STF

Supremo Trambique Familiar: ministros usam seus cargos para enriquecer parentes

Filhos, esposas e ex-cônjuges de ministros acumulam escritórios, empresas e contratos milionários, evidenciando os objetivos de quem ocupa altos cargos burocráticos

O caso Banco Master escancarou a relação entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), seus familiares, o Estado e os capitalistas. Escritórios de advocacia, institutos de ensino e empresas patrimoniais colocam parentes dos magistrados em contato direto com bancos, empresários e processos de grande valor.

O episódio mais grave envolve Alexandre de Moraes. O escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, assinou com o Banco Master um contrato de R$131 milhões para serviços de consultoria e representação jurídica. Também foi negociado um segundo contrato, de R$50 milhões, com uma empresa ligada a Daniel Vorcaro. Esse acordo não foi assinado, mas reportagens apontam que o escritório recebeu R$80 milhões do banco. No total, são R$211 milhões de Vorcaro para a família de Moraes.

Os valores revelam o tamanho dos negócios mantidos entre a família de um ministro do Supremo e uma instituição financeira comprovadamente corrupta que movimentou o mais escândalo financeiro-estatal da história da Nova República.

Além disso, próprio Moraes trocou mensagens com Vorcaro e se encontrou com ele em diferentes ocasiões. As mensagens foram apagadas por Moraes para que não se tornassem provas de seus crimes.

Embora não haja parâmetro de comparação da sociedade Moraes-Vorcaro com as relações de outros ministros com o banqueiro, o escândalo virou um furacão que atingiu vários ministros.

O filho de Nunes Marques

Mensagens retiradas do celular de Vorcaro também mencionam Kevin de Carvalho Marques, filho de Kassio Nunes Marques. O advogado tem 26 anos e passou no exame da OAB em fevereiro de 2024. Pouco depois, começou a defender grandes empresas em processos tributários.

Kevin representa a Refit, empresa investigada pelo STF por suspeitas de fraude e sonegação fiscal no setor de combustíveis. Ele entrou no processo depois que o caso chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, onde seu pai atuou como desembargador entre 2011 e 2020.

O advogado recebeu R$281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências entre agosto de 2024 e julho de 2025. No mesmo período, a empresa recebeu R$6,6 milhões do Banco Master, de acordo com relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Em uma conversa, o então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, informou a Vorcaro que faltava um pagamento à “consult”. Em outra, perguntou se deveria manter um repasse de “500 mil mês” ao advogado. Vorcaro respondeu com uma risada.

O filho do ministro construiu rapidamente uma carteira de clientes milionários. Reportagem de O Globo informa que seu antigo site anunciava mais de mil processos “resolvidos” e mais de 500 clientes.

Rodrigo Fux e os demais contatos

Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, também aparece nas mensagens. Vorcaro pediu ajuda em um caso não identificado, combinou encontros com o advogado e ofereceu convites para um camarote de Carnaval ao profissional e à família.

Em março de 2025, Rodrigo orientou o banqueiro a enviar um e-mail à secretária de Luiz Fux no Supremo. A assessoria do advogado afirma que a aproximação comercial não avançou e que não houve pagamento.

As mensagens não comprovam, por si só, que os filhos tenham interferido em julgamentos ou recebido valores diretamente do banqueiro. Elas mostram, porém, a facilidade com que um empresário investigado transitava no entorno de ministros que depois precisariam analisar o caso.

O mesmo material cita Ciro Soares, advogado que fez campanha pela indicação de André Mendonça ao STF. Soares levou Vorcaro ao escritório do ministro e comemorou com o banqueiro um habeas corpus concedido a Cláudio Castro. As conversas também registram a intermediação de convites para eventos do Instituto Iter, ligado a Mendonça.

Toffoli, Zanin e um negócio familiar muito lucrativo

Levantamento da Folha de S.Paulo encontrou nove ministros do STF e 12 parentes diretos como sócios de pelo menos 31 empresas. Treze são escritórios de advocacia ou institutos jurídicos. As demais atuam em áreas como imóveis, agropecuária, cursos e gestão patrimonial.

A Lei Orgânica da Magistratura permite que juízes sejam sócios e recebam dividendos, desde que não exerçam funções de administração. Filhos e cônjuges não estão sujeitos à mesma limitação. A legislação, portanto, não impede que o patrimônio familiar se desenvolva ao redor do cargo público.

Afinal de contas, a burocracia estatal, que faz a legislação (no caso do STF, atropelando o Legislativo) para atender às necessidades da burguesia, precisa se assegurar de enriquecer de maneira legal. Ela controla o Estado e a lei serve justamente para garantir esse controle. Da mesma forma, é absolutamente legal a cobrança de impostos sobre o consumo, pelos quais os pobres pagam mais do que os ricos, ou então o repasse de quase metade do PIB para o capital financeiro na forma de juros e amortizações da dívida pública.

Tudo isso é legal, porque quem faz, modifica ou anula uma lei é a mesma burocracia parasitária a serviço dos capitalistas. Juízes, procuradores, promotores, desembargadores etc assumem seus postos no Estado porque os salários são altos, as mordomias incomparáveis, os privilégios crescentes. Tudo isso, mesmo que não cometam nenhum crime. O parasitismo, no Estado capitalista, é a lei.

Após essa explicação, vamos voltar aos nossos casos, que não são apenas sobre o parasitismo legal, mas também sobre as falcatruas dos ministros do STF…

Dias Toffoli admitiu ser sócio da holding Maridt, ligada ao resort Tayayá, vendido a um fundo relacionado a Vorcaro. A ligação com o empreendimento e com o Banco Master fez com que deixasse a relatoria do caso. A Polícia Filial apontou elementos de suspeição contra o ministro.

Gilmar Mendes aparece como o magistrado com maior número de empresas. Ele participa, direta ou indiretamente, de seis companhias. A Roxel Participações, uma delas, tem capital social de R$9,8 milhões e participa de empresas ligadas ao Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), além de negócios agropecuários.

Os filhos de Gilmar também trabalham no setor jurídico. Francisco Schertel é sócio do IDP e de um escritório de advocacia. Laura Schertel mantém uma sociedade individual. A ex-esposa do ministro, Guiomar Lima, tornou-se sócia do escritório Sergio Bermudes depois de se aposentar, após 32 anos de serviço público em tribunais superiores.

A esposa de Moraes participa de três empresas, entre elas o escritório Barci de Moraes e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos, que também reúne os filhos do casal. O capital social das companhias chega a R$5,6 milhões.

Cristiano Zanin é sócio da Attma Participações, voltada à gestão patrimonial. Sua esposa mantém participação em empresas imobiliárias e no escritório Zanin Martins Advogados. André Mendonça e a esposa são sócios da Integre Cursos e Pesquisa em Estado de Direito e Governança Global. Janey Mendonça também foi sócia do Instituto Iter, que continua vendendo cursos do ministro e faturou R$4,8 milhões em contratos públicos.

Cabe a pergunta: se essas pessoas não fossem parentes dos homens mais poderosos da República, teriam alcançado o sucesso que alcançaram?

Nas linhas abaixo, há respostas para isso. Na verdade, trata-se de um círculo vicioso: os meretrícimos já são provenientes das camadas superiores da sociedade, da burguesia e do latifúndio, de onde são recrutados os funcionários da burocracia estatal. Ao galgarem suas posições na máquina de dominação dos capitalistas, os meretrícimos se enriquecem ainda mais, multiplicando sua fortuna familiar e fazendo a carreira de seus herdeiros.

Uma casta social que se reproduz

Flávio Dino integra uma família que ocupa posições de poder no Maranhão há mais de um século. Levantamento do Poder360 aponta a presença de seus parentes na elite política desde o século 19. O ministro é sócio do Instituto de Estudos Jurídicos, aberto no Maranhão em 2003.

O caso ajuda a entender que a relação entre poder público e patrimônio familiar não começou com o Banco Master. No início dos anos 2000, reportagens já registravam escritórios formados por filhos de ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça.

Marcelo Galvão, filho de Ilmar Galvão, e Alexandre Jobim, filho de Nelson Jobim, atuavam juntos em Brasília. Em 2003, outro levantamento identificou 525 processos envolvendo filhos de ministros dos dois tribunais superiores. O filho de Carlos Velloso aparecia em 116 ações no STF.

Clientes procuravam esses escritórios porque acreditavam que o parentesco facilitaria o andamento dos processos. O sobrenome de um ministro passou a funcionar como argumento de venda, mesmo quando não havia prova de interferência direta.

A ascensão de familiares à magistratura produziu episódios semelhantes. Letícia Mello, filha de Marco Aurélio, tornou-se desembargadora do Tribunal Regional Federal da 2ª Região pelo quinto constitucional. O ministro até admitiu ter telefonado para desembargadores durante a disputa. Se fosse um político eleito fazendo o mesmo, o STF teria imediatamente mando a PF prendê-lo, como faz quase todos os dias por muito menos.

Marianna Fux, filha de Luiz Fux, chegou ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O pai foi acusado de fazer campanha pela candidatura, enquanto Sergio Bermudes, seu amigo e empregador da advogada, organizou uma festa que reuniu desembargadores do tribunal.

Esses episódios demonstram que filhos de ministros desfrutam de uma posição que não está disponível a praticamente mais ninguém no País.

O Supremo e os grandes capitalistas

A promiscuidade com os capitalistas e a venda do seus respectivos peixes também aparecem nos eventos organizados pelos próprios ministros.

O Fórum Jurídico de Lisboa, comandado por Gilmar Mendes e conhecido como “Gilmarpalooza”, reuniu 64 empresas e entidades privadas em 2025. Bancos, mineradoras, seguradoras, empresas de tecnologia, planos de saúde e representantes do latifúndio dividiram o palco com ministros, políticos e advogados.

Executivos de empresas com processos no STF participaram do encontro. Também ocorreram jantares reservados e reuniões fora da programação oficial.

A Corte que decide sobre bancos, empresas de energia, planos de saúde, grandes grupos econômicos e praticamente tudo o que afeta a vida dos brasileiros transformou-se em ponto de encontro entre os próprios julgadores e os interessados nas decisões. Claro que não havia nenhum trabalhador, sem terra ou pessoa humilde naqueles encontros. Afinal de contas, o grande balcão de negócios da República serve para aprimorar a exploração contra o povo, não o contrário.

A defesa de que tudo está dentro da lei não responde à questão central. Um advogado desconhecido não tem as mesmas oportunidades que o filho de um ministro. Um instituto ligado a um magistrado não possui o mesmo acesso que uma entidade comum. O alto cargo público produz relações que podem ser convertidas em clientes, contratos, convites e investimentos.

O Banco Master apenas trouxe à luz uma prática antiga. Ministros decidem sobre negócios bilionários enquanto seus parentes atuam no mercado que depende dessas decisões. O Supremo não é uma instituição distante dos interesses econômicos da burguesia: está inteiramente enlameado por eles.

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