O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou nessa quinta-feira (13), durante o programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária, que o fortalecimento dos órgãos de repressão na Alemanha é uma manifestação do “declínio total da Europa imperialista”.
Transmitido semanalmente às quintas-feiras, às 12h30, o programa abordou ainda a guerra no Líbano, a situação da Venezuela após o sequestro de Nicolás Maduro, a política externa de Donald Trump, a crise dos governos de esquerda e o caráter de uma possível nova guerra mundial.
Europa caminha para regimes mais repressivos
A Alemanha anunciou uma ampliação dos poderes de seus serviços de inteligência, que passam a contar com maiores prerrogativas para realizar ataques cibernéticos, sabotagens e operações de desinformação. Também foi discutido no programa o uso da chamada “lealdade à Constituição” para impedir candidaturas eleitorais consideradas hostis ao regime político alemão.
Para Pimenta, essas medidas são resultado direto da crise europeia. A prosperidade dos países imperialistas do continente, explicou, nunca dependeu apenas de suas próprias economias, mas sobretudo da exploração dos países atrasados e das condições privilegiadas garantidas pelo domínio imperialista.
“Eu concordo plenamente com o comandante [Robinson Farinazzo, que também é comentarista do programa]. Nós estamos vendo aqui o declínio total da Europa imperialista. Muita gente se engana sobre a Europa, acha que a Europa é um continente que tem muita gordura para queimar, que é muito rico etc. Não é assim. Eles dependem muito da exploração das colônias e de uma série de facilidades. E a situação está levando para um beco sem saída. Isso daí leva, obviamente, ao enrijecimento do regime político. É interessante como as coisas se reproduzem. Isso aí, como o comandante falou, é a Gestapo, é a volta daqueles que nunca foram embora. E, se esses regimes políticos europeus entrarem — e vão entrar, estão entrando — numa situação como essa, vamos ver um espetáculo muito feio. Muito feio mesmo. Já é feio hoje.”
O dirigente destacou que a crise não está limitada à Alemanha. Os regimes políticos europeus, avaliou, estão se desgastando rapidamente, processo que já se expressou inicialmente no crescimento da extrema direita e que começa também a produzir uma radicalização pela esquerda.
“Eu acho que os regimes políticos europeus se esgotaram com muita rapidez. Eles estão na lona, é evidente isso daí. Nós, aqui nesse programa e em outros programas, acompanhamos passo a passo a evolução desses regimes. E nós falamos: ‘isso daí vai acabar caindo tudo’. Nós destacamos o crescimento da extrema direita primeiro e depois o crescimento da extrema esquerda também. Então nós chegamos meio que no fundo do poço. No Brasil a situação não é diferente também. É que aqui a gente tem de olhar a coisa com olhos diferentes.”
No Brasil, Pimenta identificou um processo semelhante, ainda que sob condições diferentes. Ressalvou que o PT não é igual ao Partido Trabalhista britânico, a Macron ou à social-democracia alemã, mas considerou que o partido vem sendo arrastado para uma política cada vez mais semelhante à dessas organizações.
‘Isso aí é de uma ditadura’
O debate sobre a repressão política na Alemanha levou à operação da Polícia Federal realizada na casa de Pimenta na terça-feira (11). O presidente do PCO denunciou o cumprimento do mandado às 6 horas da manhã e o arrombamento do portão de sua residência como métodos destinados a intimidar o investigado.
“Não tem dúvida. Isso daí que eles fizeram na terça-feira passada, eles fizeram com várias outras pessoas. Muita gente recebeu essa visitinha aí na madrugada. Eles têm autorização para entrar a partir das seis horas da manhã, o que é meio absurdo, vamos falar a verdade. Seis horas da manhã não é um horário normal para você estar recebendo a polícia. Eu não sei por que eles têm autorização para arrebentar a porta da sua casa também. Se tem campainha, o cara poderia bater. A gente ia abrir a porta. O que eu ia fazer? Uma barricada lá e atirar na polícia? Não. E, terceiro, não tinha motivo para isso. A gente não foi julgado, não aconteceu nada, é uma arbitrariedade total. O estilo é inconfundível. Na época da ditadura era assim: o pessoal chegava lá intimidando todo mundo, assustando o pessoal.”
Pimenta lembrou que combateu o mesmo tipo de procedimento quando ele foi utilizado contra Lula e também contra bolsonaristas. Para ele, não se trata simplesmente de uma busca e apreensão, mas de uma encenação policial destinada a colocar o investigado na condição de criminoso antes de qualquer julgamento.
“Isso aí é de uma ditadura. Eu não tenho a menor dúvida de que é um procedimento ditatorial”, disse.
A operação também não encontrou o tipo de material que normalmente é exibido pela Polícia Federal à imprensa após buscas de grande repercussão. Não havia dinheiro, joias ou outros objetos que servissem para compor uma fotografia destinada aos jornais.
“Eles não fizeram o que eles normalmente fazem nesses casos, que é apreender uma quantidade de dinheiro, joias, sei lá mais o quê, e tirar uma fotografia para a imprensa mostrar. Eles não fizeram isso porque não tinha nada em casa”, afirmou Pimenta.
Foram levados seu telefone celular e alguns discos rígidos que, segundo ele, serviam para armazenar livros, músicas e filmes.
‘Israel’ quer tornar o sul do Líbano inabitável
A guerra no Oriente Médio ocupou outra parte importante do programa. Pimenta chamou atenção para uma aparente divergência entre os Estados Unidos e o governo de Benjamin Netaniahu. Enquanto Washington procura incluir o fim das hostilidades contra o Líbano nas negociações regionais, “Israel” declarou a intenção de tornar o sul do país inabitável.
“Parece que está havendo um desentendimento entre ‘Israel’ e os Estados Unidos, porque nesse plano de paz que os Estados Unidos estão tentando costurar com o Irã, esse plano contempla a retirada das hostilidades contra o Líbano. Mas ‘Israel’ já afirmou que vai tornar o sul do Líbano inabitável. E quem está falando isso daí não sou eu. Isso daí apareceu, se eu não me engano, no Financial Times.”
Segundo Pimenta, o objetivo israelense é estabelecer uma zona tampão contra o Hesbolá. A consequência prática, porém, é a destruição das localidades onde vive a população libanesa.
“Isso daí eles estão tentando criar uma zona tampão para se proteger do Hesbolá. Isso daí é uma tática militar. Mas essa tática militar está promovendo ações que são absolutamente terríveis contra o povo lá do Líbano, que não tem nada a ver com o peixe. Eles alegam que só estão atacando bases do Hesbolá, o que não é verdade, porque está morrendo gente lá. E eles agem sempre assim, sobretudo quando a extrema direita toma conta do país, como é o caso do Netaniahu. Essas ações do Netaniahu são ações imperialistas e elas têm um forte conteúdo fascista, realmente.”
Ao comentar os incêndios provocados em vilarejos libaneses, o dirigente comparou o método ao empregado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã: atingir a população para retirar o apoio social dado aos combatentes.
“Os Estados Unidos fizeram esse tipo de coisa na Guerra do Vietnã, em larga escala também. Eles procuravam destruir os vilarejos para que os guerrilheiros, os vietcongues, não pudessem ser ajudados pela população local. Quer dizer, se você tem um agrupamento que é apoiado pelo povo do país, você tem que atacar o povo para poder derrotar o agrupamento armado. É uma coisa criminosa no último grau.”
Até onde vão as concessões na Venezuela?
Questionado sobre a retomada de relações consulares entre Venezuela e “Israel” e sobre possíveis mudanças no Tribunal Supremo venezuelano, Pimenta considerou que o governo chavista vem fazendo concessões diante da situação criada após o sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
Ele ponderou, entretanto, que seria precipitado interpretar qualquer medida isolada como uma capitulação completa diante do imperialismo.
“O que aconteceu na Venezuela? Aparentemente, o regime político venezuelano está disposto a fazer uma série de concessões diante da situação que ficou colocada depois do sequestro criminoso do presidente Maduro. Agora, precisaria ver o que exatamente está acontecendo, o que eles estão fazendo de importante, porque essas coisas podem ser medidas superficiais, a gente não sabe. O que eles vão fazer na Suprema Corte? Vamos supor que o que eles estejam fazendo seja o pior possível, que eles vão mudar e colocar gente de direita na Suprema Corte. É um suicídio, é isso. Vão colocar agentes do imperialismo na Suprema Corte e perder o controle do governo e do poder.”
Para o dirigente do PCO, a fronteira decisiva seria uma política que levasse à “transferência do poder para os agentes do imperialismo dentro do país”.
Pimenta também rejeitou a tese de que a atual direção chavista já deva ser considerada agente do imperialismo. Destacou que a política seguida por Delcy Rodríguez conta com o apoio da cúpula chavista e que, até então, Maduro não havia se pronunciado contra ela.
Trump virou um governo do sistema
As declarações de Marco Rubio sobre a América Latina também foram discutidas. Pimenta não viu nelas uma grande novidade na política imperialista norte-americana. Na sua avaliação, o secretário de Estado expressa a política tradicional da ala direita do Partido Republicano e não o movimento que originalmente levou Trump à Presidência.
“O Trump abandonou pressupostos fundamentais da sua política original que ele defendeu na eleição. Tem até um racha dentro do movimento dele por causa disso. O Marco Rubio, que é uma pessoa que leva a política com muita energia, não é do movimento trumpista. Ele é da ala direita do Partido Republicano, mas da ala direita não trumpista.”
Pimenta lembrou que Trump chegou ao governo prometendo uma ruptura com a política tradicional de Washington, mas acabou se adaptando ao próprio regime que dizia combater.
“Ele jogou muito para baixo a base dele. Ele fez uma coisa que o Lula sempre faz nos governos dele, que é começar com a ideia de que o governo vai ser de esquerda e acaba sendo um governo direitista. Então Trump propôs um governo antissistema e terminou aí com o governo do sistema. Acho que isso daí vai ter um preço eleitoral.”
O dirigente relacionou esse processo à situação do governo Lula. Para ele, existe uma insatisfação crescente entre setores que apoiaram o presidente diante do não cumprimento das promessas feitas durante a campanha eleitoral.
“O PT está acostumado a manipular e manobrar os seus apoiadores, mas isso tem um preço. Chega uma hora que o pessoal abre o olho. Eu acho que o clima a favor do PT é muito rarefeito. E o pessoal do PT é muito prepotente e arrogante, porque eles acham que está todo mundo obrigado a apoiar a candidatura do Lula. Mas tem um monte de gente que não está se achando muito obrigado a apoiar a candidatura do Lula.”
A principal arma eleitoral utilizada pela direção petista, acrescentou, continua sendo o voto útil contra Bolsonaro e os bolsonaristas. Pimenta alertou, porém, que esse argumento tem alcance limitado.
Uma guerra diferente das anteriores
Uma das questões finais tratou da possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Para Pimenta, a situação atual possui uma diferença fundamental em relação às duas guerras mundiais do século XX: existem hoje países que não pertencem ao campo imperialista e que possuem força suficiente para agir de maneira independente no conflito internacional.
“A crise capitalista é muito profunda, muito maior do que nas épocas anteriores. Então a gente vê surgir aí uma série de países que confrontam a ordem imperialista mundial numa determinada medida: China, Irã, Rússia. Isso daí é um elemento novo. Porque, se pegar, por exemplo, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, não havia nenhum país que não fosse imperialista que tivesse condições de ter uma participação independente no conflito.”
Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, lembrou, o imperialismo controlava praticamente todo o planeta. A situação começou a mudar sobretudo depois da Segunda Guerra, com a grande onda de revoluções e lutas de libertação dos povos coloniais.
A China é o exemplo mais evidente dessa transformação. Se naquele período era um país enorme e estrategicamente importante, mas militarmente secundário, hoje é uma potência capaz de enfrentar a pressão imperialista.
Essa nova correlação de forças também dificulta que as contradições entre os próprios países imperialistas se desenvolvam da mesma maneira que no começo do século XX.
“Seria uma guerra diferente. Eu concordo com isso daí. É muito cedo para dizer que se trata de uma Terceira Guerra Mundial. Mas o que está acontecendo é um grande conflito internacional. Não sei como classificar isso daí, mas a gente pode chamar de um grande conflito internacional.”
O programa abordou ainda a decisão do novo governo colombiano de permitir operações militares norte-americanas em território nacional sob a justificativa do combate ao terrorismo e ao narcotráfico. Para Pimenta, trata-se de mais uma expressão da política dos novos governos de direita da América Latina.
“Isso daí é uma coisa cada vez mais preocupante. Esses governos direitistas estão abrindo as portas das Forças Armadas do imperialismo”, afirmou.





