Liberdade de expressão

Contra o Discord, vale até apoiar Trump e o FBI

A histeria em torno do Discord é tão grande que parte da esquerda, além de apoiar a censura, está defendendo o combate ao terrorismo de Trump

Discord

O artigo Até o FBI condena a rede Discord, de Marcelo Zero, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (12), poderia, para a esquerda, soar como um elogio. Afinal, se a polícia federal norte-americana, uma das piores inimigas da esquerda e da população, critica algo, é porque isso vai contra os interesses do Estado.

O jornalista inicia dizendo que “tem muita gente defendendo a rede Discord, em nome, é claro, da ‘liberdade de expressão’ e da ‘democracia’”, o que é ótimo, pois mostra que mais e mais pessoas estão acordando para a necessidade da luta contra a censura.

Zero denuncia que essas pessoas “ainda acusam a primeira-dama de interferir indevidamente na questão”, o que é fato. Janja da Silva, inclusive, reclamou do TikTok para o presidente da China, Xi Jinping, sendo que ela não tem mandato, não foi eleita para nada.

Marcelo Zero chega a uma conclusão completamente sem pé nem cabeça. Diz que “para essas pessoas, a ‘liberdade de expressão’ justificaria, de alguma forma tortuosa, o cometimento de crimes verdadeiramente hediondos”. Qual é o sentido disso?

Quando a Santa Inquisição ou as ditaduras militares torturaram e assassinaram pessoas para evitar que falassem livremente aquilo que pensavam, estavam fazendo um bem? Estariam evitando crimes hediondos?

Os documentos secretos vazados por Edward Snowden em 2013 comprovaram que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) operava programas de vigilância em massa e indiscriminada, coletando dados de milhões de cidadãos comuns que não eram suspeitos de nenhum crime.

Para a esquerda histérica, isso é bom, pois todos são suspeitos e podem cometer crimes hediondos. Ninguém precisa de privacidade. O Estado age corretamente ao entrar nas suas contas pessoais e bisbilhotar suas vidas, afinal, ele quer apenas o nosso bem.

Imaginem a seguinte cena — e ela já aconteceu: um casal, separado por um longo período por motivo de viagem, começa a falar de intimidades; um pede ao outro que mostre partes do corpo, sem saber que há um agente assistindo e se divertindo. Esse é apenas um pequeno exemplo. Quem garante que agentes, de posse de informações muito sensíveis, não passem a chantagear alguém?

Ao dizer que “essas pessoas fingem desconhecer que a Discord é considerada uma rede ‘problemática’ até mesmo nos EUA, terra das Big Techs sem freios ou limites”, o jornalista está credenciando o Estado a vigiar, sendo que é ele que não tem limites.

Culpados até prova em contrário

Marcelo Zero, baseando-se em uma reportagem, diz que “a Discord tem uma maneira de atuar que favorece o cometimento de crimes”. Seria como “um grande terreno onde qualquer pessoa pode construir uma casa e permitir que visitantes entrem e saiam. Imagine cada uma dessas casas como um servidor”.

“Cada cômodo da casa tem um tema, o que equivale a um ‘canal’ onde as pessoas podem se comunicar.”

“Os proprietários têm a opção de construir uma cerca segura e permitir apenas a entrada de convidados. Isso equivale a ter um servidor privado na Discord. O que acontece lá, permanece lá. Uma espécie de ‘Las Vegas’ digital, na qual todo fato constrangedor ou criminoso é rigorosamente esquecido.”

“Se essa casa segura fosse destruída pelo fogo — ou se aquele servidor privado fosse excluído —, o que aconteceu em seu interior jamais poderia ser recuperado. Crimes, inclusive, é óbvio.”

Esses parágrafos ilustram bem a mentalidade policialesca que se instaurou em setores que se dizem de esquerda. As pessoas precisam ser vigiadas, caso contrário, cometerão crimes, “óbvio”. Talvez o jornalista tenha se esquecido, mas crimes são praticados desde sempre, muito antes de haver eletricidade, quanto mais internet.

Alarde

Mas a coisa não fica só nisso. Zero diz que “a parte mais importante do artigo é a seguinte: essa capacidade de criar ‘lares digitais’ seguros, ocultos e de curta duração torna a Discord única (…) justamente porque ela permite apagar e ocultar evidências, o que transforma a Discord na rede preferida de criminosos. Portanto, porque alguém supostamente utiliza um serviço para cometer um crime, todas as pessoas, mesmo as que não cometem crimes, devem ficar sem esse serviço. Seria uma espécie de punição coletiva” [grifo nosso].

Para convencer os leitores, o jornalista apresenta dados para assustar a já assustada pequena burguesia. Escreve que “nos EUA, a Unidade Nacional de Investigação analisou milhares de registros de tribunais federais da última década, encontrando mais de 650 casos relacionados à Discord ou aos seus usuários”. E, como já era esperado, “houve também 89 casos (15% do total) envolvendo violência e extremismo, variando desde o compartilhamento de informações com grupos terroristas na Discord até o planejamento de ataques com múltiplas vítimas”.

Agora, fica a dúvida: por qual motivo “extremistas” usariam a Internet, que é supervigiada, para combinar ataques? É preciso ser muito ingênuo para acreditar na conversa fiada de que está havendo “compartilhamento de informações com grupos terroristas”.

Assinando embaixo do que dizem autoridades norte-americanas, Zero escreve que “em um processo federal analisado pela Unidade Nacional de Investigação, no qual o FBI solicitou um mandado de busca por dados de usuários do Discord, um agente (do FBI) descreveu a plataforma como ‘a preferida de extremistas violentos’. Isso é o FBI que diz, não é a primeira-dama”. Sim, a informação é “extremamente” confiável.

Mais censura, por favor

Completamente inconformado, o jornalista alega que “dizer que a Discord ‘coopera com as autoridades’ é uma piada porque ela dá liberdade aos seus usuários para cometer crimes e ocultar evidências. É uma rede que não controla adequadamente seus usuários”. Usuários ou bando de criminosos?

A histeria chega a tal ponto que Zero sustenta que “não impor limites a uma rede como essa é ser conivente com uma espécie de PCC digital”. Mas a coisa vai além: “liberdade de expressão para permitir exploração sexual de crianças e até mesmo terrorismo, como afirma o FBI? Como justificar esse absurdo?”.

Claro, se proibirem as redes sociais, vão cessar também os abusos e a exploração sexual de crianças, exceto aqueles 90% dos casos que acontecem dentro de casas e são cometidos por parentes.

O mais interessante é que o jornalista já se inscreveu no programa de Trump para combater o terrorismo. O presidente norte-americano não era a pior pessoa do mundo, o fascismo em carne e osso?

Eis aí os “democratas” mostrando aquilo que realmente defendem.

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