Em 18 de agosto de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a Revisão Tarifária Periódica (RTP) da Celesc Distribuição S.A., estabelecendo um impacto médio de 10,82% nas faturas de energia, com vigência a partir de 22 de agosto de 2026. Este evento ocorre em um momento de excepcional solidez financeira para a principal empresa catarinense, que vem registrando lucros líquidos recordes e mantendo uma política agressiva de remuneração aos acionistas.
A RTP aprovada pela ANEEL reflete o reequilíbrio econômico-financeiro da Celesc. O efeito médio de 10,82% é decomposto em variações de 14,16% para consumidores atendidos em Alta Tensão (grandes indústrias, comércios de grande porte e prédios comerciais, que possuem transformador próprio) e 9,26% para aqueles em Baixa Tensão (residências, pequenos comércios, iluminação pública, poder público e serviços). A estrutura do reajuste evidencia que a maior parte do incremento decorre de custos não gerenciáveis e componentes financeiros, conforme detalhado abaixo:
| Componente do Reajuste | Impacto (%) |
|---|---|
| Parcela A (Encargos, Transmissão e Compra de Energia) | 2,19% |
| Parcela B (Custos Gerenciáveis da Distribuidora) | 1,61% |
| Reajuste Econômico (RT) | 3,80% |
| Componentes Financeiros (Processo Atual) | 8,43% |
| Retirada de Componentes Anteriores | -1,40% |
| Efeito Médio Total | 10,83% |
Vale observar que a Parcela B, que efetivamente remunera a Celesc pelos seus investimentos e custeia a operação, a manutenção e as despesas de pessoal, teve uma participação de apenas 1,61% no índice total da revisão. Atualmente, a Parcela B representa 16,2% da receita anual da Celesc. O argumento central derivado desta composição é que o reajuste tarifário assegura a recomposição das receitas frente aos custos inflacionários e operacionais, garantindo que a empresa possua lastro financeiro para suportar sua estrutura de custos, incluindo a folha de pagamento, sem comprometer a rentabilidade líquida.
O desempenho financeiro da Celesc em 2025 e no primeiro semestre de 2026 consolida uma trajetória de crescimento robusto. Em 2025, o lucro líquido atingiu R$ 729,5 milhões, com um EBITDA de R$ 1,8 bilhão. Os dados de 2026 são ainda mais contundentes: o lucro líquido consolidado do primeiro semestre somou R$ 546,8 milhões, um salto de 36,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. A inadimplência recuou de 2,55% para 1,95%, e a relação Dívida Líquida/EBITDA ficou em 2,82, patamar confortável. A empresa manteve seu plano de expansão, investindo R$ 742,2 milhões no primeiro semestre de 2026, um incremento de 12,1% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram que a companhia goza de uma saúde financeira que permite não apenas o investimento em ativos, que é fundamental, mas também uma política de pessoal mais arrojada.
Ao analisar a estrutura de custos operacionais, observa-se que o fator “Pessoal” ocupa uma posição secundária em termos de impacto financeiro total, embora seja o principal motor da produtividade. Em 2025, as despesas totais com pessoal na Celesc Distribuição somaram R$ 981,3 milhões. No âmbito consolidado, este valor foi de R$ 1.029,4 milhões.
| Composição do Custo Operacional (Consolidado 2025) | Valor (R$ milhões) | Participação (%) |
|---|---|---|
| Compra de Energia Elétrica | 7.679,6 | 72,9% |
| Pessoal e Administradores | 1.029,4 | 9,8% |
| Custo de Construção | 1.162,8 | 11,0% |
| Material, Serviços e Outros (MSO) | 544,6 | 5,1% |
| Provisões e Outros | 120,0 | 1,2% |
| Total de Custos e Despesas Operacionais | 10.536,4 | 100,0% |
O custo de pessoal representa aproximadamente 9,8% do custo operacional total consolidado. O fato de o custo de pessoal ser uma parcela pequena e gerenciável reforça a tese de que a concessão de ganho real aos trabalhadores possui impacto marginal na estrutura tarifária e na lucratividade final da empresa.
A Demonstração do Valor Adicionado (DVA) é o instrumento contábil que melhor expressa a riqueza gerada pela companhia e como ela é distribuída entre os agentes econômicos. Em 2025, a Celesc gerou um valor adicionado total de R$ 9,11 bilhões. A análise histórica recente da distribuição deste valor revela uma tendência de redução da participação dos trabalhadores, que, entre 2023 e 2025, chegou a -1,5 ponto percentual (pp).
| Destinação do Valor Adicionado (%) | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|
| Pessoal (Trabalhadores) | 11,78% | 11,23% | 10,26% |
| Impostos (Governo) | 70,11% | 71,26% | 69,94% |
| Remuneração de Capitais de Terceiros | 11,87% | 9,67% | 13,07% |
| Remuneração de Capitais Próprios (Acionistas) | 6,24% | 7,84% | 6,73% |
Enquanto a parcela destinada aos trabalhadores caiu entre 2023 e 2025, as remunerações de capitais próprios e de terceiros, somadas, cresceram 1,6 pp e já superam a remuneração do trabalho. Em 2025, a empresa destinou R$ 296 milhões apenas em Juros sobre Capital Próprio aos acionistas, valor que se projeta em R$ 235,4 milhões para o exercício de 2026 até o momento.
Segundo a ANEEL, a Celesc apresenta alguns indicadores de produtividade que a colocam na liderança setorial. Esse desempenho, porém, tem sido obtido às custas do sacrifício dos trabalhadores, que se queixam de sobrecarga, jornadas esticadas e acúmulo de funções. Essas informações, ao que tudo indica, guardam relação com a tendência de redução da participação dos trabalhadores no Valor Adicionado, apontada acima, que, como vimos, chegou a 1,5 pp entre 2023 e 2025. Melhorar a qualidade do serviço às custas da diminuição do custo de pessoal tem limites. A eficiência tem que ser melhorada com gestão, tecnologia e concomitante melhoria das condições de trabalho.
Há vários indicadores que apontam ganho de produtividade:
- Megawatt-hora (MWh) distribuído por consumidor: a Celesc é líder absoluta do setor em toda a série 2016–2025 e, no benchmarking de 2025 das 14 maiores distribuidoras, ficou em 8ª posição geral (287 pontos), com destaque ainda para o menor nível de provisões para contingências.
- Perdas Totais: recuaram de 7,23% para 6,62%, o melhor resultado do triênio e abaixo do nível regulatório. As perdas não técnicas caíram de 1,67% para 1,15% — esse é um tremendo ganho isolado: cada ponto percentual recuperado é energia vendida sem custo de compra.
- DEC e FEC: melhoraram para 8,38 h e 5,30 interrupções, com folga crescente sobre os limites da ANEEL (~9,2 h e ~7,1). O FEC caiu 7,5% apenas em 2025.
- Inadimplência: recuou de 2,55% para 1,95%, o que representa menos provisão e mais caixa para a operação.
Os indicadores acima dependem diretamente do engajamento e da dedicação dos empregados da Celesc.
- Receita líquida: cresceu 11,6% em 2025, acima das despesas com pessoal (+9,5%) — ou seja, a receita por real de folha melhorou.
- Pessoal: representa apenas 9,8% do custo total (contra 72,9% da compra de energia): a folha é um componente pequeno e gerenciável.
- EBITDA: o EBITDA da Celesc D cresceu 16,8% (R$ 1.647,7 milhões) e o consolidado, 14,6% (R$ 1.796,7 milhões). Em 2026, a trajetória de lucro se mantém, conforme indicam os dados do primeiro semestre.
Esses indiscutíveis ganhos de produtividade e qualidade são obtidos, muitas vezes, às custas da terceirização e da deterioração das condições de trabalho. Mas, se a empresa lucra mais e é mais eficiente porque os trabalhadores produzem mais, é justo que parte desse ganho retorne em salário, e não apenas aos acionistas (via JCP e dividendos). Enquanto a produtividade cresce e a Celesc lidera o setor em vários quesitos, a participação do trabalho na riqueza gerada caiu. Isso significa que os trabalhadores estão produzindo mais e recebendo proporcionalmente menos.
O reajuste pelo INPC + 2% de ganho real, que deve totalizar algo em torno de 6,2%, é perfeitamente compatível com o aumento de produtividade verificado na companhia. Com o reajuste tarifário autorizado (10,82%), a empresa teve sua receita reajustada acima da inflação. O pedido dos trabalhadores é inferior a isso, portanto, é viável e bastante razoável, considerando o conjunto de indicadores da empresa. Para a Celesc, que opera com margens superiores e endividamento inferior ao de muitas congêneres privadas, a concessão de ganho real não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia de manutenção da excelência operacional que sustenta seus próprios lucros. Valorizar os seus empregados, por meio de ganho real e benefícios sociais, não compromete a saúde financeira da empresa; pelo contrário, é o investimento necessário para garantir que a Celesc continue a entregar resultados recordes e um serviço de qualidade essencial à sociedade catarinense.





