O governo de Keiko Fujimori anunciou, nesta terça-feira (2), o rompimento das relações diplomáticas do Peru com o Irã. A medida foi acompanhada por acusações contra Teerã que reproduzem a campanha política dos Estados Unidos contra o país persa.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores peruano, o Irã seria responsável por “incitar a violência” e contribuir para o agravamento da guerra no Oriente Médio. A chancelaria também acusou o governo iraniano de dificultar o trabalho da Agência Internacional de Energia Atômica e prejudicar o comércio pelo estreito de Ormuz.
A acusação coloca os fatos de cabeça para baixo. O Irã vem sendo bombardeado há meses pelos Estados Unidos e por “Israel”. São os norte-americanos, uma potência de fora do Oriente Médio, que atravessaram o planeta para atacar um país da região.
Não há como atribuir ao Irã a responsabilidade fundamental por uma guerra desencadeada contra seu próprio território. Teerã reage a uma ofensiva estrangeira. Washington e Telavive são os agressores.
O mais revelador é que o Peru sequer possui participação direta no conflito. Não existe qualquer disputa entre Lima e Teerã capaz de explicar uma medida diplomática desse porte. O governo Fujimori está tomando partido em uma guerra distante dos interesses do povo peruano simplesmente para acompanhar a política dos Estados Unidos.
A composição do próprio governo ajuda a explicar a decisão.
O ministro das Relações Exteriores, Carlos Espá, trabalhou durante 15 anos na Embaixada dos Estados Unidos no Peru. Entre 2008 e 2023, foi diretor de Comunicações da área de Imprensa, Educação e Cultura da representação norte-americana.
Ou seja, o responsável por conduzir atualmente a política externa peruana passou uma década e meia trabalhando literalmente para a embaixada dos Estados Unidos.
Fujimori o colocou à frente da chancelaria e, poucas semanas depois da posse, seu governo rompe relações com um dos principais inimigos de Washington.
Não é difícil perceber a orientação política dessa escolha. Espá chegou ao Ministério das Relações Exteriores com um longo currículo de serviços prestados à representação norte-americana e agora dirige uma política de aproximação acelerada com os Estados Unidos.
Desde a posse de Fujimori, Lima vem aprofundando seus vínculos políticos e militares com Washington. O novo governo declarou os Estados Unidos um parceiro estratégico e anunciou a intenção de ampliar a cooperação nas áreas de segurança, comércio e investimentos.
Representantes do governo Trump acompanharam a posse de Fujimori e rapidamente abriram negociações com a nova administração. Pouco depois, Espá viajou aos Estados Unidos para reuniões com representantes do Departamento de Estado e do Comando Sul.
A ruptura com o Irã é mais um passo dessa política de submissão.
O governo peruano não rompeu com Teerã porque o Irã tenha atacado o Peru ou ameaçado algum interesse fundamental do país. Rompeu porque Teerã está em guerra com Washington.
É uma política externa de país subordinado.
O caráter servil do governo Fujimori torna-se ainda mais grave diante das circunstâncias em que chegou ao poder. A eleição presidencial peruana foi decidida por uma diferença minúscula e cercada por denúncias de fraude e irregularidades.
Na segunda volta, Fujimori enfrentou Roberto Sánchez e terminou a apuração com uma vantagem de apenas 49.641 votos em mais de 18 milhões de votos válidos. Em determinado momento, enquanto centenas de atas permaneciam sob contestação, a diferença entre os candidatos chegou a pouco mais de mil votos.
Sánchez denunciou uma fraude em andamento, contestou o processo de apuração e exigiu uma revisão dos resultados, especialmente da votação realizada no exterior.
Também houve ocorrências registradas oficialmente durante a votação. A Promotoria peruana informou sobre 116 casos de possível caráter penal no segundo turno, incluindo dezenas de ocorrências relacionadas às atas eleitorais. Houve ainda denúncias de substituição de identidade, destruição de material eleitoral e apreensão de material sob suspeita de adulteração, além de dezenas de detenções.
As autoridades eleitorais acabaram proclamando Fujimori vencedora e rejeitaram as denúncias de fraude. Isso, contudo, não elimina o fato de que seu governo nasceu de uma eleição marcada por uma diferença reduzidíssima, graves acusações e inúmeras ocorrências.
É esse regime de legitimidade profundamente contestada que agora se apresenta como um dos governos latino-americanos mais obedientes a Washington.
A política norte-americana para o continente exige cada vez mais do que governos simplesmente amistosos. Os Estados Unidos pressionam os países latino-americanos para que adotem sua política econômica, militar e diplomática, inclusive em assuntos que não possuem relação alguma com os interesses desses países.
O caso iraniano é exemplar. O Peru está sendo arrastado para uma política de isolamento contra um país situado do outro lado do mundo, com o qual não possui conflito, porque Washington decidiu transformá-lo em inimigo.
A mesma pressão ocorre contra Cuba. Os Estados Unidos procuram obrigar terceiros países a participar de seu bloqueio, ameaçando empresas, bancos e governos que mantenham determinadas relações econômicas com a ilha.
É o método tradicional do imperialismo: não basta atacar diretamente determinado país; é preciso obrigar seus aliados e dependentes a participar do cerco.
Governos de extrema direita como o de Fujimori se oferecem abertamente para cumprir esse papel. Mas a pressão também será exercida sobre a direita tradicional e sobre governos que se apresentam como de esquerda. Washington quer disciplinar toda a América Latina segundo suas necessidades internacionais.
No Peru, encontrou um governo disposto a obedecer rapidamente. Um chanceler que trabalhou 15 anos para a Embaixada dos Estados Unidos agora conduz a aproximação com Washington e rompe relações com o Irã justamente quando os norte-americanos intensificam sua agressão contra o país persa.


