Henrique Áreas, candidato do Partido da Causa Operária ao governo de Minas Gerais, explicou em entrevista por que o PCO participa das eleições mesmo considerando que a disputa é profundamente desigual. Também apresentou as propostas do Partido para a dívida pública, os incentivos fiscais, as privatizações e a mineração.
Áreas afirmou que o PCO não considera possível competir em igualdade de condições com partidos financiados pelos grandes capitalistas e favorecidos pela exposição nos grandes órgãos de imprensa.
“Nós não temos uma ilusão na eleição. A gente acha que as eleições são feitas para os partidos e os indivíduos representantes dos grandes capitalistas que já têm o poder na mão. Então, nós não temos ilusão de que vamos aparecer nas pesquisas lá em cima. Não temos ilusão também de que, se a gente tiver aquele discurso um pouco mais bonito, fizer alguma manobra, tiver alguma esperteza, vai conseguir resolver esse problema. Para a gente, a eleição, em última instância, é um jogo de cartas marcadas.”
Os grandes partidos, lembrou, dispõem de muito mais dinheiro, espaço no horário eleitoral e acesso aos debates e à imprensa. A desigualdade, porém, não torna inútil a participação eleitoral. Durante a campanha, milhões de pessoas acompanham com mais atenção as discussões políticas, abrindo uma possibilidade de apresentar o programa do Partido.
“Por mais sabotada que possa ser a campanha de um Partido como o nosso, no momento da eleição a maioria da população está olhando para a política, vendo o que aquela pessoa está falando, o que aquela outra está falando. Então é uma oportunidade. Ainda que você não tenha tanta visibilidade como os grandes partidos, é uma oportunidade para o Partido se inserir nas discussões políticas que o País está vivendo.”
Áreas explicou que o objetivo não é simplesmente obter votos, mas conquistar trabalhadores para um programa político.
“O Partido pode apresentar o seu programa, chegar em pessoas que talvez a gente não conseguisse alcançar dependendo apenas das redes sociais, do nosso jornal impresso ou de um panfleto. Por isso a gente participa das eleições: para ter esse espaço, ainda que muito limitado, para divulgar o nosso programa, que é um programa socialista, um programa revolucionário.”
Essa atividade, acrescentou, não se limita aos meses de campanha.
“O PCO não é um Partido de eleição. Nós não participamos só na eleição. A gente acha que a eleição é esse momento para aparecer com o nosso programa, mas o PCO é um Partido do dia a dia, do cotidiano. Então a gente atua em todos os momentos em que haja luta política, em que haja alguma mobilização.”
O candidato citou os jornais, panfletos e redes sociais utilizados pelo Partido, mas destacou principalmente a intervenção nas lutas políticas concretas. Como exemplo, lembrou a posição adotada pelo PCO diante das arbitrariedades do Supremo Tribunal Federal.
“O PCO foi o único partido de esquerda que não se colocou favorável às arbitrariedades do Alexandre de Moraes quando ele e boa parte do STF começaram a perseguir os bolsonaristas. Porque, para nós, a perseguição contra os bolsonaristas era a mesma perseguição que foi feita pelo mesmo Judiciário, pelo mesmo STF, contra Dilma e Lula.”
Áreas rejeitou a ideia de que a repressão judicial pudesse ser apoiada por atingir naquele momento a direita.
“Há um poder político muito maior do que simplesmente Bolsonaro ou Lula que tenta manipular a situação política no País. […] O STF é contra o povo. Não importa se eles estão fingindo que estão combatendo Bolsonaro. O problema é: a serviço de quem eles estão?”
‘1% sem enganar o povo’
O dirigente também comentou os resultados do PCO nas pesquisas. Para ele, uma votação menor obtida pela defesa clara do programa do Partido vale mais politicamente do que um resultado maior conquistado por meio de promessas eleitorais destinadas apenas a agradar o eleitor.
“Na nossa opinião, 1% do eleitor falando que vai votar na gente é muito mais valioso do que talvez se a gente tivesse 10%, mas com uma política meramente eleitoreira, do famoso ‘vote em mim que eu vou resolver o seu problema’. Porque isso não eleva a consciência de ninguém. Isso daí você só está enganando o povo.”
Áreas acrescentou:
“Se a gente tem 1% sem enganar o povo, mostrando claramente o que a gente defende, para a gente é um resultado bom. Cada pessoa que a gente consegue convencer é muito mais do que simplesmente ter um voto.”
Suspender o pagamento da dívida
Questionado sobre a dívida de Minas Gerais com a União, Henrique Áreas afirmou que esse é um dos principais problemas econômicos do Estado e deve servir também como eixo para uma mobilização nacional contra a dívida pública.
“A gente acha que esse é um tema central nessa eleição. Não só na eleição, mas como tema para uma mobilização do povo, inclusive fora da eleição. O problema da dívida está impedindo que o País se desenvolva. O dinheiro do País está indo para os banqueiros especuladores.”
A proposta do PCO é interromper o pagamento e utilizar os recursos em serviços e obras para a população.
“Você precisa interromper esse pagamento da dívida imediatamente, parar de pagar a dívida e investir esse dinheiro em melhorias para o povo, saúde, educação, infraestrutura etc. No caso dos estados, é a mesma coisa. A gente acha que o Estado de Minas Gerais não deveria pagar mais a dívida.”
Henrique Áreas afirmou que uma medida dessa dimensão não poderia ser tomada como simples decisão administrativa. Um governo do PCO deveria convocar a população para sustentar politicamente a suspensão do pagamento.
“Aí você teria que chamar o povo a se mobilizar. E você teria também que não só chamar o povo de Minas a se mobilizar, mas a gente aproveitaria a autoridade que teria num governo de um estado tão importante como Minas para ajudar na mobilização do povo brasileiro todo para que não se pague essa dívida.”
Sem enfrentar esse problema, afirmou, as promessas feitas durante a campanha não possuem base material.
“Toda promessa de campanha que os candidatos fazem sem tocar nesse problema da dívida, para a gente, é uma grande farsa, porque ninguém vai fazer melhoria de nada, ninguém vai investir em nada se não resolver o problema da dívida.”
Dinheiro público e grandes empresários
Sobre os incentivos fiscais, Áreas afirmou que é preciso diferenciar pequenos proprietários dos grandes grupos capitalistas. O pequeno comerciante e o pequeno empresário, apontou, também sofrem com a crise e com a pressão exercida pelas grandes empresas e pelos bancos.
A oposição do PCO é à transferência de recursos públicos para grandes capitalistas.
“Em primeiro lugar, a gente não é a favor de distribuir dinheiro público para os grandes empresários. Isso como política geral nossa. É importante analisar isso com certo cuidado, porque um pequeno empresário também sofre com a crise econômica do País.”
Áreas afirmou que grande parte dos recursos destinados às grandes empresas nem sequer resulta em ampliação da produção ou dos empregos.
“O problema é que esse dinheiro, na maioria das vezes, vai para os grandes capitalistas, que acabam não investindo isso para desenvolver, contratar mais pessoas, aumentar a produtividade da empresa, ou seja, produzir mais riqueza para o Estado. Isso, inclusive, muitas vezes acaba servindo para esses empresários pagarem dívidas que têm com os banqueiros. É uma maneira de o Estado, indiretamente, dar mais dinheiro para o banqueiro.”
Reestatizar e impedir o fechamento das fábricas
Para enfrentar a crise produtiva, o candidato defendeu a reversão das privatizações e a ampliação da propriedade estatal nos setores decisivos.
“A gente defende a reestatização daquilo que foi privatizado, interromper tudo aquilo que está em processo de privatização e determinados setores da economia nós inclusive achamos que devem ser estatizados, aqueles setores que são importantes para a economia, mas que estão na mão da iniciativa privada.”
Henrique Áreas também defendeu uma política para empresas e grandes fábricas ameaçadas de fechamento. Nesses casos, os trabalhadores deveriam assumir sua gestão, enquanto o Estado forneceria os recursos necessários para preservar a produção e os empregos.
“Nós achamos que os trabalhadores dessas empresas devem tomar a gestão e que o Estado deveria dar todas as condições para os trabalhadores gerirem a empresa. Porque o fechamento de empresa significa pobreza para o Estado e para o País, porque você está parando de produzir. Então é desemprego, ataque à produção, ao setor produtivo.”
Em vez de entregar recursos aos proprietários de empresas que ameaçam fechar suas portas, o candidato defendeu sua continuidade sob nova administração.
“Em vez de o Estado distribuir dinheiro para os capitalistas, o Estado deveria gerir essas empresas e garantir que elas continuassem produzindo, garantir os empregos.”
Mineração nas mãos do Estado
Áreas citou siderúrgicas, metalúrgicas, estradas, energia, água, telefonia e Correios entre os setores que podem ou devem ser mantidos sob controle estatal. Para Minas Gerais, destacou especialmente a mineração.
“A mineração, na nossa opinião, deveria ser toda estatal, tanto por conta do fato de que a iniciativa privada, como ela visa ao lucro, não presta nenhuma atenção ao problema ecológico, ao problema da população que está ali naquela região de mineração, e isso gera os desastres como a gente viu em Brumadinho e em outras cidades.”
Para o candidato do PCO, há ainda uma questão elementar de propriedade das riquezas naturais.
“O minério é uma riqueza do povo, uma riqueza da terra, do povo de Minas Gerais e do povo do Brasil. Então, a riqueza advinda da mineração tem que ficar na mão do povo, não na mão da iniciativa privada.”



