Luan Monteiro

‘A eleição é controlada pela burguesia, pela imprensa e pelo capital financeiro’

Candidato ao governo do Rio falou sobre economia, segurança, transporte, moradia, educação e emprego e criticou as trambicagem do sistema eleitoral

Luan Monteiro, candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo do Rio de Janeiro, participou de uma sabatina no Pod Paes e apresentou as principais propostas de sua candidatura. Ao longo da entrevista, respondeu a perguntas sobre economia, segurança pública, transporte, habitação, cultura, saúde, emprego e educação.

A própria abertura do programa serviu de gancho para uma crítica ao sistema eleitoral. O apresentador lembrou que todos os candidatos haviam sido convidados para as sabatinas, mas que poucos aceitaram participar. Monteiro disse que o PCO enfrenta situação inversa: frequentemente quer participar dos debates, mas não recebe espaço.

“A gente entende também que a eleição não é uma coisa tão democrática assim. Como você mesmo comentou, a gente dificilmente é convidado para participar de algum espaço. Na grande imprensa a gente dificilmente vai aparecer; quando aparece, é para dar uma declaração muito miúda. Então, uma das coisas que a gente faz aqui é justamente procurar esclarecer como é que a eleição é uma coisa muito controlada pela burguesia, pela grande imprensa, pelos grandes capitais financeiros.”

Integrante da direção nacional do PCO e da coordenação da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), Monteiro mencionou sua participação em movimentos de trabalhadores, greves e atos de solidariedade à Palestina. Ao explicar por que o Partido lança candidaturas, afirmou que a eleição é utilizada principalmente para divulgar um programa político e que mudanças profundas dependeriam da mobilização dos trabalhadores.

“A gente não aparece só na eleição para poder pedir voto e fazer mil promessas de que a gente vai resolver todos os problemas no Brasil. A gente, inclusive, acha importante mostrar que não é apenas com o voto de apertar o dedo na urna que você vai, de fato, conquistar os avanços dos trabalhadores. Ela pode até ser um meio secundário e um meio muito limitado de você fazer política. A gente entende que o avanço dos trabalhadores só é possível através da sua mobilização e da sua organização.”

Quando a discussão passou para a economia, Monteiro colocou no centro da proposta do PCO o não pagamento da dívida pública aos bancos e uma política de reindustrialização. Segundo ele, não faltariam recursos públicos; o problema seria sua destinação. Também propôs reestatizar empresas e serviços privatizados e utilizar setores como petróleo e siderurgia para ampliar a produção e o emprego no Rio de Janeiro.

A situação industrial fluminense apareceu novamente quando a entrevista tratou do interior. Monteiro citou a produção de petróleo na região de Campos dos Goytacazes e a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, como exemplos de atividades que poderiam ter maior peso num programa de desenvolvimento estadual.

“Não adianta também você simplesmente eleger uma pessoa, um governador, muito menos, e falar: ‘esse cara vai entrar lá no Rio de Janeiro e vai resolver esse problema econômico’. Não. Você precisa chamar os trabalhadores para, aí sim, através da mobilização, conseguir conquistar qualquer tipo de avanço nesse sentido. Então, o calote da dívida pública é uma questão fundamental. […] É importante também tratar de um programa de reindustrialização, um programa de desenvolvimento nacional; o mesmo serve para o estado do Rio, que passou por um processo de desindustrialização tremendo nos últimos 30 anos.”

A segurança pública ocupou uma parte extensa da conversa. Monteiro rejeitou a ampliação do policiamento como solução para a violência e apresentou a proposta do PCO de dissolução da Polícia Militar e criação de conselhos de bairro formados pelos próprios moradores. O programa apresentado por ele inclui ainda a legalização das drogas e o direito da população ao armamento.

Ao responder a uma pergunta enviada pelo público, explicou que os conselhos seriam organizados localmente, com representantes escolhidos pelos moradores e possibilidade de substituição. Também relacionou a expansão do crime ao desemprego, à pobreza e às condições de vida nas regiões mais pobres.

“O problema que faz com que as pessoas entrem no crime organizado é o problema da miséria social. As pessoas vão entrar para o crime porque as condições de vida delas são horríveis. O pessoal não tem emprego, o pessoal não tem perspectiva nenhuma de vida. […] Se a pessoa tiver acesso a emprego decente, uma carteira assinada, uma jornada de trabalho digna, se a pessoa tiver uma boa moradia, educação de qualidade, saúde, se ela tiver as coisas básicas, a gente certamente vai resolver boa parte do problema do crime.”

Monteiro também criticou a ideia de aumentar as atribuições da Polícia Filial no combate às organizações criminosas. Na avaliação apresentada durante a sabatina, os órgãos policiais brasileiros mantêm relações estreitas com os serviços de inteligência dos Estados Unidos e podem utilizar medidas formuladas contra organizações criminosas para perseguir movimentos políticos. Essas afirmações foram apresentadas pelo candidato como parte da posição política do PCO.

No transporte, a proposta foi retirar ônibus, trens e metrô das concessionárias privadas, colocá-los sob administração pública e implantar o passe livre. Monteiro recorreu à própria experiência como morador de Jacarepaguá e da Praça Seca para criticar as longas viagens enfrentadas pelos trabalhadores do subúrbio e da zona oeste.

O BRT recebeu uma crítica particular. Segundo ele, o sistema foi anunciado como grande solução para regiões mal atendidas, mas acabou concentrando passageiros em veículos lotados e não resolveu a falta de ligação adequada com o centro e outras partes da cidade.

“A gente precisa tirar da mão da iniciativa privada todos esses meios de transporte. Ele deveria ser público, gratuito e de qualidade. A gente defende também o passe livre. Não precisa ir muito longe, o município de Maricá conseguiu fazer o passe livre. […] Então, tirar, acabar com todo esse sistema de concessões, seja do trem, seja do metrô, seja dos ônibus.”

Para a habitação, Monteiro propôs utilizar imóveis vazios e prédios públicos abandonados para atender famílias sem moradia, além da construção de conjuntos habitacionais. Ele mencionou sua atuação junto à Frente Internacionalista dos Sem-Teto (Fist) e criticou a valorização imobiliária de regiões centrais onde apartamentos permanecem inacessíveis para grande parte da população.

Na parte dedicada à cultura e à juventude, falou do carnaval, do samba e do futebol. Monteiro, que afirmou desfilar pela Unidos do Jacarezinho, pediu maior investimento público nas escolas de samba e criticou a transformação dos clubes de futebol em sociedades controladas por empresários.

Para os estudantes, apresentou o livre ingresso no ensino superior como uma das principais propostas. O PCO quer abolir os vestibulares e outros mecanismos de seleção para que quem termine o ensino médio possa ingressar numa universidade. Monteiro também se posicionou contra restrições ao uso da internet e de celulares pelos jovens, relacionando essas medidas ao debate sobre liberdade de expressão.

A saúde seria reorganizada com o fim das Organizações Sociais e a retomada da administração direta pelo Estado. Monteiro citou favoravelmente o movimento Reestatiza SUS, defendeu a abertura de concursos e apontou a falta de profissionais como um dos principais problemas enfrentados por hospitais e unidades básicas.

Na educação básica, a proposta segue linha semelhante: ampliar o investimento estatal, contratar professores e aumentar o número de escolas de período integral. Monteiro contou que passou parte da vida escolar sem professores de algumas disciplinas e, depois de formado, encontrou concursos com poucas vagas, situação que apresentou como demonstração da necessidade de ampliar o quadro da rede pública.

Emprego e renda apareceram perto do fim da entrevista. Monteiro apresentou a reivindicação de redução da jornada para 35 horas semanais, de segunda a sexta-feira e sem diminuição salarial. Para atividades que precisem funcionar aos fins de semana, propôs remuneração adicional. Também mencionou a elevação do salário mínimo e maior proteção aos desempregados.

“A nossa principal reivindicação é a redução da jornada de trabalho sem redução de salários. É uma forma de colocar que os capitalistas paguem pela crise. A gente deveria reduzir os turnos para que as pessoas trabalhem menos e abrir mais turnos, para ter mais pessoas trabalhando nas fábricas num período curto, mantendo o mesmo salário, garantindo uma vida mais digna para os trabalhadores.”

Nas considerações finais, Monteiro retornou à questão que havia aberto a sabatina. Criticou a ausência de partidos pequenos de debates, pesquisas e horários de televisão e afirmou que o PCO utiliza a campanha para apresentar posições que dificilmente recebem espaço nos grandes veículos.

“A gente não tem que criar ilusão de que vai ser aqui nas eleições que a gente vai resolver os problemas do povo. Qualquer pessoa que promete isso está iludindo todo mundo. […] É somente a força dos trabalhadores organizados que consegue garantir as suas reivindicações. […] A eleição é uma parte muito pequena, então a gente acha importante que as pessoas votem naquilo que realmente acreditam e que façam política todo dia, não apenas na eleição.”

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