A política promovida pela Unidade Popular (UP) no movimento estudantil mostra a distância entre o identitarismo e uma política revolucionária. Enquanto o Partido da Causa Operária defende o fim dos vestibulares e o ingresso de toda a população no ensino superior, militantes ligados à UP concentram sua atividade na reserva de uma pequena quantidade de vagas para pessoas trans.
Essa diferença apareceu na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE), controlada por uma chapa ligada à UP, excluiu de um debate eleitoral Bruno Pedreiro do PCO, candidato do PCO ao governo de Santa Catarina e único operário da disputa. Candidatos burgueses foram chamados, mas o trabalhador da construção civil ficou de fora. Após os protestos, a publicação do encontro foi apagada.
A mesma direção estudantil apresenta como uma de suas principais bandeiras uma universidade “transinclusiva”. A chapa apoiou a aplicação integral da resolução da UFSC que reserva 2% das vagas da graduação e da pós-graduação, além de 1% das vagas em concursos, para pessoas que se declarem trans. Também participou de atos em defesa dessa medida na Universidade do Estado de Santa Catarina.
A UP fechou a porta de um debate universitário para o único candidato operário, mas apresenta a reserva de uma parcela mínima das vagas como uma grande transformação.
O sistema de cotas não acaba com a seleção social. Escolhe alguns representantes entre os milhões que continuam barrados. Em vez de exigir mais universidades, novos cursos, contratação de professores e o fim dos processos seletivos, o sistema distribui uma quantidade reduzida de vagas entre categorias definidas pela burocracia.
Cria-se uma camada privilegiada dentro do sistema de acesso. No caso das cotas trans, uma parcela muito pequena da população é utilizada para justificar toda uma política universitária. O jovem pobre que trabalha, mora na periferia, estudou em uma escola caindo aos pedaços e não consegue pagar transporte, alimentação ou material continua submetido ao vestibular. Caso não pertença a uma das categorias escolhidas, terá de disputar as vagas restantes dentro do mesmo sistema criado para barrá-lo.
É preciso defender o fim do Enem e de todos os vestibulares. Todo estudante que concluir o ensino médio deve ter o direito de entrar na universidade. Para isso, é preciso abrir novas instituições, ampliar os cursos existentes, contratar professores e funcionários e estatizar as universidades privadas. Restaurantes, moradias estudantis, transporte gratuito, creches e bolsas devem permitir que o trabalhador estude sem abandonar o curso para garantir sua sobrevivência.
As cotas também não garantem a permanência. Um estudante pobre pode entrar e ser obrigado a deixar o curso por não ter dinheiro para comer, pagar a passagem ou diminuir sua jornada de trabalho. Dados mostraram que as barreiras econômicas continuam provocando a saída de estudantes negros e pobres, apesar da reserva de vagas. O livre ingresso precisa ser acompanhado por condições materiais para a permanência dos estudantes.
O identitarismo é necessariamente autoritário. Para distribuir direitos segundo identidades, precisa criar comissões, regulamentos e órgãos encarregados de decidir quem pertence a cada categoria. Depois, precisa vigiar a linguagem, perseguir os críticos e impedir a discussão sobre a divisão dos trabalhadores. A divergência deixa de ser respondida politicamente e passa a ser apresentada como uma agressão contra determinado grupo.
Foi o que aconteceu na UFRJ quando Luan Monteiro, candidato do PCO ao governo do Rio de Janeiro, rejeitou a criação de cotas para pessoas trans e defendeu o livre ingresso. Militantes tentaram interromper sua fala e gritaram que ele seria preso. A defesa de universidade para todos foi tratada como delito, enquanto a censura apareceu disfarçada de proteção a uma minoria.





