A matéria O monopólio da IA pode nos levar a uma nova Crise de 2008?, publicada pelo Esquerda Online nesta quinta-feira (13), apresenta uma entrevista com Thales Mesentier para sustentar que existe uma enorme bolha financeira em torno da inteligência artificial e que seu estouro poderia provocar uma crise semelhante à de 2008.
Existe uma bolha, empresas estão supervalorizadas e investidores podem alimentar expectativas absurdas. Eis aí a maravilha do capitalismo. O problema é transformar essa possibilidade em uma nova crise de 2008 sem demonstrar que existe um mecanismo econômico semelhante.
Mesentier afirma que “há uma bolha econômica em torno da tecnologia de inteligência artificial” e que “a questão deixou de ser se a precificação está incorreta. A questão é quando a correção vai se dar”. Pode ser. Mas uma coisa é uma ação estar supervalorizada; outra é sua queda provocar o colapso do sistema financeiro mundial.
2008 não foi apenas uma bolha
A crise de 2008 não aconteceu simplesmente porque algumas empresas estavam caras demais. Houve uma combinação de crédito imobiliário de baixa qualidade, securitização, derivativos e bancos profundamente expostos aos chamados “ativos tóxicos”, além de uma enorme alavancagem bancária, em que um dólar depositado poderia lastrear até 30 dólares — ou mesmo 40. Se um banco possui US$1 bilhão em capital e compra US$30 bilhões em ativos, uma alavancagem de 30 para 1, uma queda de apenas 3,3% no valor desses ativos é suficiente para reduzir o patrimônio líquido do banco a zero, tornando-o completamente insolvente.
Quando as hipotecas começaram a perder valor, não foram apenas investidores da construção civil que perderam dinheiro. Bancos do mundo inteiro possuíam ativos ligados àquelas operações e contratos entre si. A desvalorização dos imóveis transformou-se em crise de crédito e, depois, em crise mundial.
Onde está o equivalente na IA? A entrevista tenta responder dizendo que existe uma espécie de “financeirização circular”. Segundo Mesentier, fabricantes de GPUs investem em empresas que compram GPUs, enquanto empresas de computação investem em laboratórios que posteriormente contratam seus serviços.
Mas o fato de empresas fazerem negócios entre si não é novidade no capitalismo e não constitui, por si só, uma crise financeira.
Onde estão os títulos equivalentes às hipotecas subprime? Onde está a alavancagem bancária comparável? Onde está a rede de instituições financeiras cuja quebra ameaçaria o sistema de pagamentos? A matéria não demonstra.
Dívida de US$1,65 trilhão
Um número impressionante aparece na entrevista. Mesentier afirma que “cinco grandes empresas de tecnologia acumulam mais de 1,65 trilhões de dólares em dívidas que não constam em seus balanços”.
O número é real. Um levantamento do Nikkei Asia, divulgado em julho, estimou em cerca de US$ 1,65 trilhão as obrigações off-balance-sheet de Alphabet, Microsoft, Amazon, Meta e Oracle, relacionadas principalmente à expansão de data centers e à infraestrutura necessária para a inteligência artificial. O valor, segundo o levantamento, supera os cerca de US$ 1,35 trilhão em dívidas registradas nos balanços dessas empresas.
Portanto, não há motivo para simplesmente descartar o dado. Ao contrário: ele mostra que a corrida pela IA envolve compromissos financeiros gigantescos e que os balanços tradicionais, sozinhos, não contam toda a história.
Obrigações futuras não são automaticamente equivalentes à “dívida tóxica” que contaminou o sistema financeiro em 2008. O levantamento reúne compromissos de leasing de data centers, contratos de fornecimento de GPUs, servidores e outros compromissos de infraestrutura. São obrigações reais e podem se transformar em um problema enorme se a demanda por IA não corresponder aos investimentos realizados.
Faltou à entrevista demonstrar quem financia essas operações, qual é a alavancagem envolvida, quem está exposto a uma eventual inadimplência e como a quebra de uma dessas empresas poderia paralisar o crédito mundial.
Em 2008, essa cadeia estava claramente estabelecida. Hipotecas ruins eram transformadas em títulos, esses títulos estavam espalhados pelo sistema financeiro e bancos altamente expostos dependiam de sua valorização.
Na IA, existe uma enorme aposta financeira. O que ainda não foi demonstrado é o equivalente ao mecanismo de contágio de 2008.
Monopólio de quê?
A entrevista também sustenta que “o modelo de negócios de empresas como OpenAI e Anthropic depende” da manutenção de um “monopólio” sobre os modelos mais avançados.
Mas a própria realidade apresentada na matéria contradiz parcialmente essa tese.
A existência de modelos abertos e da concorrência internacional mostra que não há uma única empresa controlando a inteligência artificial. Há uma disputa entre grandes empresas, startups, universidades e laboratórios de diferentes países.
Isso não significa que não existam monopólios, mas a própria entrevista reconhece que modelos abertos podem reduzir essa concentração.
Talvez o problema seja justamente o contrário do que a matéria sugere: a tecnologia pode estar caminhando para uma redução do custo dos modelos e para uma disputa cada vez maior pela infraestrutura.
Uma bolha não torna a tecnologia inútil
Aqui existe outra confusão importante: uma eventual bolha financeira não significa que a IA seja uma fraude. A bolha da Internet é o exemplo mais conhecido. Muitas empresas quebraram, ações despencaram e investidores perderam fortunas. Mas ninguém concluiu, por isso, que a Internet era inútil.
Como se viu posteriormente, parte da infraestrutura construída durante a bolha foi aproveitada e ajudou a impulsionar a revolução digital. Não está descartado que aconteça o mesmo com a IA.
É muito provável que ocorram quebradeiras, e nem seria a primeira vez no capitalismo, que é anárquico. Chips e computadores continuarão existindo, assim como os modelos. A infraestrutura poderá ser adquirida por preços muito menores. O próprio entrevistado admite que “a tecnologia é útil e vai continuar fazendo parte da vida das pessoas”.
Então, uma questão não pode ser confundida com a outra: a existência de uma bolha não demonstra a inutilidade da tecnologia.
Produtividade não é fumaça
A entrevista também questiona se a IA está realmente produzindo os ganhos de produtividade prometidos. É legítimo questionar os retornos financeiros dos investimentos. Mas isso não significa que a IA não esteja aumentando a produtividade.
Ela já é utilizada em programação, tradução, atendimento, análise de documentos, pesquisa, processamento de dados e automação.
Afirmar que uma tecnologia é inútil porque os investimentos ainda não produziram o retorno esperado é inverter a questão. Uma ferrovia, por exemplo, pode ser útil e uma companhia ferroviária pode falir.
A matéria tem razão em chamar a atenção para uma aposta financeira gigantesca. O levantamento do Nikkei torna ainda mais evidente que a corrida pela IA envolve compromissos de enorme dimensão.
Diante de tudo isso, é fundamental o investimento público em computação, pesquisadores, infraestrutura e modelos abertos, ou o Brasil ficará eternamente dependente das grandes empresas estrangeiras.
Não basta ficar falando o tempo todo em soberania se o país não controla ramos essenciais da economia.





