Polêmica

A crise no STF é luta de classes

A fraseologia “nem Moraes nem Mendonça” serve para não enfrentar o tribunal, não exigir Fora Moraes e não pedir o fim da Corte

No dia 17 de setembro de 2026, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) publicou o artigo O que a crise do STF nos ensina sobre a democracia burguesa?*. O texto abre com uma citação de Lênin em O Estado e a Revolução e resume a tese no primeiro parágrafo:

“Nenhum comunista sério deveria torcer para que o STF ‘se recomponha’, tampouco comemorar sua crise como se fosse sinal de avanço revolucionário. As duas posições cometem o mesmo erro: tratam a crise institucional como se fosse o centro da luta de classes real.”

A matéria conclui que a tarefa “não é escolher entre Moraes e Mendonça, entre Fachin e Dino, entre ‘salvar as instituições’ e ‘explorar o caos’”. O máximo que o PCBR admite como “primeiro passo mínimo” é a eleição periódica e a revogabilidade dos ministros — sem Fora Moraes, sem fim do STF, sem campanha contra o operador da ditadura judicial.

O artigo se apresenta como rigor científico. É uma abstenção. E abstenção, neste momento, é cobertura política ao tribunal.

Este é um método antigo na esquerda pequeno-burguesa: quando a luta concreta aperta, inventa-se uma teoria para não entrar nela. A crise aberta no Supremo — mensagens com banqueiro, contrato familiar milionário, acusações recíprocas de farsa, afastamento de diretor da PF, sessão de 15 de setembro interrompida por pedido de vista — é a maior rachadura institucional da “Nova República”. É exatamente nesse ponto que o PCBR explica por que a classe operária não deve intervir.

Lênin escreveu que o Estado prova o caráter inconciliável das classes. Não escreveu que, por isso, o revolucionário cruza os braços quando esse Estado se parte ao meio. Cada fenda no aparelho dominante é o momento em que a política de classe deixa de ser abstração e vira intervenção. Quem transforma O Estado e a Revolução em salvo-conduto para não lutar está usando Marx contra a política marxista.

A crise do STF não é um espetáculo paralelo à luta de classes. É a forma atual da luta de classes no topo do Estado. Um banqueiro do Master tinha o número de um ministro, jantava com o presidente da Câmara, era recebido no Palácio e pagava dezenas de milhões ao escritório familiar de um togado vitalício. É o mecanismo concreto pelo qual o capital comanda o Brasil.

A frase “não escolher entre Moraes e Mendonça” é, na prática, a mesma neutralidade que o PT pede quando o ministro aliado entra no atoleiro. Moraes não é um ministro entre onze. Foi o operador da censura, dos inquéritos eternos, do bloqueio de partidos e contas, da prisão política disfarçada de defesa da Constituição. Foi o homem que Lula e a Frente Ampla transformaram em “escudo da democracia”. Quem hoje se recusa a dizer Fora Moraes não está acima das frações burguesas. Está protegendo a fração que usou o tribunal contra a oposição, contra a imprensa incômoda e contra a esquerda que não aceitou a tutela judicial.

Aqui está o nó que o artigo de 17 de setembro esconde. O PCBR — e o conjunto da esquerda que passou os últimos anos ajoelhada diante do Supremo — defendeu o STF quando a conveniência eleitoral e o “antifascismo” institucional pediam. Transformou o julgamento de Bolsonaro em prova de saúde democrática. Celebrou a Corte como dique contra o golpe. Agora, quando a mesma Corte se desfaz em denúncias de corrupção e guerra de facções, não pode virar a chave sem confessar o erro.

Por isso, a formulação foge do concreto. Fala em eleição periódica dos ministros, mas recusa o grito que já está na rua e nas pesquisas: impeachment, Fora Moraes, abaixo a ditadura do Judiciário. O PT não pede o fim do tribunal porque o tribunal foi peça da sua governabilidade. O PCBR não pede Fora Moraes com a mesma clareza porque passou tempo demais no mesmo campo: o da “institucionalidade democrática” contra o “perigo fascista”.

Diante de um tribunal odiado por 68% dos entrevistados numa pesquisa de impeachment, o PCBR responde que o problema seria “tratar a crise institucional como centro”. O grupo busca reduzir a tarefa operária a um sermão sobre independência de classe sem uma só palavra de ordem que organize essa independência contra o órgão que mais concentrou poder no país.

O PCBR se revela um grupo anarquista, e não leninista. O anarquismo clássico também recusa “intervir no Estado” porque o Estado seria, por definição, alheio à luta real. Independência de classe não é equidistância entre o carrasco e o rival do carrasco. Independência de classe é usar a briga deles para destituir o poder deles.

Quando ministros se acusam de fabricar provas, de monitoramento ilegal, de contrato milionário e de farsa eleitoral, a tarefa não é explicar aos trabalhadores que “ambos são burgueses” — isso qualquer operário já desconfia. A tarefa é transformar a crise em campanha: fim do STF como corte vitalícia e irresponsável; eleição e revogação popular de juízes; anulação dos inquéritos de exceção; Fora Moraes. Sem isso, a “posição de classe” vira folheto.

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