Mao Tsé-Tung

Há 50 anos, morria o libertador da China

Dirigente de enorme capacidade prática, Mao conduziu a Revolução Chinesa à vitória ao romper, sem proclamá-lo abertamente, com a tutela política da burocracia soviética

Em 9 de setembro de 1976, morria em Pequim Mao Tsé-Tung, aos 82 anos. Cinquenta anos depois, sua figura continua inseparável do acontecimento que modificou completamente o destino da China no século XX: a revolução de 1949.

Quando Mao nasceu, em 1893, a China era um país submetido à crescente dominação das grandes potências capitalistas. Quando morreu, estava à frente de um Estado que havia destruído o antigo regime e unificado o país.

Mao atravessou praticamente todas as etapas do processo chinês. Ele participou da geração revolucionária formada depois da queda do Império, esteve entre os fundadores do Partido Comunista Chinês, sobreviveu à derrota esmagadora da revolução de 1925-27, participou da formação do Exército Vermelho, dirigiu a luta guerrilheira, atravessou a Longa Marcha, combateu a ocupação japonesa e chegou à guerra civil que destruiu o regime de Chiang Kai-shek.

Da velha China à revolução

Antes da revolução liderada por Mao, a China carregava a contradição entre uma civilização milenar e um enorme atraso econômico e político diante dos países desenvolvidos. A partir do século XIX, esse atraso permitiu que as potências estrangeiras submetessem o país a uma sucessão de agressões.

As Guerras do Ópio abriram uma etapa de intervenção direta das potências europeias. Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, Japão e posteriormente os Estados Unidos disputavam mercados, portos, concessões comerciais e territórios. O Estado imperial chinês mostrou-se incapaz de impedir essa penetração. O país passou a sofrer aquilo que ficaria conhecido como o “século das humilhações”: derrotas militares, tratados impostos pelas potências, perda de territórios, ocupações estrangeiras e crescente controle econômico externo.

Essa situação colocou no centro da vida política chinesa duas tarefas fundamentais: a unificação nacional e a libertação do imperialismo. Foi dessas contradições que surgiram os grandes movimentos revolucionários modernos do país.

Em 1911, uma revolução derrubou a dinastia Qing e proclamou a República. Mao, então muito jovem, chegou a servir brevemente nas forças revolucionárias. A queda da monarquia, porém, não solucionou os problemas fundamentais.

A República não conseguiu unificar o território. Diversas províncias permaneceram sob o domínio de senhores da guerra. As potências estrangeiras conservaram seus privilégios. A burguesia nacional, débil e dependente, mostrou-se incapaz de conduzir até o fim a luta pela independência nacional.

Foi nesse ambiente que apareceu uma nova força social. O desenvolvimento capitalista, impulsionado inclusive pela penetração estrangeira, havia criado nos principais centros urbanos chineses uma classe operária jovem e concentrada. Xangai tornou-se o principal centro industrial do país. Cantão, Wuhan e outras cidades também reuniam contingentes crescentes de trabalhadores. Essa classe começaria a desempenhar um papel decisivo na crise chinesa.

O surgimento do Partido Comunista

Em 1918, Mao foi para Pequim. Ali trabalhou na biblioteca da Universidade de Pequim e entrou em contato com o ambiente intelectual e político que reunia alguns dos pioneiros do marxismo na China.

A Conferência de Versalhes, realizada depois da Primeira Guerra Mundial, decidiu entregar ao Japão direitos que anteriormente pertenciam à Alemanha sobre territórios chineses. A decisão provocou uma explosão de indignação.

As manifestações começaram entre estudantes de Pequim e rapidamente se espalharam pelo país, incorporando trabalhadores e outros setores populares. A luta contra a submissão da China às potências estrangeiras adquiria um conteúdo social cada vez mais profundo. Mao aproximou-se nesse processo do marxismo. Em 1921, participou como representante de Hunan do congresso de fundação do Partido Comunista Chinês.

O partido reunia naquele momento apenas algumas dezenas de militantes. Sua importância histórica, porém, estava na classe social e no programa que introduzia na luta política chinesa. A revolução nacional contra o imperialismo passava a contar com uma organização baseada na classe operária e vinculada ao movimento revolucionário internacional surgido com a Revolução Russa de 1917. O crescimento do Partido Comunista coincidiu com uma rápida expansão do movimento operário. Poucos anos depois, a China entrou numa situação abertamente revolucionária.

A revolução de 1925-27

A revolução de 1925-27 foi o acontecimento decisivo para todo o desenvolvimento posterior do movimento comunista chinês. Greves gigantescas, manifestações, organizações camponesas e mobilizações populares se espalharam pelo país. A classe operária assumiu um papel de primeiro plano.

Ao mesmo tempo, o Partido Comunista encontrava-se submetido a uma política de aliança com o Cuomintangue, o partido nacionalista fundado por Sun Yat-sen e posteriormente dirigido por Chiang Kai-shek. Essa aliança não se limitava a uma ação comum contra o imperialismo. Por orientação da Internacional Comunista, já submetida à crescente influência da burocracia soviética dirigida por José Stálin, os comunistas haviam ingressado individualmente no Cuomintangue e se submetido à sua disciplina.

A política partia da ideia de que a revolução chinesa deveria atravessar primeiro uma etapa nacional e democrática dirigida ou compartilhada com a burguesia nacional. À classe operária caberia apoiar o nacionalismo burguês na luta contra o imperialismo e somente em uma etapa posterior colocar de maneira independente a luta pelo poder.

A experiência chinesa mostrou violentamente o significado dessa política. À medida que a revolução avançava, os trabalhadores não se limitavam à luta contra a dominação estrangeira. As greves, as milícias operárias e a tomada de Xangai colocavam diretamente em questão a propriedade e o poder político. A burguesia chinesa, ameaçada pela mobilização das massas, passou para o campo da contrarrevolução.

Em abril de 1927, Chiang Kai-shek lançou suas forças contra os trabalhadores de Xangai. Milhares de operários e comunistas foram assassinados, presos ou perseguidos. A direção soviética, em vez de preparar o Partido Comunista para uma política independente, havia contribuído para desarmá-lo politicamente diante de um aliado que se transformava abertamente em seu carrasco. Depois de Xangai, a tentativa de apoiar-se na ala do Cuomintangue instalada em Wuhan terminou numa nova repressão contra os comunistas.

A derrota de 1927 foi, portanto, mais do que uma derrota militar. A classe operária chinesa havia entrado numa situação revolucionária, mas seu partido não possuía a independência política necessária para disputar o poder. A política stalinista de subordinação ao nacionalismo burguês levou o movimento revolucionário a uma catástrofe.

As consequências seriam profundas. O Partido Comunista, que havia crescido principalmente nos grandes centros urbanos, foi praticamente destruído nas cidades. Foi essa derrota — e não uma decisão prévia de substituir os trabalhadores pelos camponeses — que determinou em grande medida a forma particular assumida posteriormente pela Revolução Chinesa.

A retirada para o campo

Depois de 1927, a primeira questão colocada para o Partido Comunista era sobreviver. A derrota nas cidades havia destruído grande parte de sua organização e colocado seus militantes sob uma repressão feroz.

A reação da direção stalinista à catástrofe agravou inicialmente o desastre. Depois de ter subordinado os trabalhadores ao Cuomintangue durante a ascensão revolucionária, a Internacional Comunista passou a estimular levantes armados quando a revolução já havia sido derrotada. Insurreições foram lançadas em diferentes pontos do país sem que existisse uma situação revolucionária capaz de sustentá-las. Novas derrotas consumiram uma parte importante das forças restantes do partido.

Mao participou de uma dessas tentativas, o Levante da Colheita de Outono. Derrotado, retirou-se com um grupo de combatentes para a região montanhosa de Jinggangshan. A passagem ao campo não nasceu, portanto, de uma estratégia previamente elaborada segundo a qual a revolução chinesa deveria partir dos camponeses e cercar as cidades. Foi, antes de tudo, uma consequência da derrota da revolução urbana e da necessidade de escapar à repressão.

A situação chinesa permitiu, porém, que essa retirada se transformasse em uma nova forma de resistência. A China era um país esmagadoramente agrário, marcado por enormes conflitos em torno da terra e pela fraqueza do poder central em vastas regiões. As forças comunistas puderam estabelecer bases, organizar trabalhadores rurais e camponeses pobres, realizar medidas agrárias e construir progressivamente uma força militar.

No início dos anos 1930, os comunistas haviam estabelecido uma importante base revolucionária em Jiangxi. Chiang Kai-shek lançou sucessivas campanhas militares para destruí-la. Durante algum tempo, as forças comunistas conseguiram resistir. Finalmente, diante da superioridade material do inimigo e do cerco cada vez mais estreito, tornou-se impossível manter a base.

Em outubro de 1934 começou a Longa Marcha. O que posteriormente se tornaria um dos grandes símbolos da Revolução Chinesa começou como uma retirada imposta pela necessidade de sobrevivência. Dezenas de milhares de combatentes atravessaram milhares de quilômetros, enfrentando exércitos inimigos, rios, montanhas e regiões praticamente inacessíveis. A maior parte dos que partiram não chegou ao destino final.

A sobrevivência de uma parte do Exército Vermelho, porém, preservou o núcleo organizado do movimento revolucionário. Durante a Longa Marcha ocorreu também uma transformação decisiva na direção do partido. Mao consolidou progressivamente sua posição como principal dirigente, sobretudo por sua capacidade prática diante dos problemas da guerra, da organização e da sobrevivência do movimento.

Essa ascensão esteve ligada à crise das direções impostas sucessivamente ao Partido Comunista pela Internacional Comunista. A política de submissão ao Cuomintangue havia contribuído para a catástrofe de 1927. Depois da derrota, a política de levantes artificiais consumira novas forças. Mais tarde, orientações militares inadequadas também colocaram em perigo as bases revolucionárias.

Mao não elaborou uma crítica sistemática ao stalinismo semelhante àquela desenvolvida pela Oposição de Esquerda na União Soviética. Sua ruptura teve um caráter sobretudo prático. À medida que sua liderança se consolidava, recusou-se a permitir que a política do Partido Comunista Chinês continuasse sendo determinada diretamente pela burocracia soviética.

Nesse sentido, Mao rompeu com Stálin sem proclamar uma ruptura formal. O Partido Comunista Chinês deixou progressivamente de funcionar como uma organização controlada pela direção soviética e passou a decidir sua política segundo as condições concretas da luta na China.

Isso não significou uma superação de todas as concepções políticas herdadas do stalinismo. Ideias como a revolução por etapas e a colaboração com setores da burguesia permaneceriam presentes no programa do partido e reapareceriam posteriormente na fórmula da Nova Democracia. A trajetória do PCC passou, assim, a carregar uma contradição: tornou-se politicamente independente de Stálin sem romper teoricamente com diversos elementos fundamentais da política stalinista.

A invasão japonesa

A expansão japonesa colocou novamente no centro da política chinesa a questão da luta nacional contra o imperialismo. Em 1936, Chiang Kai-shek chegou a ser preso por comandantes nacionalistas que exigiam o fim da guerra contra os comunistas e a concentração das forças contra o Japão. A União Soviética interveio politicamente em favor de um acordo e Chiang Kai-shek foi libertado.

Pouco depois, com a invasão japonesa em grande escala, o Partido Comunista e o Cuomintangue estabeleceram uma nova frente contra o invasor. A política soviética voltava a favorecer uma aliança com Chiang Kai-shek em nome da luta nacional.

Havia, contudo, uma diferença decisiva em relação a 1927. O Partido Comunista não dissolveu sua organização nem entregou suas forças militares ao Cuomintangue. Os comunistas mantiveram seus exércitos, suas estruturas políticas e suas bases territoriais. A experiência do massacre de 1927 havia demonstrado concretamente o preço da perda da independência diante da burguesia nacional.

A frente contra o Japão possuía, portanto, um caráter contraditório. Comunistas e Cuomintangue combatiam um inimigo comum, mas a luta de classes entre eles não havia desaparecido. O Cuomintangue enfrentava o invasor estrangeiro ao mesmo tempo que procurava impedir o crescimento das forças revolucionárias que ameaçavam seu próprio poder.

O Cuomintangue representava setores da burguesia nacional chinesa e se via obrigado a enfrentar o imperialismo japonês, mas ao mesmo tempo temia profundamente o desenvolvimento do movimento revolucionário.

Os comunistas ampliaram sua influência durante a guerra. Nas áreas ocupadas, desenvolveram uma vasta rede de resistência guerrilheira, organizaram bases e mobilizaram milhões de camponeses.

Foi nesse período que Mao escreveu muitos de seus textos mais conhecidos sobre guerra, política e filosofia. Esses escritos refletiam uma experiência excepcional acumulada durante anos de derrota, retirada, reorganização e luta guerrilheira. Essa produção não era, no entantp, uma nova teoria universal da revolução. A principal qualidade de Mao estava em sua capacidade prática para compreender mudanças na situação, corrigir políticas que haviam fracassado e encontrar soluções para os problemas concretos colocados pela luta. Quando o Japão foi derrotado em 1945, essa experiência havia ajudado a transformar o Partido Comunista em uma força política e militar de alcance nacional.

A guerra civil

O final da Segunda Guerra Mundial colocou novamente frente a frente o Cuomintangue e os comunistas. A vantagem material de Chiang Kai-shek parecia esmagadora. Seu governo era reconhecido internacionalmente, controlava as principais cidades e possuía um exército de milhões de homens.

Os Estados Unidos deram amplo apoio ao regime. Tropas foram transportadas com auxílio norte-americano para ocupar regiões abandonadas pelos japoneses, grandes quantidades de armas foram fornecidas e o exército de Chiang Kai-shek recebeu treinamento e assistência. Os Estados Unidos procuravam reconstruir rapidamente a autoridade do Cuomintangue e impedir que a crise aberta pela derrota japonesa se transformasse numa revolução.

A política da burocracia soviética caminhava em sentido semelhante no terreno político. Stálin não apostava em uma tomada revolucionária do poder pelos comunistas chineses. Dentro dos acordos estabelecidos entre as grandes potências ao final da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética aceitava a predominância norte-americana na China e favorecia uma composição entre o Partido Comunista e Chiang Kai-shek.

A diferença fundamental em relação a 1927 era que Stalin já não possuía controle suficiente sobre o Partido Comunista Chinês para impor essa política até o fim. O PCCh participou de negociações, mas preservou suas forças militares e sua organização independente. Quando a guerra civil recomeçou em grande escala em 1946, a direção chinesa não subordinou o destino do movimento revolucionário à política de conciliação defendida por Stálin.

Inicialmente, os comunistas se encontravam na defensiva. A situação política interna, porém, evoluía rapidamente. O regime do Cuomintangue estava profundamente desgastado. A inflação destruía a economia. A corrupção atingia proporções gigantescas. O aparato estatal era odiado por parcelas crescentes da população. No campo, a questão agrária impulsionava milhões de camponeses contra os grandes proprietários.

Nas cidades, trabalhadores e estudantes voltavam a se mobilizar. A partir de 1947, o Exército Popular passou à ofensiva. O gigantesco aparato militar de Chiang começou a se decompor. Soldados desertavam, unidades inteiras se rendiam e enormes quantidades de armamento norte-americano eram capturadas pelos comunistas.

Em 1948, o país inteiro estava mergulhado numa situação revolucionária. A força militar organizada pelo Partido Comunista continuava concentrada principalmente no campo, consequência da trajetória iniciada depois do massacre de 1927. A revolução, porém, já não estava confinada às regiões rurais.

Nas grandes cidades, trabalhadores, estudantes e outros setores populares se mobilizavam contra um regime atingido pela corrupção, pela hiperinflação e por uma decomposição política cada vez mais profunda. O Exército Popular avançava na medida em que o próprio aparelho militar do Cuomintangue se desfazia. Soldados desertavam, unidades inteiras passavam para o outro lado e enormes quantidades de armamento fornecido pelos Estados Unidos eram capturadas pelas forças revolucionárias.

Ao mesmo tempo, existia uma contradição entre o desenvolvimento real da revolução e o programa que a direção do Partido Comunista apresentava. A fórmula da Nova Democracia conservava a concepção stalinista da revolução por etapas. O objetivo declarado não era imediatamente a expropriação da burguesia como classe, mas a derrubada do Cuomintangue, a expropriação dos grandes grupos diretamente associados ao regime e a formação de um governo que incluísse setores da burguesia considerados progressistas ou nacionais.

A revolução ultrapassou esse programa. Quando o Partido Comunista entrou nas grandes cidades, encontrou uma classe operária mobilizada que reconhecia nele a principal força capaz de destruir o velho regime. O partido realizou então um recrutamento gigantesco entre os trabalhadores, incorporando em pouco tempo milhões de operários às suas fileiras e ficando diretamente submetido à pressão social dessa classe.

Essa pressão empurrou a direção muito além dos limites originalmente previstos pela Nova Democracia. As expropriações alcançaram parcelas cada vez maiores da burguesia, a propriedade estatal tornou-se dominante nos setores fundamentais da economia e o regime que surgiu da revolução deixou de ser o governo burguês de coalizão inicialmente imaginado pelo programa etapista.

Em 1º de outubro de 1949, Mao apareceu no alto de Tiananmen para proclamar a República Popular da China. A revolução que começara com tarefas nacionais e democráticas — a unidade do país, a questão agrária e a libertação do imperialismo — não pôde resolvê-las sob a direção da burguesia. Sob a direção de um partido surgido da classe operária e sob a pressão da própria mobilização revolucionária, avançou contra a propriedade capitalista e estabeleceu um Estado operário.

A experiência chinesa confirmava, assim, por uma via extremamente contraditória, aquilo que a derrota de 1927 havia demonstrado negativamente: na época imperialista, a burguesia de um país atrasado era incapaz de conduzir até o fim sua própria revolução democrática. E a vitória de 1949 ocorreu não graças à política de Stálin, mas apesar dela.

Mao depois da vitória

A tomada do poder transformou completamente os problemas enfrentados pela direção revolucionária. Durante mais de vinte anos, o objetivo fundamental havia sido sobreviver, organizar forças e derrubar o antigo regime. Agora era necessário dirigir um país imenso, extremamente atrasado e devastado por décadas de guerra.

A reforma agrária atingiu profundamente a antiga estrutura rural. A indústria estatal foi ampliada e o país iniciou um processo acelerado de industrialização. Campanhas de alfabetização e saúde alcançaram regiões enormes do território. Na Guerra da Coreia, tropas chinesas enfrentaram diretamente as forças comandadas pelos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o enorme atraso econômico herdado pela revolução criava contradições profundas. A industrialização de um país com centenas de milhões de camponeses e forças produtivas extremamente limitadas colocava problemas gigantescos.

O Grande Salto Adiante, lançado em 1958, procurou acelerar radicalmente esse processo por meio de comunas e mobilizações de massas. O resultado foi uma enorme desorganização econômica e uma grave crise. As relações com a burocracia soviética também se deterioraram. A independência que o Partido Comunista Chinês havia adquirido durante o processo revolucionário transformou-se posteriormente numa ruptura aberta entre China e União Soviética.

Na década de 1960, as contradições internas do Estado criado pela revolução explodiram numa nova crise. A formação de uma extensa burocracia partidária e estatal produzia tendências conservadoras e conflitos cada vez maiores dentro do próprio regime.

Em 1966, Mao impulsionou a Revolução Cultural. Milhões de jovens, organizados principalmente nos Guardas Vermelhos, foram mobilizados contra setores da burocracia acusados de conduzir o país para a direita. A luta interna do aparato transformou-se numa mobilização de massas que rapidamente ultrapassou os limites de uma simples disputa administrativa.

Autoridades foram derrubadas, dirigentes partidários atacados e milhões de pessoas ingressaram diretamente na luta política. A crise revelava uma particularidade importante do regime chinês: ao contrário da estabilização burocrática alcançada na União Soviética sob Stálin, o Estado surgido da Revolução Chinesa permaneceu atravessado por grandes conflitos políticos e sociais.

A posição de Mao expressava de maneira particularmente aguda essa contradição. Ele próprio estava no topo do Estado e fazia parte de sua burocracia, mas recorreu à mobilização da juventude contra setores desse mesmo aparato. À medida que o movimento ganhou autonomia e se deslocou cada vez mais para a esquerda, Mao e a direção passaram também a agir para contê-lo e restabelecer a estabilidade.

A Revolução Cultural mostrou tanto a capacidade de Mao de reagir aos conflitos reais que surgiam dentro do regime quanto os limites de sua orientação essencialmente empírica. Ele identificava tendências conservadoras e mobilizava forças sociais contra elas, mas não apresentava um programa capaz de resolver de maneira duradoura o problema da burocratização do Estado operário.

Mao morreu em 9 de setembro de 1976. Sua morte abriu imediatamente uma disputa pelo destino do regime. A Revolução Cultural já estava esgotada e nenhuma solução duradoura havia sido encontrada para a luta contra as tendências conservadoras da burocracia. Poucas semanas depois, a chamada Gangue dos Quatro, identificada com a ala esquerda surgida da Revolução Cultural, foi presa. A correlação de forças dentro do Partido Comunista começou a se deslocar rapidamente para a direita.

Depois de um período de transição sob Hua Guofeng, Deng Xiaoping tornou-se progressivamente o principal dirigente do país. A partir de 1978, sua ala colocou em marcha uma política de abertura ao mercado. Nas décadas seguintes, ampliaram-se a propriedade privada, o investimento estrangeiro e os mecanismos capitalistas dentro da economia chinesa. Começava um processo de restauração capitalista.

Esse processo, porém, não reproduziu simplesmente aquilo que ocorreria posteriormente na União Soviética. A abertura chinesa avançou de maneira gradual e encontrou forte resistência social. A crise de 1989, que envolveu não apenas estudantes mas também mobilizações e greves operárias, mostrou os limites que a própria população impunha ao avanço de uma transformação neoliberal. O Estado manteve um grau extraordinariamente elevado de controle sobre a economia e sobre o próprio capital privado.

A China que emergiu desse processo já não era o Estado operário criado pela revolução de 1949, mas tampouco se transformou numa simples semicolônia aberta à pilhagem do capital estrangeiro. A herança da revolução — a unidade nacional, a destruição das velhas classes dominantes, a criação de uma poderosa estrutura estatal e as conquistas arrancadas pela classe operária e pelas massas — continuou pesando sobre o desenvolvimento posterior do país.

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