100 anos

Fidel Castro, aquele que não abaixou a cabeça para o imperialismo

Exemplo de evolução política e iniciativa revolucionária, sua trajetória mostrou que a luta contra o imperialismo exige mobilização popular radical e expropriação do capital

Nesta quinta-feira (13), completam-se 100 anos do nascimento de Fidel Castro, principal dirigente da Revolução Cubana e uma das figuras políticas mais importantes da segunda metade do século XX. Nascido em 13 de agosto de 1926, em Birán, no leste de Cuba, Fidel morreu em Havana, em 25 de novembro de 2016, aos 90 anos.

Mais importante do que qualquer discussão sobre as divergências políticas que possam existir com a direção cubana é lembrar a figura do dirigente revolucionário, seu exemplo de coragem, integridade e, sobretudo, de evolução política.

Fidel começou sua trajetória dentro do nacionalismo burguês parlamentar. A experiência concreta da luta contra a ditadura pró-imperialista de Fulgêncio Batista o levou, porém, a romper com essa perspectiva, organizar uma iniciativa revolucionária armada e, posteriormente, diante do enfrentamento com o imperialismo norte-americano, ultrapassar os próprios limites do nacionalismo e avançar para a expropriação da burguesia.

Esse desenvolvimento político é uma das principais lições deixadas pela Revolução Cubana para os povos latino-americanos.

O levante do Moncada

Formado em Direito pela Universidade de Havana, Fidel participou intensamente da política estudantil e aproximou-se do Partido do Povo Cubano, conhecido como Partido Ortodoxo. Chegou a disputar uma vaga na Câmara de Representantes.

O golpe de Estado de 10 de março de 1952, porém, mudou completamente o curso da política cubana. Fulgêncio Batista tomou o poder, cancelou as eleições e instalou uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos.

Fidel foi um dos primeiros a denunciar o novo regime. Inicialmente, tentou combater o golpe pelos meios legais. A experiência mostrou rapidamente, porém, que a ditadura não seria derrubada pelos tribunais nem pela política parlamentar.

Insatisfeito com a orientação adotada pelos dirigentes tradicionais do Partido Ortodoxo e convencido de que a única saída estava na luta revolucionária, Fidel começou a organizar clandestinamente um movimento baseado em células. Em cerca de um ano, o grupo reunia aproximadamente 1.200 militantes.

A primeira grande iniciativa ocorreu em 26 de julho de 1953.

No comando de pouco mais de uma centena de homens, Fidel dirigiu o ataque ao Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, enquanto outro grupo investia contra o quartel Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. O Moncada era a segunda principal fortaleza militar do país e abrigava aproximadamente mil soldados.

A iniciativa fracassou militarmente. Muitos dos revolucionários foram capturados, torturados e assassinados. Fidel foi preso alguns dias depois.

Mesmo derrotado, porém, enfrentou a ditadura no próprio julgamento. Assumiu sua defesa e transformou o processo numa acusação contra Batista. Seu discurso ficaria eternizado como A história me absolverá.

O episódio mostrou uma das principais características de Fidel durante toda a sua trajetória: a iniciativa revolucionária enérgica, mesmo quando a correlação de forças parecia completamente desfavorável.

O fracasso do Moncada não encerrou a luta. Tornou-se o ponto de partida para uma organização revolucionária que, apenas seis anos depois, tomaria o poder em Cuba.

O Granma e a reconstrução da luta

Anistiado em 1955, Fidel foi para o México, onde passou a preparar uma insurreição armada.

Ali reuniu revolucionários como Raúl Castro, Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Juan Manuel Márquez. O grupo recebeu treinamento militar e preparou seu retorno a Cuba.

Em 25 de novembro de 1956, 82 combatentes partiram do México a bordo do iate Granma.

O desembarque, ocorrido em 2 de dezembro, foi um desastre. As forças de Batista localizaram os revolucionários e, poucos dias depois, atacaram o grupo em Alegría de Pío. Muitos foram mortos ou presos e os sobreviventes acabaram dispersos.

Aquilo poderia ter encerrado toda a tentativa revolucionária.

Fidel, porém, reorganizou a luta depois da derrota. Com a ajuda dos camponeses, reencontrou Raúl e outros sobreviventes e seguiu para a Sierra Maestra. Ali nasceu o núcleo inicial do Exército Rebelde.

Em janeiro de 1957, os guerrilheiros conquistaram sua primeira vitória contra o Exército de Batista, em La Plata. A partir daí, o movimento cresceu progressivamente.

O pequeno agrupamento que havia sobrevivido ao desastre do Granma foi conquistando apoio entre os camponeses e outros setores da população explorada. Fidel coordenou a luta revolucionária contra a ditadura e contra o imperialismo norte-americano até que o movimento adquirisse força nacional.

Durante 25 meses de guerra, dirigiu as forças do Movimento 26 de Julho e participou diretamente de grande parte das principais operações militares na Sierra Maestra.

Da Sierra Maestra à tomada do poder

Em 1958, Batista tentou liquidar definitivamente a guerrilha.

Cerca de 10 mil soldados foram lançados contra a Sierra Maestra. A superioridade numérica e material do regime era esmagadora.

As tropas governamentais, no entanto, foram derrotadas em sucessivos combates. O fracasso da ofensiva marcou a virada decisiva da guerra.

As forças revolucionárias passaram ao ataque. Novas colunas foram abertas em diferentes regiões do país. Che Guevara e Camilo Cienfuegos avançaram para Las Villas, enquanto Fidel dirigia a ofensiva no Oriente.

O movimento revolucionário, que havia começado com um pequeno grupo de homens e atravessado sucessivas derrotas, passou a receber o apoio de parcelas cada vez maiores dos trabalhadores, camponeses e demais setores populares.

Na madrugada de 1º de janeiro de 1959, Batista fugiu do país.

Fidel entrou em Santiago de Cuba e convocou uma greve geral revolucionária para impedir uma manobra destinada a preservar o regime sem Batista. A greve foi atendida pelos trabalhadores. Em 8 de janeiro, o dirigente revolucionário entrou em Havana à frente da Caravana da Liberdade.

A ditadura sustentada pelo imperialismo norte-americano estava derrotada.

Da libertação nacional à revolução socialista

A tomada do poder, porém, não encerrou o processo revolucionário.

Fidel havia começado no nacionalismo burguês parlamentar. Pela experiência prática, evoluiu para um nacionalismo revolucionário armado. O enfrentamento com o imperialismo norte-americano levaria a revolução ainda mais longe.

Os Estados Unidos não poderiam aceitar tranquilamente a existência, a poucos quilômetros de seu território, de um governo independente que começava a tomar medidas contra seus interesses econômicos.

Começaram as sabotagens, pressões econômicas, atentados, infiltrações e operações destinadas a derrubar o novo regime.

A burguesia cubana, profundamente associada ao imperialismo, colocou-se também contra a revolução.

A experiência prática colocou então uma questão fundamental: não era possível levar até o fim a luta contra o imperialismo mantendo intacto o domínio do capital.

Em abril de 1961, mercenários organizados e financiados pela CIA desembarcaram na Baía dos Porcos para derrubar o governo revolucionário.

A invasão foi derrotada.

Em 16 de abril, Fidel proclamou o caráter socialista da Revolução Cubana.

A revolução nacionalista havia superado seus próprios limites. O enfrentamento com o imperialismo conduziu à expropriação da burguesia cubana.

Essa é uma das conclusões mais importantes da experiência cubana: nos países atrasados, a luta consequente para derrotar o imperialismo não pode ser realizada sem a expropriação do capital.

No caso de Cuba, a ousadia dessa política foi ainda maior.

Tratava-se de um pequeno país agrário, saído de uma sociedade escravista, pobre em recursos e localizado ao lado da maior potência imperialista do mundo. Mesmo assim, a direção revolucionária expropriou a burguesia e sustentou essa política até os dias de hoje.

Foi uma proeza extraordinária.

O exemplo cubano

A vitória da Revolução Cubana produziu um enorme impacto sobre toda a América Latina.

Naquele momento, os principais partidos comunistas do continente estavam mergulhados numa política profundamente reformista, baseada na colaboração com governos burgueses e na adaptação aos regimes políticos existentes, uma orientação clássica do stalinismo.

Os cubanos seguiram outro caminho.

A vitória sobre Batista mostrou que os regimes sustentados pelo imperialismo podiam ser derrubados pela mobilização revolucionária. Mais do que isso, a direção cubana procurou estimular o ressurgimento da luta revolucionária internacional e reagrupar militantes que realmente queriam enfrentar os governos apoiados pelo imperialismo.

Durante toda a década de 1960, Cuba tornou-se um centro de referência para a juventude e para os setores mais combativos da esquerda latino-americana.

Era a demonstração viva de que um país pobre e atrasado poderia enfrentar o imperialismo, tomar o poder e expropriar a burguesia.

Esse internacionalismo não ficou restrito à América Latina.

Nas décadas seguintes, Cuba enviaria combatentes para diversos países, entre eles Angola, onde a intervenção cubana teve importância decisiva na luta contra as forças apoiadas pela África do Sul do apartheid e pelo imperialismo. A atuação internacional cubana também alcançou Argélia, Síria, Etiópia e muitos outros países.

Uma pequena ilha diante do imperialismo

A sobrevivência da própria Revolução Cubana é um feito difícil de comparar.

Uma pequena ilha do Caribe, economicamente atrasada e historicamente dominada pelos Estados Unidos, enfrentou durante décadas a maior potência imperialista do planeta.

Cuba sofreu sabotagens, atentados terroristas, invasões, infiltrações, tentativas de assassinato contra seus dirigentes e um bloqueio econômico destinado a estrangular sua população.

A revolução não caiu.

Não há proporção possível entre as forças em confronto. Mesmo a comparação clássica entre Davi e Golias não descreve adequadamente a desigualdade entre Cuba e o imperialismo norte-americano.

Essa resistência explica também o ódio permanente da direita contra a Revolução Cubana.

Durante décadas, Cuba tornou-se, para os setores mais reacionários, o exemplo de tudo aquilo que deveria ser esmagado: um povo de um país atrasado que havia expropriado a burguesia, derrotado uma ditadura pró-imperialista e se recusado a abaixar a cabeça diante dos Estados Unidos.

Para milhões de explorados, ocorreu exatamente o contrário.

Cuba tornou-se um exemplo de resistência revolucionária.

Não entregou a revolução

Fidel permaneceu no centro da direção cubana durante décadas.

Sua política internacional passou por diversos zigue-zagues e há importantes divergências a serem feitas sobre muitos aspectos da orientação adotada pelo governo cubano ao longo desse período.

Nada disso, porém, elimina um fato fundamental.

Fidel chegou ao fim da vida sem entregar a revolução.

Não abaixou a cabeça diante do imperialismo, não devolveu o país aos capitalistas e manteve o fundamental da transformação iniciada em 1959.

Diante da gigantesca história de capitulações da esquerda latino-americana, esse fato, por si só, possui enorme importância.

Fidel morreu em 2016, aos 90 anos.

Sua trajetória entre o ataque ao Quartel Moncada, a reconstrução da luta depois do desastre do Granma, a organização do Exército Rebelde na Sierra Maestra, a derrota de Batista e a expropriação da burguesia permanece como um dos maiores exemplos revolucionários já produzidos pela América Latina e pelos povos oprimidos do mundo.

Para os povos latino-americanos, esmagados até hoje pelo imperialismo, a Revolução Cubana deixou uma indicação fundamental: é preciso organizar a luta, enfrentar a reação e levar até o fim o combate contra o domínio imperialista.

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