Polêmica

Uma defesa apaixonada do STF putrefato

Para defender Moraes, articulista chama de “moralismo” a denúncia da podridão do Supremo e transforma uma disputa entre facções do regime em luta contra o fascismo

Suprema Lama

Mario Vitor Santos, em artigo “É preciso ter lado na luta contra o fascismo que está em disputa no Supremo” publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (14), sustenta que a esquerda precisa escolher um lado na guerra aberta dentro do Supremo Tribunal Federal. De um lado estariam Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, os supostos defensores da democracia. Na outra “facção”, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luís Fux e Edson Fachin.

O ponto mais revelador do artigo aparece quando Santos tenta desqualificar as denúncias contra Moraes como “moralismo” e compara a situação atual à Lava Jato: “a questão moral não pode ser o fiel da balança, numa reincursão no lavajatismo que já contaminou e uniu alguns de nossos esquerdistas ao processo que veio dar no golpe contra Dilma.”

É justamente aí que a discussão precisa ser colocada corretamente. Naturalmente existe uma operação política em torno do caso Master. Ninguém precisa acreditar que setores da burguesia tenham subitamente descoberto a honestidade e decidido limpar o País. Daniel Vorcaro tornou-se uma pedra no sapato e, ao mesmo tempo, setores do regime encontraram a oportunidade de se livrar de Alexandre de Moraes, que se tornou quase um imperador e criou uma quantidade enorme de problemas ao concentrar poderes excepcionais nas próprias mãos.

A burguesia sempre procura utilizar escândalos, investigações e disputas judiciais segundo seus próprios interesses. Mas isso não transforma Moraes em uma pobre vítima nem faz desta crise uma nova Lava Jato.

A diferença é elementar. A Lava Jato foi uma operação política montada para perseguir Lula, destruir empresas nacionais, atingir o PT e preparar o golpe de 2016. Sérgio Moro foi um pau mandado para interferir diretamente na luta política, apoiado pela grande imprensa, pelo imperialismo e por setores da burguesia.

No caso atual, está sendo exposta a própria podridão de uma instituição sem qualquer legitimidade. O STF é composto por ministros que ninguém elegeu e que acumulam poderes para censurar, prender, bloquear partidos, interferir nas eleições e decidir praticamente qualquer questão política importante do País. A crise do Master revelou justamente como essa enorme concentração de poder convive com relações milionárias entre ministros, familiares, grandes empresários e banqueiros.

Não é necessário cair no “moralismo” para perceber o problema. Aliás, o próprio jornalista se esforçou para colar o caso de corrupção do Banco Master nos Bolsonaros. Agora, que atinge o STF, muda de atitude.

Um balcão de negócios

Santos escreve que “mesmo que se queira operar na faixa do moralismo, como igualar Moraes, que só é julgado porque ousou punir os golpistas assassinos, com um verme escolhido especialmente para proteger um candidato do crime organizado e um banqueiro mafioso, responsável por fraudes bilionárias?” A frase inverte completamente a situação.

Moraes não está sendo questionado “só” porque puniu golpistas (ele mesmo é um golpista). Surgiram relações financeiras multi milionárias entre empresas de Daniel Vorcaro e o escritório de sua mulher, além de mensagens e contatos envolvendo o banqueiro e integrantes do Supremo.

Alguém já disse muito bem que se Alexandre de Moraes estivesse julgando a si mesmo, já estaria preso.

Pode haver manipulação política na divulgação dessas informações? Evidentemente. Mas isso faz os fatos desaparecerem. O problema de Santos é imaginar que denunciar essas relações significa aderir à campanha da direita contra Moraes. Não significa. O dever da esquerda é justamente não depender de nenhuma das facções dessa briga

O Supremo tornou-se um enorme centro de negociações políticas, interesses empresariais e disputas pessoais. A democracia é a última coisa que preocupa esses ministros. Ela serve como justificativa pública para seus atos e como argumento destinado a convencer pessoas incautas de que defender uma ala do Tribunal significa combater o fascismo.

A própria biografia dos personagens deveria bastar para provocar alguma desconfiança.

Gilmar Mendes, agora virou ‘antifascista’, foi quem em 2016 impediu Lula de assumir a Casa Civil e o atirou no colo de Sérgio Moro.

Alexandre de Moraes foi ministro de Michel Temer, o presidente colocado no Planalto pelo golpe contra Dilma Rousseff.

Esses homens não se converteram subitamente em revolucionários democráticos. Apenas entraram em choque com outro setor da direita e, por isso, uma parcela da esquerda decidiu adotá-los.

E as liberdades?

Santos chega a debochar de quem afirma que Moraes restringiu liberdades democráticas. É difícil saber qual parte exatamente considera engraçada.

Foi Moraes quem determinou o bloqueio das contas do PCO nas principais redes sociais (em ano eleitoral). Foi sob sua direção que o inquérito das “fake news” permaneceu anos como uma espada sobre partidos, jornalistas e cidadãos. Houve bloqueio de contas, retirada de publicações, buscas e prisões. Mas agora seus defensores descobriram os perigos dos “inquisidores”.

Quando Moraes utilizava poderes excepcionais contra os outros, era defesa da democracia. Quando outro setor do Supremo utiliza investigações contra Moraes, virou inquisição..

Não escolher entre duas facções

Há uma passagem curiosamente sincera no artigo. Santos chama o grupo adversário de Moraes de “facção acusadora”. Se existem facções no STF, a conclusão deveria ser óbvia. A esquerda não tem de escolher uma delas.

É exatamente isso que Santos exige: diante de uma luta entre ministros, banqueiros, Polícia Federal e setores do regime, seria necessário entrar no meio e defender Moraes porque sua queda poderia favorecer eleitoralmente a extrema direita.

O próprio articulista admite que “há muito em jogo, a começar pela eleição de Lula”. Está aí a verdadeira explicação. Para não prejudicar Lula, seria necessário salvar Moraes. Essa política só está fazendo a esquerda apanhar.

Quanto mais se identifica com Moraes, Gilmar Mendes, o STF e a Polícia Federal, mais aparece diante da população como defensora do regime. A extrema direita, que é parte desse mesmo regime e serve à burguesia, ganha então a possibilidade de posar de força “antissistema”. A esquerda faz o trabalho político dos bolsonaristas por eles.

Não há nenhuma obrigação de escolher entre Moraes e Mendonça. Se Mendonça manipula o caso para seus próprios interesses, deve ser denunciado. Se Moraes está envolvido em relações suspeitas com banqueiros, deve ser investigado. Se diferentes setores da burguesia utilizam a crise para acertar suas contas, isso deve ser explicado.

É uma insanidade transformar um ministro do STF em “herói da história brasileira” porque, em determinado momento, entrou em conflito com Bolsonaro. A tarefa da esquerda é ter uma política própria, independente de todas essas facções. Não salvar Moraes, mas levar a classe trabalhadora a se chocar com esse sistema podre para colocá-lo abaixo.

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