O artigo A misoginia como uma ferramenta de disputa da extrema direita na América Latina, assinado por Vanessa Quadros e publicado no sítio Revista Movimento (MES-PSOL) nesta quarta-feira (12), mostra a completa ausência de propostas da esquerda para a classe trabalhadora. Por isso, agarra-se a reivindicações abstratas, como a “misoginia”, que, aliás, tem sido utilizada para a criação de leis punitivas.
A esquerda sabe que cadeia não resolve problemas sociais, serve apenas para colocar mais gente pobre nas cadeias. A direita tem aprovado propostas como a de equiparar a “misoginia” ao racismo, pois, com isso, pode aumentar a pressão do Estado sobre a classe trabalhadora.
O título do artigo é absurdo. A “disputa” contra a extrema direita estará se dando, quando muito, no terreno eleitoral. O cerne da questão, o porquê da opressão contra as mulheres, continua intacto, pois essa esquerda não trata da emancipação da mulher.
A grande preocupação da esquerda tem sido a de conquistar votos, criar leis para reformar o Estado. Lênin, em seu essencial O que fazer?, já havia caracterizado essa tendência política:
“Se a social-democracia não é, no fundo, senão um partido de reformas, e deve ter a coragem de o reconhecer abertamente, um socialista não só tem o direito de entrar para um ministério burguês como deve sempre aspirar a isso.”
Para a autora do artigo, “as eleições brasileiras de 2026 vão definir com que grau de dificuldade será o enfrentamento à extrema direita no mundo no próximo período. O presidente dos EUA, Donald Trump, abalado por derrotas internas (movimento No Kings e anti-ICE) e externas (guerra contra o Irã), precisa da vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil. Ainda assim, Renan Santos, do partido Missão, é mais um que apresenta o perfil fascista e misógino nessa campanha presidencial”.
Primeiro, é preciso dizer que o “enfrentamento” contra a extrema direita no mundo está sendo realizado pelas democracias liberais, que em nada ficam devendo ao fascismo. Quem participa do genocídio em Gaza e da guerra de agressão contra o Irã é fascista, por mais que se diga democrático, e é com essa gente que boa parte da esquerda está se unindo em nome de combater o fascismo.
Os candidatos de extrema direita que estão sendo eleitos na América Latina não são um projeto de Trump, mas do imperialismo. A política defendida por eles visa garantir o saque das riquezas pelo grande capital, ao contrário do que ocorre nos EUA e na Europa, onde a extrema direita apresenta uma tendência a reagir aos efeitos nefastos do neoliberalismo.
Combate político
Em vez de combater politicamente seus adversários, o artigo parte para a repressão. Diz que “o candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL). Há duas semanas, apostou na misoginia pura e escancarada ao atacar a candidata ao senado pelo PSOL, Manuela D’Ávila. O adesivo ‘anti-Manuela’ com o alvo vermelho no rosto da candidata expressa essa aposta no discurso violento contra as mulheres, principalmente no contexto em que o Brasil marca recordes de feminicídios”.
É preciso mostrar a falta de investimento, a falta de planejamento e de programas sociais, desmontar o candidato em vez de tentar transformar o episódio em um caso de polícia, até porque a polícia não está do lado da esquerda.
Adiante, Vanessa Quadros diz que “por outro lado, Manuela e as candidatas e candidatos do PSOL saem por cima no enfrentamento. É no PSOL que as lutas por soberania nacional e feminista se encontram. Se nos EUA existem hoje ‘’mini-Mandanis’’ ganhando as primárias e dispostos a defender o programa da esquerda socialista, no Brasil existem feministas de norte a sul dispostas a combater e vencer a extrema direita”.
Não existe uma relação direta entre as lutas feministas e a soberania. Além disso, a “misoginia” é uma exigência não do feminismo, mas do identitarismo, uma ideologia reacionária que tem retirado direitos das mulheres.
Os “mini-Mamdanis” que o artigo celebra não representam nada, apenas uma política reformista que tenta refrear o ímpeto revolucionário das massas. Mamdani, como gestor da coisa pública, do Estado, já tentou aumentar o orçamento do Departamento de Polícia de Nova Iorque.
O artigo celebra que “em 2018, o movimento Ele Não impediu a vitória de Bolsonaro no primeiro turno e, em 2022, o voto feminino, combinado com o desgaste do governo Bolsonaro, garantiu a vitória de Lula”. Aqui, no entanto, é preciso esclarecer que o “Ele Não” serviu para a maioria da esquerda tentar fazer uma frente popular com setores da direita para lançar candidato à Presidência. Isa Penna, do PSOL (Povo Sem Medo), participou de evento na Avenida Paulista com João Doria e o MBL. Guilherme Boulos pregava que era preciso fazer uma frente ampla e, para isso, invocou as Diretas Já!, apenas deixando de explicar que, no caso do movimento, a população foi traída.
Como valia tudo, menos “Ele”, abriu-se margem para uma frente com a direita, mas que foi amplamente rechaçada pela base. Foi a militância de esquerda que rejeitou Ciro Gomes e João Doria e exigiu Lula. Os votos das mulheres foram importantes? Sem dúvida, mas o determinante foi a radicalização.
Quanto à afirmação de que a Lei Maria da Penha significaria “para a maioria das mulheres brasileiras, a possibilidade de lutar pela própria vida e de acreditar em um fim que não é trágico”, nada mais falso. Conforme as condições de vida se deterioram, a violência contra as mulheres tem aumentado. Não é uma lei, mas as bases materiais que determinam a vida. Atribuir um avanço social às leis é militar em favor do Estado burguês.
O artigo fecha dizendo que “se a palavra misoginia é muito conhecida hoje, o sentido da palavra consentimento precisa ser popularizado novamente, combinando a batalha eleitoral que se aproxima com a organização de um movimento feminista amplo, radical e consciente de que seu programa faz Zucco, Flávio, Milei e Trump tremerem. Na América Latina, imperialistas e misóginos não podem se criar!”.
A propagação da palavra “misoginia” e toda a histeria e propaganda que a esquerda identitária vem promovendo acabaram fazendo com que determinadas pessoas se sentissem como se pertencessem a um grupo e passassem a se organizar em fóruns e comunidades. Agora, esses grupos crescem e são novamente atacados pelos identitários, fechando um ciclo.





