Uma reportagem publicada nesta terça-feira (8) pelo jornal israelense Haaretz revela que, pouco antes da Operação Dilúvio de al-Aqsa, o Hamas tentou pressionar “Israel” a concluir um acordo que vinha sendo negociado havia meses. Benjamin Netanyahu retardou repetidamente a decisão e recebeu avisos de que Yahia Sinwar preparava uma grande operação caso os israelenses continuassem a protelar.
Uma semana e meia antes de 7 de outubro de 2023, o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed, telefonou para Netanyahu. A conversa durou 45 minutos.
Um assessor do governante emiradense, que acompanhou a ligação, afirmou:
“O emir explicou que, em sua avaliação, Sinwar estava preparando um grande acontecimento. Ele disse a Netanyahu que Israel deveria estar preparado. Ao mesmo tempo, recomendou tentar encontrar uma solução econômica para Gaza e acalmar a Cisjordânia para evitar uma escalada.”
Bin Zayed insistiu na gravidade do aviso. Netanyahu respondeu que acreditava que o Hamas preparava uma ação na Cisjordânia e afirmou que “Israel” estava pronto para qualquer situação.
Mais tarde, o presidente dos Emirados relatou a conversa ao então diretor da CIA, William Burns. Disse que tentara fazer Netanyahu compreender que “algo ali está prestes a explodir”.
O assessor relatou:
“O emir esperava que, apesar de sua resposta reservada, Netanyahu levasse a mensagem a sério e tomasse providências.”
E completou:
“Nenhum de nós imaginava que o primeiro-ministro ouviria o aviso e não o transmitiria aos chefes do aparato de defesa.”
A advertência tinha uma origem concreta. Desde o início de 2023, com conhecimento e autorização de Netanyahu, o Hamas mantinha negociações indiretas com representantes israelenses para uma trégua temporária e um entendimento mais amplo sobre Gaza.
O canal ligava Ghazi Hamad, dirigente do Hamas, a Adi Rotem, funcionário do Shin Bet responsável pela questão dos prisioneiros e desaparecidos. Um dirigente do Fatah, aceito pelas duas partes, servia como intermediário.
As conversas tratavam da redução gradual do bloqueio imposto à Faixa de Gaza, da ampliação da entrada de alimentos e matérias-primas e da criação de zonas comerciais próximas às fronteiras com “Israel” e Egito. Também estavam em discussão medidas que facilitariam a circulação dos moradores de Gaza e o fornecimento de gás natural à Faixa.
No fim de agosto, as questões econômicas estavam praticamente acertadas. O principal ponto restante era a troca de israelenses mantidos pelo Hamas por palestinos presos por “Israel”.
A resistência palestina começou exigindo a libertação de 500 presos. Durante as negociações, o número caiu para 250 e depois para 50. O Shin Bet estava disposto a libertar 30 palestinos, dos quais 20 cumpriam prisão perpétua.
Uma fonte israelense envolvida nas conversas afirmou que Netanyahu havia aprovado a libertação desses 30 presos. Para executar o acordo, ainda era necessária a aprovação formal do comitê ministerial responsável.
Netanyahu não convocou o comitê.
A decisão foi sendo adiada de uma semana para outra. Aos responsáveis israelenses pelo canal, o primeiro-ministro alegava receio de que a negociação chegasse à imprensa. Um acordo com o Hamas poderia também provocar uma crise dentro de sua coalizão.
Uma das fontes resumiu:
“E assim ficou travado semana após semana.”
A demora não começou em 2023. Anos antes, integrantes do Exército e dos serviços de segurança já haviam concluído que havia condições favoráveis para uma troca de prisioneiros. Netanyahu terminou uma reunião prometendo decidir sobre o assunto, mas não aprovou o acordo.
Em setembro de 2023, Sinwar rompeu o contato com a equipe encarregada das negociações.
O dirigente do Hamas chamou então o intermediário do Fatah e mandou um recado aos israelenses: se não houvesse avanço, preparava uma grande surpresa.
Usou a palavra árabe zilzal, terremoto.
Os intermediários procuraram Sinwar novamente para confirmar a gravidade da mensagem. Ele respondeu:
“Transmita uma mensagem de que estou preparando a mãe de todas as surpresas. Uma operação aterrorizante. Algo extraordinário. Por favor, transmita aos israelenses exatamente o que estou dizendo, palavra por palavra.”
A ameaça foi feita depois de meses de negociações e quando o acordo dependia essencialmente de decisões do governo israelense. Sinwar não escondia dos intermediários que pretendia utilizar uma operação militar para pressionar “Israel” a sair da paralisia.
Em 15 de setembro, a informação chegou ao Shin Bet.
O diretor da agência, Ronen Bar, pediu imediatamente uma ligação com Netanyahu. O contato foi organizado pelo secretário militar do primeiro-ministro, Avi Gil. Bar transmitiu diretamente a ameaça do “terremoto”.
Dois dias depois, representantes dos principais órgãos israelenses de segurança reuniram-se para discutir o caso. Ronen Bar advertiu que a mensagem não deveria ser desprezada e declarou que “estamos em rota de colisão”.
O acordo continuou sem avançar.
Diante da falta de reação, bin Zayed resolveu procurar Netanyahu pessoalmente. Foi então que ocorreu a conversa de 45 minutos no fim de setembro.
O presidente dos Emirados não foi o único dirigente estrangeiro a alertar Netanyahu.
O general Abbas Kamel, chefe da inteligência egípcia, também telefonou para o primeiro-ministro e advertiu sobre “algo incomum, uma operação aterrorizante” que seria realizada pelo Hamas.
Netanyahu voltou a dizer que Gaza estava sob controle e que sua principal preocupação era a Cisjordânia.
Em 1º de outubro, seis dias antes do Dilúvio de al-Aqsa, Netanyahu participou de outra reunião sobre o Hamas. Não informou aos presentes sobre as advertências recebidas de bin Zayed e Abbas Kamel.
Um alto funcionário do Shin Bet admitiu:
“Se tivéssemos sabido dos alertas, há uma possibilidade de que isso tivesse dado mais peso à primeira mensagem que recebemos de Sinwar.”
A informação também poderia ter levado os serviços israelenses a interpretar de outra maneira a súbita interrupção das negociações por Sinwar no início de setembro.
Em 7 de outubro, teve início a Operação Dilúvio de al-Aqsa.
A operação da resistência palestina ocorreu depois de décadas de ocupação, expulsões, prisões, colonização dos territórios palestinos e do bloqueio imposto a Gaza. A reportagem acrescenta agora um elemento imediato aos acontecimentos: nos meses anteriores, o Hamas procurou chegar a um entendimento, as negociações avançaram e Netanyahu impediu que o acordo fosse concluído mesmo depois de receber ameaças explícitas de uma reação militar.
A disposição para negociar reapareceu nas primeiras horas depois de 7 de outubro.
Naquela noite, o primeiro-ministro do Catar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, telefonou para o diretor do Mossad, David Barnea. Disse que havia entrado em contato com dirigentes do Hamas e que o movimento estava disposto a libertar civis capturados.
O Catar ofereceu-se para mediar.
Barnea respondeu:
“Se eles querem libertar os civis, que libertem. Não estamos preparados para falar com o Hamas.”
Outro canal chegou a uma proposta semelhante. Rawhi Mushtaha, dirigente próximo a Sinwar, procurou pessoas ligadas a Mohammed Dahlan.
Samir Mashharawi relatou a resposta recebida:
“Juro que foram exatamente essas palavras: todos os civis, sem nada em troca. Havia apenas uma condição: que conseguíssemos trazer rapidamente um mediador aceito por ambas as partes.”
Na classificação empregada por Sinwar naquele momento, eram considerados civis os menores de 18 anos e os maiores de 50. Depois dessa libertação, começariam as conversas sobre os soldados e oficiais capturados, os presos palestinos e o bloqueio de Gaza.
Um alto funcionário da defesa israelense reconheceu que parte dessas propostas chegou ao Mossad, ao Shin Bet e ao gabinete do primeiro-ministro.
“Para ser sincero, a questão dos reféns não estava seriamente na pauta naquela fase, e ninguém, nos níveis militar ou político, estava aberto a discutir a proposta. A libertação dos reféns sequer constava da lista de objetivos de guerra formulada pelo governo na noite de 7 de outubro.”
O Catar insistiu durante os dias seguintes e procurou também o governo norte-americano. Antony Blinken pediu que os catarianos aguardassem sua viagem a “Israel”. Quando conversou com Netanyahu, não conseguiu uma posição definida.
Enquanto isso, “Israel” aumentava os bombardeios sobre Gaza. Com o crescimento das mortes entre os palestinos, as condições para um acordo mudaram e o Hamas elevou suas exigências.
Um alto funcionário do Shin Bet afirmou posteriormente:
“Deveríamos ter parado. Deveríamos ter engolido o orgulho, suportado o golpe político e libertado todos os prisioneiros exigidos pelo Hamas. Depois teríamos encontrado a primeira oportunidade para retomar a guerra.”
Doron Hadar, coronel da reserva que comandou durante anos a unidade de negociações do Estado-Maior israelense, também considerava possível fechar rapidamente um entendimento.
“Poderíamos ter fechado um entendimento e, se quiséssemos depois, não seria difícil alegar que o Hamas o violou e voltar a atacar.”
Hadar levou a proposta ao gabinete de Ophir Falk, assessor de política externa de Netanyahu.
“Vamos avançar num acordo. Ofereceremos mil prisioneiros. Dois mil, se necessário. O mundo está do nosso lado neste momento. Vamos usar essa pressão internacional e fechar um acordo.”
Falk respondeu:
“Não haverá acordo.”
O ex-diretor da CIA William Burns resumiu posteriormente a divergência que continuaria bloqueando as negociações:
“O problema fundamental era que o Hamas buscava um ‘fim permanente do conflito’, como eles o definiam.”
Netanyahu, afirmou Burns, aceitava discutir apenas um acordo de “primeira fase” e insistia em manter a possibilidade de “continuar destruindo o Hamas depois”.
A mesma incompatibilidade já aparecia antes de 7 de outubro. Para o Hamas, o acordo deveria produzir mudanças duradouras na situação de Gaza, incluindo o bloqueio e os prisioneiros palestinos. Para Netanyahu, qualquer entendimento deveria conservar a possibilidade de retomar a ofensiva contra o movimento palestino.
O gabinete do primeiro-ministro israelense classificou a investigação como uma “mentira absoluta”. Negou a existência da conversa entre Netanyahu e bin Zayed naquele período e afirmou que o primeiro-ministro não recebeu a advertência descrita pelo Haaretz. Ronen Bar, ex-diretor do Shin Bet, e Herzl Halevi, ex-chefe do Estado-Maior, confirmaram ao jornal que não foram informados do alerta atribuído ao presidente dos Emirados.





