Fernando Horta em seu Tudo é uma questão de memória, publicado no Brasil 247 nesta quinta-feira (17), escreveu um artigo sobre memória, mas parece ter aplicado o conceito de uma maneira bastante peculiar: lembrar de tudo aquilo que serve para condenar seus adversários e esquecer justamente aquilo que coloca em dúvida a narrativa construída. O texto começa com a promessa de recuperar a história, mas termina fazendo uma verdadeira operação de limpeza do passado.
O autor afirma que “o povo brasileiro, do lado de fora, não sabia bem do que ela estava se desculpando, porque não lembra de quase nada do que trouxe o país até aquela sala”. A frase parece profunda, quase uma reflexão filosófica sobre a memória nacional. O problema é que ela poderia ser aplicada ao próprio articulista. Afinal, há uma série de acontecimentos que ele parece não lembrar quando transforma o Supremo Tribunal Federal em herói da “democracia”.
A memória que Horta reivindica é uma memória bastante específica. Ela lembra da “fila do osso”, da pandemia, de Bolsonaro e dos atos de 8 de janeiro. Tudo isso faz parte da história política recente e deve ser debatido. Mas existe uma parte da história que desaparece misteriosamente quando o assunto é o STF: o papel da Corte no golpe de 2016, as decisões judiciais contra a esquerda e a atuação de ministros que hoje são apresentados como guardiões incontestáveis das instituições.
A mesma Cármen Lúcia que, segundo Horta, “pediu desculpas ao povo brasileiro” dentro do Supremo é uma ministra que teve papel decisivo em momentos fundamentais da crise política brasileira, como votar pela prisão de Lula. A memória, aparentemente, funciona melhor quando serve para lembrar os erros dos outros.
O ponto central do artigo é a frase: “O STF ficou sozinho lutando contra o fascismo. Hoje paga o preço.” O que só pode ser uma piada, uma péssima piada, quando ministros tão abnegados e heróicos aparecem em escândalo milionários
A imagem é realmente curiosa: onze ministros com salários elevados, enorme poder jurídico e capacidade de interferir diretamente na política nacional seriam os grandes abandonados da história brasileira. Faltou apenas dizer que carregavam sacolas de mantimentos enquanto defendiam a “democracia” em trincheiras improvisadas.
Horta abandona qualquer análise concreta sobre o funcionamento do regime. Instituições não agem fora da luta política. Elas expressam relações de força existentes na sociedade. Quando o STF toma uma decisão, não está simplesmente colocando em prática uma defesa abstrata de uma suposta “democracia”; está atuando em uma conjuntura determinada, com interesses e consequências políticas.
Por isso também chama atenção a maneira como Horta trata Alexandre de Moraes. O ministro aparece como uma figura quase trágica, alguém que estaria sendo injustamente atacado por ter enfrentado o bolsonarismo. O autor escreve que “deixar Moraes ser usado como boi de piranha para o fascismo” seria uma grande injustiça histórica.
Essa descrição elimina justamente aquilo que deveria ser discutido: o acúmulo de poderes extraordinários nas mãos de um ministro do Supremo. Moraes não foi um simples espectador dos acontecimentos. Ele ocupou um papel central nas decisões tomadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelo STF nos últimos anos. Apresentá-lo como uma vítima passiva é sofrer de amnésia profunda.
A defesa de Horta chega ao ponto de afirmar que Lula só está na Presidência porque Moraes teria sustentado as instituições. Segundo ele, “Lula só é presidente neste momento por conta das lutas que Moraes resolveu encarar”. O articulista simplesmente ignora que existe uma classe trabalhadora que votou em Lula, não existe mobilização popular, mas um juiz que mata a bola da democracia no peito e marca um gol. É ridículo, pois Moraes também votou com Cármen Lúcia pela prisão de Lula.
O mais curioso é que o próprio artigo reconhece que existe uma crise no STF. Horta menciona que há pessoas discutindo “que o Supremo virou um poder sem freio” e que seria necessário discutir mudanças no Judiciário. Mas imediatamente transforma qualquer crítica ao funcionamento da Corte em uma ameaça ao fascismo.
Horta impede que se discuta o problema real: como uma instituição que não é eleita passou a ocupar um espaço tão grande na vida política nacional. Deveria, como defensor da democracia, exigir o fim de Corte que impôs uma ditadura ao País.
A tese de Horta termina criando uma contradição. Ele denuncia a falta de memória da sociedade brasileira, mas constrói uma narrativa em que o passado começa exatamente quando ela é conveniente. O STF aparece apenas como defensor da democracia; suas contradições desaparecem. Moraes aparece apenas como alvo; seus excessos somem do mapa. A política figura apenas como uma disputa entre democracia e fascismo; os interesses concretos das classes sociais desmancham no ar.
No final, a lição sobre memória acaba servindo contra o próprio autor. Uma sociedade sem memória realmente não consegue compreender seu presente. Mas uma sociedade que recebe apenas uma memória selecionada também não consegue compreender sua história.
A memória não pode ser um arquivo onde se guardam apenas as lembranças favoráveis e se joga fora aquilo que incomoda. Além disso, o que o autor faz é criar não um relato histórico, mas uma peça de ficção.
O papel do STF na vida política brasileira é extremamente negativo. A defesa dessa instituição e de seus ministros é que tem feito a classe trabalhadora ligar a esquerda ao sistema que a oprime, e por isso se afasta em direção à extrema direita.
Esses defensores das instituições burguesas são os maiores cabos eleitorais do bolsonarismo, pois, ao contrário dessa esquerda pequeno-burguesa que vive em um mundo imaginário, o trabalhador sabe muito bem reconhecer seus inimigos.





