Eleições 2026

A crônica de um golpe anunciado

A imprensa de esquerda acorda para atacar o golpe armado contra a candidatura de Lula, sendo que já estava claro que partiriam para o ataque

PIG

O artigo Sem vergonha na cara, mídia volta a flertar com golpismo, de Bepe Damasco, publicado no Brasil247 nesta sexta-feira (21), mostra uma imprensa pega de surpresa porque não soube ler a situação política no País.

Conforme já havia dito este Diário, a burguesia não queria nem Lula nem Bolsonaro e daria um jeito de tirá-los das eleições em favor de um candidato de terceira via.

A primeira parte do plano, a prisão de Jair Bolsonaro, foi apoiada por toda a imprensa alternativa, que achou justo o julgamento-farsa, lavajatista, no qual um ministro (herói da democracia), atuou como relator, julgador e ainda figurava como vítima no processo.

Estava claro que a burguesia prendeu o ex-presidente, imaginando que ele faria um acordo em troca de sua liberdade: apoiar o candidato indicado pelo grande capital. O primeiro nome a surgir foi o de Tarcísio de Freitas. Bolsonaro, no entanto, preferiu dobrar a aposta e lançou seu filho como candidato.

A segunda parte do plano já estava como que anunciada quando surgiu a questão do INSS, escândalo que tinha pelo menos dois nomes ligados a Lula, o de seu irmão, José Ferreira da Silva, o Frei Chico;  e o filho mais velho do presidente: Fábio Luís Lula da Silva.

Em vez de denunciar e fazer uma campanha para desmascarar a Polícia Federal e a imprensa burguesa, a esquerda preferiu cantar vitória e declarar Lula eleito já no primeiro turno, uma vez que Jair Bolsonaro se encontra fora de combate.

Não é preciso crime

Damasco faz uma série de perguntas retóricas: “Discutir a apresentação de projetos para os poderes públicos é crime?” “Apresentar uma autoridade para um parceiro de negócios é crime?”; “Conversar sobre contratos que não se concretizam é crime?”; “Oferecer empregos que não se transformam em nomeação é crime?”; “Frequentar mansão de amiga empresária é crime?” e “Existe corrupção quando os cofres públicos em nenhum momento sangraram?” A resposta para tudo isso é “não”, no Brasil não é preciso haver crime, o Judiciário faz o que bem entende.

Aqui é preciso lembrar que a imprensa de esquerda ficou jogando confete na Polícia Federal, assim como faz com o Supremo Tribunal Federal, duas instituições golpistas que foram fundamentais para o golpe de 2016, que sacou do poder a presidenta Dilma Rousseff.

No caso da Lava Jato, já tinham o condenado; só faltava o crime, de sítio a pedalinho e reforma em cozinha de triplex. Resolveram prender Lula por “atos de ofício indeterminados”, o que ninguém sabe exatamente o que seria, mas não importa.

A imprensa já vinha trabalhando intensamente contra o PT; o caso do Mensalão foi um festival de mentiras e distorções. Rosa Weber, ex-ministra do STF, disse que iria prender José Dirceu, confessou que não tinha provas, mas que literatura jurídica a amparava (acredite quem quiser).

Foi um jogo combinado; como está sendo feito agora, ninguém deve se sentir surpreso. Era de se esperar que “condenados pelo tribunal da mídia, Fábio Luis Lula da Silva e Marcola são vítimas de linchamentos diários.”

Modus operandi

A história se repete. Bepe Damasco, apesar das evidências, procura aliviá-las para a PF e para o STF; fala em “vazamentos criminosos e descontextualizados, fruto de uma parceria entre o ministro bolsonarista do STF, André Mendonça, e a ala de extrema direita da Polícia Federal, Globo, Folha, Veja e Estadão reeditam o golpismo de passado recente, que levou o saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim a cunhar a expressão PIG (Partido da Imprensa Golpista) para se referir a esses veículos de comunicação.”

Na cabeça do jornalista, apenas um ministro bolsonarista estaria disposto a passar a perna em Lula. Dias Toffoli impediu Lula de ir ao velório do irmão. Cármen Lúcia, que, como Toffoli, foi indicada por Lula ao tribunal, votou por sua prisão ilegal.

É preciso que Damasco explique, ou demonstre, quais são as alas democráticas da PF.

O jornalista escreve que “pesa contra o filho do presidente a vaga acusação de tráfico de influência”. Ocorre que isso já basta, e o escândalo pode durar apenas o tempo da eleição para, com isso, prejudicar o presidente. Passado o pleito, não custa nada tirar uma notinha de rodapé dizendo que não havia nada de ilícito, mas o estrago já estaria feito.

Damasco diz que “não tem nada. Pode torcer, torcer, espremer, espremer que não se extrai o corpo de delito”, mas a ideia é justamente essa: espremer e tirar votos de Lula.

A imprensa alternativa é obrigada a enfrentar a realidade. Apoiaram a Lava Jato contra Bolsonaro e agora reclamam que estão fazendo o mesmo contra o filho de Lula. Após elogiar a polícia e o Judiciário, mal conseguem criticar com propriedade os envolvidos em mais uma farsa na política brasileira.

Damasco termina seu texto dizendo que “não só Lula, mas o PT, aliados e suas figuras públicas importantes devem partir para a desqualificação das investidas vazias e inócuas,  denunciando a nova parceria entre a imprensa corporativa e os golpistas”. Mas fica a pergunta: como vão desqualificar aqueles com os quais Lula, PT e aliados estão envolvidos até o pescoço?

Lula elogiou a Polícia Federal e buscou apoio no Supremo para enfrentar o Congresso. Esse é o resultado de quem se negou a buscar apoio das massas e preferiu fazer acordos por cima.

Bepe Damaco tem que ter a coragem de criticar integralmente o STF e a PF, não ficar inventando facções ou nomeando um ou outro ministro.

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