento das pessoas e dos problemas de cada bairro, enquanto os atuais agentes frequentemente são enviados para lugares onde não possuem qualquer ligação.

Izadora vinculou essa proposta à legalização de todas as drogas. O argumento apresentado foi de que a proibição não interrompe o consumo e preserva uma das principais fontes de financiamento das organizações criminosas. Ela fez questão de diferenciar legalização de incentivo ao uso.

“Nós não pregamos o uso das drogas, nós somos contra, principalmente para a juventude, a gente considera que isso te tira da realidade, isso te causa muito prejuízo. Mas a gente não acha que, na prática, faz diferença você proibir ou não. […] Se com drogas isso daí não vai ser mais um crime e vai estar na mão do Estado, se o armamento vai ser liberado, porque eles também ganham porque conseguem fazer esse tráfico de armas, eles controlam isso, não vai existir mais.”

A organização do próprio governo também seria alterada. Izadora defendeu conselhos de trabalhadores para decidir sobre os diferentes setores do Estado. Profissionais com experiência em empresas e serviços públicos seriam escolhidos pelos colegas para participar diretamente da administração.

“O trabalhador que atua há 50 anos na Sabesp pode ser um dos representantes, escolhido pelos outros trabalhadores daquele setor. E isso na organização geral do Estado, da administração financeira, social. Quando a gente fala que nós queremos um governo de trabalhadores, não é um governo para os trabalhadores, é um governo realmente de trabalhadores, eles estão lá.”

Para as cidades do Alto Tietê, Izadora destacou a necessidade de desenvolver empregos e serviços na própria região. Muitos moradores passam horas diariamente em deslocamento até a capital porque não encontram trabalho próximo de casa. A proposta apresentada combina melhoria do transporte público com expansão da atividade econômica, das escolas e do atendimento de saúde nas cidades da região, com participação direta dos trabalhadores na definição das necessidades locais.

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