No artigo A responsabilidade do eleitor pela desgraça do Rio, publicado em 31 de agosto no Brasil 247, Bepe Damasco procura explicar a sucessão de governos de direita, casos de corrupção, violência policial e deterioração das condições de vida no estado. Sua conclusão é que, além da responsabilidade dos políticos e da própria esquerda, chegou a hora de cobrar do eleitor fluminense suas escolhas nas urnas. “Por que votam nos seus carrascos?”, pergunta.
A pergunta está de cabeça para baixo.
O problema fundamental não é por que milhões de trabalhadores deixam de descobrir individualmente qual seria o candidato correto. É por que as organizações que deveriam representá-los abandonam suas próprias candidaturas, fazem acordos com a direita e depois apresentam ao povo candidatos da burguesia como se fossem uma solução.
Damasco chega a falar em “esquizofrenia coletiva”. Mesmo considerando a força do bolsonarismo, das igrejas neopentecostais, das milícias e do narcotráfico, pergunta se “é demais cobrar dos eleitores mais responsabilidade no exercício do voto?”.
É preciso, antes, cobrar responsabilidade de quem dirige politicamente esses eleitores.
Quem dirige quem?
Trótski resumiu o problema no Programa de Transição: “A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”. Ali não são julgas as decisões das massas, mas se estabelece onde se encontra o problema político fundamental. Os trabalhadores não nascem com um programa pronto. Sua consciência é disputada por partidos, sindicatos, igrejas, imprensa, patrões e pelo próprio Estado.
Se as organizações operárias não oferecem uma política independente, a burguesia oferecerá a sua.
O próprio Damasco menciona “o refluxo dos movimentos sociais e a omissão do conjunto da esquerda em relação ao trabalho de base, à presença junto ao cotidiano do povo”. Mas imediatamente recua: “Contudo, suspeito que o buraco seja mais embaixo”.
É exatamente o contrário.
O problema não é apenas visitar pouco os bairros ou distribuir poucos panfletos. A principal direção da esquerda brasileira diz hoje aos trabalhadores do Rio que devem votar num político da direita.
Em 2026, o PT abriu mão de candidatura própria ao governo estadual para apoiar Eduardo Paes, do PSD. A direção petista chegou a apresentar Paes como o melhor palanque para Lula, e o próprio presidente pediu apoio ao candidato.
Então é preciso devolver a pergunta a Damasco: quem está ensinando o eleitor a votar nos seus “carrascos”?
O candidato que a esquerda manda escolher
Este Diário vem denunciando há anos o caráter da política de Eduardo Paes. Em 2024, quando o PT já apoiava sua reeleição à Prefeitura do Rio, apresentá-lo como uma vitória da esquerda era uma fraude. Paes é um representante da direita tradicional, aliado da Rede Globo e defensor de uma política neoliberal e privatista.
Sua administração é inimiga dos trabalhadores. Em 2024, a prefeitura recorreu ao Judiciário contra a greve dos profissionais da educação, numa ofensiva que levou à declaração de ilegalidade do movimento, ameaças de multas e descontos dos dias parados.
Mais recentemente, a Prefeitura do Rio participou da perseguição ao Bar Partisan, na Lapa, depois que o estabelecimento publicou uma manifestação política contra os Estados Unidos e “Israel”. O Procon Carioca aplicou uma multa de R$9.520 ao bar após provocação da Frente Parlamentar de Combate ao Antissemitismo. Este Diário denunciou a operação como perseguição política e mostrou o caráter sionista da política da administração Paes.
É esse homem que o PT oferece ao eleitor fluminense para governar o estado.
Damasco pergunta por que o povo escolhe políticos que depois se tornam seus algozes. Deveria começar perguntando por que o partido com maior influência sobre os trabalhadores brasileiros abriu mão de disputar o governo para fortalecer um deles.
A culpa é sempre do povo
É muito conveniente para as direções da esquerda culpar o eleitor.
Primeiro, abandonam sua independência, apoiam candidatos burgueses e explicam que isso seria necessário para derrotar a extrema direita. Depois, quando a direita continua fortalecida e os trabalhadores votam nos candidatos que lhes foram apresentados, concluem que o problema está no próprio povo.
É uma maneira de absolver a política da frente ampla.
Se a culpa é da suposta irresponsabilidade do eleitor, não é necessário explicar por que o PT abre mão de suas candidaturas. Não é preciso explicar por que fortalece o PSD nem por que transforma Eduardo Paes em candidato aceitável para milhões de trabalhadores que confiam em Lula.
O eleitor recebe a mercadoria política embrulhada pela própria esquerda e depois é responsabilizado por tê-la comprado.
Não há nenhuma “esquizofrenia” nisso. Há uma direção que conduz os trabalhadores para a direita.
Votar melhor não vai ‘salvar o Rio’
Damasco termina defendendo a “valorização do voto como instrumento de transformação social e afirmação da cidadania” e afirma que cobrar o eleitor seria “uma das últimas chances de salvar o Rio”.
É uma ilusão liberal.
O voto é um terreno da luta política, mas os problemas do Rio não existem porque seus habitantes preenchem mal a urna. Os grandes capitalistas, os especuladores imobiliários, os bancos, a Rede Globo e os aparelhos repressivos não possuem poder porque foram escolhidos numa votação popular. Possuem empresas, dinheiro, imprensa, propriedade e o aparelho do Estado.
Uma eleição pode servir para organizar os trabalhadores e apresentar um programa contra esses interesses. Mas afirmar que sua libertação depende fundamentalmente de “votar com responsabilidade” esconde quem controla materialmente a sociedade.
E não se pode exigir que o eleitor reconheça sozinho seus inimigos enquanto a própria direção da esquerda os apresenta como amigos.
Se o PT apresentasse uma candidatura própria, mobilizasse os trabalhadores contra a direita e denunciasse Paes, seria possível discutir por que uma parcela da população ainda vota em determinados candidatos burgueses. A situação é outra: o partido usa a autoridade de Lula para pedir votos a Eduardo Paes.
Em vez de cinicamente dar bronca no eleitor, é necessário romper com a política que o coloca diante de diferentes candidatos da burguesia e depois chama uma dessas escolhas de “progressista”.
Não são os trabalhadores fluminenses que precisam responder pela ausência de uma alternativa própria. São as direções que desistiram de construí-la.





