Arma do imperialismo

Glória Steinem: como a CIA fabricou o feminismo identitário

Antes de virar símbolo feminista, Steinem dirigiu uma organização financiada pela CIA para combater a influência da esquerda entre a juventude

Antes de se tornar uma das principais dirigentes do feminismo norte-americano, Gloria Steinem trabalhou conscientemente numa operação financiada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

Ela faleceu na última quarta-feira (02), aos 92 anos, em Nova Iorque.

Em 1959, ela assumiu a direção do Independent Research Service, organização usada para levar jovens norte-americanos ao Festival Mundial da Juventude, em Viena. A operação seria repetida três anos depois, em Helsinque.

A entidade se apresentava como independente. Não era.

O Independent Research Service havia sido criado pela CIA para intervir nos festivais, então marcados por forte presença de organizações de esquerda e de jovens ligados ao bloco soviético. Steinem sabia quem financiava o trabalho.

Uma reconstrução publicada pelo The New Yorker em 2015, baseada na pesquisa da historiadora Karen Paget sobre as operações clandestinas da CIA no movimento estudantil, registra que Steinem conhecia perfeitamente a origem do dinheiro. Anos depois, ao falar sobre o episódio, afirmou que faria novamente a mesma escolha.

A colaboração não foi, portanto, uma armadilha descoberta posteriormente. Steinem sabia com quem estava trabalhando.

Uma colaboradora consciente

Outro documento reforça esse aspecto da biografia da futura dirigente feminista.

Trata-se da matéria Ms. Steinem’s CIA Connection, de John D. Lofton Jr., publicada pelo conservador Human Events em maio de 1975 e posteriormente preservada no arquivo desclassificado da CIA. Não é um relatório escrito pela agência, mas um recorte de imprensa guardado em seus arquivos.

O texto recupera declarações dadas por Steinem depois que a ligação entre a CIA e organizações estudantis veio a público.

Ela reconheceu ter trabalhado com agentes da agência na organização das delegações norte-americanas aos festivais de Viena e Helsinque e chegou a elogiar seus interlocutores.

Segundo o artigo, Steinem descreveu os agentes com quem trabalhou como pessoas “liberais” e abertas à discussão. Também afirmou que a CIA havia demonstrado mais visão do que outras instituições norte-americanas ao perceber a importância política da juventude e dos estudantes.

A futura dirigente feminista não procurou apresentar a colaboração como um erro cometido por desconhecimento.

Ela conhecia a operação e a defendeu depois que ela foi revelada.

Esse dado é fundamental para compreender sua trajetória posterior.

A esquerda que interessava à CIA

A operação mostra também que a CIA não combatia a esquerda apenas promovendo conservadores declarados.

Para disputar estudantes, intelectuais, artistas e movimentos sociais, precisava penetrar ambientes em que um agente identificado abertamente com a direita teria pouca influência.

Por isso, utilizava liberais, progressistas e até setores que adotavam determinadas posições socialistas, desde que não ameaçassem os interesses fundamentais do imperialismo.

A investigação retomada pelo The New Yorker mostra que a CIA infiltrou a National Student Association, financiou organizações por meio de fundações de fachada e procurou influenciar a escolha de dirigentes considerados politicamente adequados.

O objetivo era impedir que a radicalização de setores da juventude fosse canalizada para uma política revolucionária.

Steinem encaixava-se perfeitamente nesse trabalho.

Era jovem, liberal, possuía credenciais progressistas e podia atuar em meios aos quais um representante oficial do governo norte-americano dificilmente teria acesso.

Em vez de enfrentar determinados movimentos frontalmente, a CIA procurava influenciá-los por dentro.

De Viena ao movimento das mulheres

Anos depois dessas operações, Steinem tornou-se uma das figuras mais conhecidas do movimento de mulheres nos Estados Unidos.

Ganhou projeção como jornalista, participou da criação do National Women’s Political Caucus e tornou-se uma das fundadoras da revista Ms., que teria grande influência sobre o feminismo liberal norte-americano.

A mulher que se tornaria uma das principais dirigentes feministas dos Estados Unidos havia sido formada politicamente numa operação em que a CIA procurava disputar movimentos progressistas contra o comunismo através de organizações aparentemente independentes.

E considerava correta essa política.

A orientação que Steinem representaria posteriormente dentro do feminismo correspondia perfeitamente a esse meio: liberal, anticomunista e inteiramente compatível com as instituições do imperialismo norte-americano.

Tirar as mulheres da luta de classes

A luta das mulheres é muito anterior a Gloria Steinem e à própria existência da CIA.

Mulheres estiveram nas grandes greves, nos movimentos operários, nos partidos socialistas e nas revoluções muito antes da ascensão do feminismo liberal norte-americano.

O problema foi a progressiva separação entre a luta das mulheres e a luta de classes.

No lugar da trabalhadora organizada ao lado de toda a sua classe, ganhou força a ideia de que as mulheres formariam um agrupamento político acima das diferenças entre exploradores e explorados.

A operária e a proprietária da fábrica seriam colocadas sempre no mesmo campo simplesmente por serem mulheres.

A funcionária de um banco e a banqueira que vive de sua exploração apareceriam como integrantes de uma mesma causa. Claro, a causa dos banqueiros.

Essa concepção é extremamente conveniente para os capitalistas.

Ela permite apresentar a ascensão de algumas mulheres aos altos postos da sociedade burguesa como se fosse emancipação do conjunto das mulheres.

Uma mulher pode dirigir um banco, uma multinacional ou um governo imperialista sem modificar em nada a situação das milhões de trabalhadoras exploradas por essas mesmas instituições.

A questão deixa de ser quem possui o capital e quem trabalha para ele. Passa a ser quantas mulheres ocupam os postos superiores do próprio sistema.

Foi sobre esse terreno que se desenvolveu posteriormente o feminismo identitário.

Um método de intervenção

A história de Steinem também ajuda a desfazer uma ideia ingênua sobre a atuação política da CIA.

O aparelho imperialista não precisava controlar cada frase de uma organização ou entregar pessoalmente ordens a cada dirigente.

Era muito mais eficiente financiar instituições, selecionar pessoas politicamente confiáveis, promover determinados setores e criar uma camada de dirigentes cuja própria visão de mundo fosse compatível com os interesses do regime.

As revelações sobre o movimento estudantil mostram uma vasta rede de organizações financiadas através de fundações e entidades intermediárias.

O dinheiro aparecia como privado.

A organização aparecia como independente.

A política, entretanto, servia aos Estados Unidos.

O caso de Steinem é particularmente revelador porque ela própria reconheceu conhecer a origem dos recursos e jamais rompeu politicamente com a operação.

As sucessoras de Steinem

A ligação direta entre Steinem e a CIA pertence à Guerra Fria, mas o problema político que ela representa permanece.

Não é preciso supor que cada organização feminista atual esteja sendo dirigida por um agente pago diretamente pela CIA.

Hoje, uma enorme estrutura de fundações empresariais, grandes organizações não governamentais, universidades, empresas, meios de comunicação e instituições estatais financia e promove dirigentes de movimentos sociais.

O movimento das mulheres continua carregando suas Glórias Steinem.

São dirigentes profissionalizadas, integradas às instituições da burguesia, que aparecem como representantes de milhões de mulheres sem que as trabalhadoras tenham qualquer controle efetivo sobre essas organizações.

O resultado aparece nas próprias reivindicações.

Salário, emprego, jornada, creches, condições de trabalho e organização operária praticamente não existem na pauta dessas organizações.

Em seu lugar surge uma política cada vez mais distante da experiência concreta das mulheres trabalhadoras e baseada na fragmentação dos explorados em inúmeras categorias, sobretudo fazendo uso do aparato repressivo do Estado para atacar o conjunto da população.

A burguesia não poderia pedir coisa melhor.

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