Análise internacional

Rui Costa Pimenta analisa eleições na Rússia e crise do regime alemão

Presidente do PCO abordou a estabilidade russa durante a guerra, a discussão sobre imperialismo e o enfraquecimento dos partidos tradicionais da Alemanha

As eleições parlamentares realizadas na Rússia e na Alemanha foram os principais assuntos da edição desta quinta-feira (24) do programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária. Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), analisou os resultados eleitorais, a situação criada pela guerra na Ucrânia e o enfraquecimento dos partidos que tradicionalmente dominam a política alemã.

Na Rússia, o Rússia Unida ampliou sua votação em relação a 2021. O resultado final deu ao partido 57,83% dos votos e 355 das 450 cadeiras da Duma, segundo a Comissão Eleitoral Central russa. A eleição foi a primeira para o Parlamento nacional desde o início da guerra na Ucrânia.

Para Pimenta, o resultado mostra que a guerra não provocou até agora uma crise política interna capaz de desestabilizar o governo de Vladimir Putin. Ele relacionou esse quadro à maneira cautelosa como Moscou tem conduzido as operações militares, evitando, segundo sua avaliação, uma política que possa provocar perdas muito elevadas entre os soldados russos.

“Aparentemente, não há crise social nenhuma, não há crise política na Rússia em função da guerra. Muita gente fala que os russos deveriam atuar de uma maneira mais agressiva na guerra da Ucrânia, mas é compreensível que a política do governo russo seja uma política cautelosa, porque eles justamente querem evitar a crise interna, o que poderia acontecer mesmo que eles estivessem numa situação favorável no campo de batalha. Se você começasse a ter uma quantidade muito grande de mortes de soldados russos, isso, sem dúvida nenhuma, afetaria o equilíbrio na Rússia.”

O presidente do PCO também questionou estimativas segundo as quais as Forças Armadas russas teriam sofrido perdas humanas enormes desde 2022. Seu argumento foi político: uma quantidade dessa dimensão de mortos, disse, dificilmente deixaria de provocar uma reação social importante dentro do país. Para ele, a votação favorável ao governo não combina com a imagem de uma sociedade russa desorganizada pela guerra.

A estabilidade atual foi relacionada por Pimenta ao papel exercido por Putin desde sua chegada ao poder. A Rússia herdada do período de Boris Iéltsin, afirmou, estava profundamente enfraquecida pela restauração capitalista ocorrida após a dissolução da União Soviética. Putin teria conseguido recompor o aparelho estatal e reduzir a autonomia política dos chamados oligarcas.

“O Putin conseguiu uma estabilização, uma recuperação da Rússia. As pessoas não falam muito disso, mas a Rússia tinha caído, estava no fundo do poço. A situação de devastação econômica era muito grande. O país estava à beira de se esfacelar. E o Putin foi a pessoa que deu unidade para a burocracia estatal, colocou, ao contrário do que muita gente pensa, os oligarcas meio na linha. Ele não acabou com os oligarcas todos, mas disciplinou os oligarcas. Ele conseguiu uma recuperação econômica, principalmente com base na questão do petróleo. Então ele deu estabilidade, conduziu o país num enfrentamento com o imperialismo, mas sem perder o controle da situação.”

Um dos temas que ocupou mais tempo no programa foi a definição da Rússia atual. Pimenta retomou a polêmica com setores da esquerda que caracterizam o país como imperialista. A questão havia aparecido dias antes em um debate entre candidatos, quando um representante do PSTU citou Lenin para defender essa posição.

Pimenta distinguiu a Rússia czarista, analisada por Lenin no começo do século XX, da Federação Russa existente hoje. O antigo Império Russo exercia domínio colonial sobre outros povos e participava das alianças das grandes potências europeias. A utilização daquela caracterização para a Rússia posterior à Revolução de 1917, à União Soviética e à restauração capitalista, segundo ele, ignora transformações fundamentais ocorridas no país.

Sua crítica principal foi dirigida à tentativa de transformar a definição de imperialismo em uma lista de características formais. A existência de monopólios, grandes empresas ou operações militares no exterior não bastaria. Para Pimenta, seria necessário determinar a posição concreta de cada Estado na economia mundial e sua capacidade de controlar setores decisivos do capital internacional.

“O imperialismo não é uma lista de qualidades. O imperialismo é uma coisa concreta. Se você não tem controle sobre o mercado mundial nenhum, que é o caso da Rússia, então você não é um país imperialista. Você pode ticar todas as casinhas ali, apesar de que eu acho que não dá para fazer isso, porque, se for um problema de ter monopólio, então Brasil seria, Argentina seria imperialista, a Coreia do Sul seria imperialista. Todos esses países têm monopólios.”

O bloqueio financeiro imposto à Rússia depois do início da guerra apareceu como um exemplo desse problema. Países imperialistas congelaram centenas de bilhões de dólares em ativos russos mantidos no exterior e restringiram o acesso de bancos russos ao sistema financeiro internacional. Para Pimenta, a capacidade das potências ocidentais de atingir dessa maneira as finanças russas contradiz a ideia de que Moscou exerça domínio sobre o mercado financeiro mundial.

A economia russa, por outro lado, foi caracterizada pelo dirigente como capitalista. Sua particularidade estaria no fato de ter surgido diretamente da dissolução da economia soviética. A propriedade privada tornou-se predominante, mas os grandes capitalistas não teriam conquistado o mesmo controle sobre o Estado encontrado nos principais países capitalistas.

“É capitalista, é um país capitalista. Predomina a propriedade privada. Mas nós temos que levar em consideração que é um país capitalista que surgiu da transição da antiga União Soviética para a situação atual. Então, é meio que um capitalismo artificial, digamos assim. O Estado controla o país, não é o capital. Você tem os oligarcas lá, mas a burguesia não é uma classe dominante. Ela não consegue controlar o Estado. Então você tem uma economia capitalista, mas você não tem a burguesia como classe dominante.”

Segundo Pimenta, o confronto entre Putin e parte dos oligarcas tem relação justamente com esse problema. Uma burguesia russa politicamente independente do Estado tenderia, em sua avaliação, a estabelecer vínculos com o grande capital ocidental. Ele aproximou essa situação da experiência chinesa, onde existem grandes empresas privadas, mas o Estado conserva instrumentos importantes de controle político e econômico.

Na Alemanha, as eleições regionais mostraram forte perda de terreno dos partidos tradicionais. Em Berlim, o Die Linke ficou em primeiro lugar com 25,7%, seguido pela CDU, com 18,8%, e pela Alternativa para a Alemanha (AfD), com 16,3%. Os Verdes obtiveram 14,3% e o SPD caiu para 12,1%. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), com 4,7%, ficou abaixo da cláusula de barreira de 5%.

Pimenta viu nesses números mais uma manifestação da perda de estabilidade do sistema político europeu. O aspecto mais importante, segundo ele, não seria apenas o crescimento de uma determinada legenda, mas a dificuldade dos antigos partidos de centro-direita e da social-democracia em conservar seu eleitorado.

“O regime político imperialista alemão está na lona. Está completamente esfacelado. Não tem como continuar a situação. Não é o único caso. A Europa inteira, na realidade, está nesse pé. Tem um desenvolvimento um pouco desigual, porque cada país tem a sua peculiaridade, mas tudo se dirige no mesmo sentido. A AfD está praticamente se levantando como maior partido do país. É um partido de extrema direita, na origem. Precisaria ver o que aconteceu dentro desse partido, porque, à medida que os partidos começam a crescer, eles começam a se transformar também.”

O crescimento do Die Linke também foi abordado. Pimenta contestou a identificação automática do partido com uma alternativa de esquerda ao regime alemão. Citou, entre outros pontos, sua política diante de “Israel” e considerou possível que parte do espaço abandonado pelo SPD esteja sendo ocupado eleitoralmente pelo Die Linke. Ao mesmo tempo, reconheceu que uma parcela do eleitorado vota no partido justamente porque o identifica como uma opção à esquerda.

A votação da AfD entre trabalhadores recebeu atenção especial. No programa, o crescimento do partido nesse setor foi relacionado ao desgaste das organizações que tradicionalmente reivindicavam a representação da classe operária. Pimenta comparou esse fenômeno com o afastamento de parcelas dos trabalhadores brasileiros em relação ao PT.

Nas perguntas finais, o presidente do PCO comentou ainda a situação brasileira. Questionado sobre o PT, afirmou que a direção do partido adotou uma política de aproximação com setores do imperialismo que se apresentam como defensores da democracia. Sobre a possibilidade de uma vitória de Lula, disse que o PCO manteria independência política diante de seu governo.

“Essa é a posição do PT nesse momento. O PT adotou a política do imperialismo dito democrático. A polarização política fez com que o PT, ao contrário de adotar uma posição popular, adotasse uma posição direitista, que é a posição do imperialismo. […] Se o Lula for eleito, vamos ter uma posição logicamente crítica do governo. Eu acho que, mesmo que o Lula ganhe, a situação vai ser muito difícil, vai piorar a situação, não vai melhorar. Não há nenhum indício de que melhoraria também.”

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