Eduardo Guimarães publicou nesta quinta-feira (17) no Brasil 247, uma longa defesa de Alexandre de Moraes baseada em uma suposta análise técnica do relatório da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro.
O texto tenta logo no início dar uma carteirada no leitor, uma vez que a credibilidade do jornalista, que negava de pés juntos que não havia contrato entre Vorcaro e escritório de Viviane Barci de Moraes, por isso recorre a especialistas premiados, cita argumentos jurídicos e constrói uma aparência de grande rigor metodológico. O problema é que todo esse recurso de autoridade não enfrenta o principal ponto da questão: mesmo que se aceite a interpretação mais favorável ao ministro, o que é muito difícil, existe uma crise política instalada no Supremo Tribunal Federal.
A burguesia, que é mais consequente do que a esqueda pequeno-burguesa, já detectou a crise e está tentando sacar Moraes para salvar o Supremo. Ao passo que uns aloprados tentam salvar um ministro que está arrastando consigo Lula para o fundo do poço e servindo para aumentar as intenções os votos de Flávio Bolsonaro.
Guimarães tenta conduzir o debate para uma única pergunta: as mensagens encontradas no celular de Vorcaro provam, com grau absoluto de certeza, que Moraes recebeu cada uma delas? Essa questão que importa para uma investigação criminal, não esgota o problema.
O relatório da Polícia Federal identificou 52 anotações no aplicativo Notas do celular de Daniel Vorcaro. A investigação apontou uma sequência de eventos envolvendo a criação dos textos, capturas de tela, abertura do WhatsApp e registros de envio para um terminal salvo na agenda do banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
A defesa de Moraes explora justamente a diferença entre essas mensagens. Cinco delas, de 17 de novembro de 2025, foram localizadas diretamente nas conversas do WhatsApp. As outras 47 não foram encontradas no aplicativo, sendo relacionadas pela perícia a partir de outros elementos técnicos do aparelho.
Mas a questão central não é quantidade. É qualidade.
O argumento de que “apenas cinco mensagens” foram recuperadas diretamente não resolve o problema político. Se existisse apenas uma mensagem comprovadamente enviada, isso já seria uma situação de enorme gravidade, dependendo do seu conteúdo e das circunstâncias.
A tentativa de transformar a discussão em uma disputa sobre 47 mensagens contra 5 acaba desviando o foco. A pergunta não é apenas quantas mensagens podem ser usadas em um processo judicial. A pergunta é por que um banqueiro como Daniel Vorcaro mantinha em seu aparelho um contato identificado como Alexandre de Moraes e em que situação essa relação existia.
Guimarães afirma que o relatório possui fragilidades porque não comprovaria, por si só, que Moraes recebeu, abriu ou leu todas as mensagens. O próprio relatório reconhece limites desse tipo: a perícia consegue demonstrar a existência dos textos no aparelho de Vorcaro e uma cadeia de eventos compatível com envio, mas não comprova sozinha a titularidade da linha receptora ou a visualização de cada mensagem. Isso, porém, não elimina a crise.
O problema político não é apenas jurídico. Uma Suprema Corte não depende somente de provas suficientes para uma condenação criminal. Ela depende também de confiança pública e de uma aparência rigorosa de independência.
É a velha questão da mulher de César: não bastava que fosse honesta, era preciso parecer honesta.
Quando se revela que o Banco Master mantinha uma relação contratual milionária com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, o debate deixa de ser uma simples discussão sobre metadados de celular. Existe uma relação econômica concreta envolvendo pessoas próximas a um integrante da Corte. Isso, por si só, gera uma discussão política sobre conflito de interesses e sobre a imagem da instituição.
A resposta de que determinada conduta não foi ilegal ou de que determinada comunicação não foi totalmente comprovada não resolve automaticamente esse problema. A questão não é apenas se existe uma condenação possível; é se a população pode confiar que aqueles que julgam conflitos envolvendo grandes empresários e interesses econômicos estão completamente afastados de relações privadas que possam gerar dúvidas.
O mesmo raciocínio aparece no caso dos cartões de crédito concedidos a familiares de ministros. A alegação de que os cartões não foram utilizados responde apenas ao uso efetivo do benefício. Não responde à pergunta política principal: por que esse benefício foi oferecido?
Se alguém recebe uma vantagem de grande valor e considera inadequado utilizá-la, a solução não é simplesmente deixar de usar. A solução seria rejeitar o benefício. A existência da concessão já é um elemento que precisa ser explicado.
Por isso, o longo recurso de autoridade construído por Eduardo Guimarães — citando juristas, apresentando argumentos técnicos e explorando as limitações da prova digital — é quase supérflua. Ele pode discutir uma particularidade do problema, mas não arranha a crise política instalada.
O próprio relatório da Polícia Federal não é apresentado como uma prova acabada de todos os fatos possíveis. Ele aponta uma cadeia de indícios técnicos, mas também possui limites. A discussão política, entretanto, surge justamente porque esses elementos se somam a outras relações e circunstâncias envolvendo o ministro, seu entorno e setores econômicos poderosos.
A esquerda que tenta defender Moraes apenas com base nesses argumentos técnicos acaba repetindo um erro: confundir a ausência de uma condenação definitiva com a inexistência de um problema político.
O Supremo Tribunal Federal não está em crise apenas porque existem acusações contra um ministro. A crise existe porque a própria autoridade da instituição foi colocada em questão diante de uma sequência de fatos que levantam dúvidas sobre privilégios, relações econômicas e proximidade entre membros da Corte e interesses privados.
É esse ponto que Eduardo Guimarães não enfrenta. Ao concentrar toda sua análise em saber se as 47 mensagens têm o mesmo grau probatório das 5 recuperadas no WhatsApp, tenta recuperar a reputação de Moraes de dentro da lama e ver se consegue preservar o STF, a instituição mais reacionária do Estado burguês e inimiga declarada da classe trabalhadora.





