Polícia política

Polícia Federal, uma filial da CIA, do FBI e do Mossad no Brasil

Operação contra Rui Costa Pimenta chama atenção para uma corporação que há décadas mantém estreitas relações com os serviços de espionagem do imperialismo

A operação realizada pela Polícia Federal contra Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, na terça-feira (11), trouxe novamente à tona o papel desempenhado pela corporação na política nacional. Muito antes da Lava Jato, já havia documentação mostrando que setores da PF foram financiados, equipados e treinados pela CIA, pelo FBI e pela DEA. Nos últimos anos, o Mossad também passou a aparecer em investigações conduzidas em território brasileiro.

Batizada de Operação Causa Própria, a ação aconteceu apenas três dias depois do lançamento público da candidatura presidencial de Pimenta. Policiais armados chegaram às 6 horas da manhã à casa alugada onde vive o dirigente do PCO, no Jabaquara, em São Paulo, arrombaram o portão e vasculharam o imóvel. Outro endereço também foi alvo da operação.

A investigação envolve aproximadamente R$1,8 milhão pagos a três empresas gráficas durante cinco anos. A PF levanta suspeitas de apropriação indébita eleitoral, falsidade ideológica eleitoral e lavagem de dinheiro. A Justiça autorizou ainda bloqueio de contas, indisponibilidade de bens e afastamento cautelar de investigados de funções administrativas.

Os próprios valores colocam em dúvida a dimensão atribuída ao caso.

Divididos entre cinco anos e três empresas, os R$ 1,8 milhão correspondem a cerca de R$120 mil por empresa a cada ano. Nas eleições de 2018, 2020 e 2022, o PCO lançou 442 candidatos. São pouco mais de R$4 mil por candidatura.

Só Bruno Covas, candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo em 2020, declarou R$1.848.718,19 em material impresso numa única eleição. Gastou ainda cerca de R$2,2 milhões com advogados, mais de R10 milhões com produção de vídeos e R$ 1,8 milhão com pesquisas eleitorais.

Apesar disso, a imprensa divulgou que estariam sob investigação “contratos milionários”, embora nenhum contrato mencionado alcance individualmente R$1 milhão.

A busca na residência de Pimenta tampouco revelou patrimônio que pudesse sustentar a imagem criada em torno das acusações de desvio e lavagem de dinheiro. Não foram encontradas joias, dinheiro escondido, carros de luxo ou outros bens de grande valor. O presidente do PCO mora de aluguel em um bairro operário e de classe média baixa de São Paulo. Conforme destacou a nota da Executiva Nacional do Partido, sua principal riqueza material é sua biblioteca.

https://www.youtube.com/watch?v=2u3VoG6m1P4

Os policiais levaram seu telefone, passaporte e discos rígidos.

A forma escolhida para cumprir os mandados também faz parte do caráter político dessas operações. Homens armados aparecem no primeiro horário permitido pela legislação, arrombam portões e transformam a investigação em espetáculo público. Para obter documentos de prestações de contas já entregues à Justiça Eleitoral, nada disso seria necessário.

O PCO denunciou esse método quando a Polícia Federal o utilizava contra Lula durante a Lava Jato. Também denunciou arbitrariedades cometidas contra bolsonaristas. A defesa dos direitos democráticos não pode depender da identidade de quem está sendo perseguido.

O caso de Pimenta, porém, permite levantar uma questão ainda mais ampla: que instituição é essa que vem assumindo um peso crescente na vida política brasileira?

Dinheiro norte-americano dentro da PF

Entre 1999 e 2004, o jornalista Bob Fernandes publicou na revista Carta Capital uma série de reportagens sobre a atuação da CIA, do FBI e da DEA no Brasil. Foram oito capas, 78 páginas e cerca de 15 matérias que revelaram uma relação muito diferente da simples “cooperação internacional” normalmente apresentada ao público.

Uma das primeiras reportagens abordou o Caso Sivam, envolvendo o contrato bilionário para o sistema de radares da Amazônia. As conversas relacionadas ao caso haviam sido grampeadas pela Polícia Federal em colaboração com a CIA.

Pouco depois, Carta Capital publicou a reportagem CIA e DEA pintam e bordam no Brasil. Nela aparecia o Centro de Dados Operacionais, o CDO, instalado nas dependências da própria Polícia Federal, no Setor Policial Sul, em Brasília.

A estrutura havia sido montada com recursos dos Estados Unidos ainda durante o governo Sarney. O financiamento incluía instalações, equipamentos e veículos. Em determinado momento, a rede ligada ao CDO chegou a possuir 15 escritórios no País.

A ingerência alcançava o próprio recrutamento dos policiais brasileiros que atuavam no setor. Delegados e agentes enviados para o CDO passavam por testes de polígrafo em Washington. Segundo integrantes da PF que mais tarde denunciaram o esquema, aquilo servia também para avaliar a confiabilidade dos brasileiros perante os norte-americanos.

Quando as relações se tornavam públicas demais, as siglas eram alteradas. O CDO foi sucedido pelo SOIP, depois pela COIE e, posteriormente, pela Divisão Antiterrorismo.

Em outra reportagem da série, apareceu uma frase atribuída ao então chefe da missão diplomática dos Estados Unidos, James Derham: “temos o dinheiro, as regras são nossas”.

A declaração teria sido feita no contexto de uma disputa com Wálter Maierovitch, então responsável pela Secretaria Nacional Antidrogas, que se opunha à forma como os serviços norte-americanos atuavam no País.

Maierovitch acabou afastado. O governo Fernando Henrique Cardoso não tomou qualquer medida séria para interromper a presença desses órgãos dentro do aparato policial brasileiro.

Dólares, malas e contas de delegados

As investigações de Bob Fernandes mostraram que a dependência não era apenas técnica.

A embaixada dos Estados Unidos colocava dinheiro diretamente à disposição de setores da Polícia Federal.

Documentos publicados em 2002 revelaram depósitos em contas nominais de delegados. Entre 1996 e 1999, cerca de R$2 milhões teriam sido transferidos dessa maneira.

Getúlio Bezerra, que dirigiu a Divisão de Repressão a Entorpecentes, admitiu que a DEA utilizava esse procedimento havia anos.

A questão acabou chegando ao Ministério Público Federal. Uma ação de improbidade aberta em 2004 descreveu a existência de um orçamento paralelo, abastecido com recursos norte-americanos e sem controle regular do Estado brasileiro.

O CDO recebia aproximadamente R$2 milhões por ano. Parte desse dinheiro entrava em espécie, transportado em malas. Os dólares eram trocados em casas de câmbio de Brasília. Antes da abertura de uma conta específica, os recursos chegaram a ser guardados em gavetas dentro da sede da corporação.

Os procuradores responsáveis pela ação falaram na criação de um “governo invisível sob o controle dos EUA”.

O processo atravessou mais de duas décadas sem julgamento.

A diferença de tratamento é gritante. Recursos enviados clandestinamente por uma potência estrangeira para dentro da Polícia Federal não produziram qualquer operação espetacular contra os responsáveis. Já uma investigação sobre R$1,8 milhão em serviços gráficos pagos pelo PCO durante cinco anos terminou com policiais armados dessa mesma corporação arrombando, às 6 horas da manhã, o portão da casa de seu presidente.

“A Polícia Federal é nossa”

Em março de 2004, Bob Fernandes publicou uma longa entrevista com Carlos Alberto Costa, que havia chefiado o FBI no Brasil durante quatro anos.

Costa afirmou que serviços norte-americanos haviam grampeado o Itamaraty e o Palácio da Alvorada. Ao falar da PF, declarou abertamente que a polícia brasileira trabalhava havia anos para os Estados Unidos e que aquela influência havia custado alguns milhões de dólares.

O antigo chefe do FBI contou ainda que existiam programas voltados para influenciar a imprensa brasileira e disse que, após os atentados de 11 de setembro de 2001, houve determinação para monitorar mesquitas, xeques e dirigentes muçulmanos no Brasil.

A revista também publicou os nomes de agentes norte-americanos que trabalhavam no País sob cobertura diplomática. O chefe da CIA aparecia oficialmente como “conselheiro” da embaixada. Integrantes da DEA, do FBI e de outros órgãos utilizavam títulos semelhantes.

As denúncias foram confirmadas por integrantes da própria Polícia Federal.

Os delegados José Roberto Benedito Pereira e Rômulo Fish de Bêrredo Menezes relataram a existência de um setor da corporação estreitamente ligado à CIA. Bêrredo, que havia sido corregedor da PF, registrou em relatório oficial a utilização de dinheiro norte-americano sem acordo legal que desse cobertura ao procedimento.

Pereira contou posteriormente que agentes dos Estados Unidos podiam entrar nas instalações do CDO, retirar carros e participar de operações sem prestar contas às autoridades brasileiras.

Aquilo que aparecia publicamente como parceria entre instituições era, na prática, uma penetração direta dos serviços norte-americanos na estrutura policial do País.

Lava Jato levou a relação adiante

As revelações do início dos anos 2000 não produziram uma ruptura.

Quando a Lava Jato começou, os vínculos já estavam suficientemente consolidados para permitir uma cooperação direta entre investigadores brasileiros e norte-americanos em alguns dos processos politicamente mais importantes da história recente do País.

A partir dos documentos da Vaza Jato e de outras investigações jornalísticas, foram identificados pelo menos 12 agentes do FBI envolvidos em casos relacionados à operação.

Entre eles estava Leslie Backschies, agente fluente em português que atuava na América Latina e passou a auxiliar as investigações brasileiras em 2014.

Em outubro de 2015, Backschies integrou uma comitiva de 18 agentes dos Estados Unidos que foi a Curitiba encontrar-se com procuradores e advogados de delatores.

A visita não passou pelos canais regulares do Ministério da Justiça. O setor responsável pela cooperação jurídica internacional tomou conhecimento do encontro por intermédio do Itamaraty e teve de pedir esclarecimentos.

A exclusão do governo brasileiro não ocorreu por descuido.

Em fevereiro de 2016, Deltan Dallagnol procurou encaminhar diretamente aos Estados Unidos uma solicitação relacionada à extradição de um investigado. Advertido de que o tratado bilateral exigia a participação da Procuradoria-Geral da República e do Ministério da Justiça, manifestou resistência a utilizar o Executivo.

Os diálogos revelados posteriormente indicaram que policiais federais compartilhavam dessa posição.

O governo que os investigadores procuravam contornar era o de Dilma Rousseff.

A Polícia Federal e o Ministério Público mantinham, portanto, relações diretas com órgãos de outro país enquanto evitavam a fiscalização do próprio governo brasileiro.

O FBI e o caso usado contra Lula

Essa colaboração alcançou investigações diretamente relacionadas a Lula.

Antes da Operação Triplo X, ligada ao apartamento do Guarujá, o FBI já havia procurado a Polícia Federal. Houve compartilhamento de informações com autorização da força-tarefa, sem utilização inicial dos canais oficiais de cooperação.

A formalização pelo Ministério da Justiça só aconteceu posteriormente.

Com a Odebrecht, o procedimento foi semelhante. Em 2016, a força-tarefa pediu ao FBI ajuda para quebrar a criptografia dos sistemas MyWebDay e Drousys, antes de recebê-los oficialmente por meio do acordo de leniência.

Os dispositivos chegaram a ser enviados aos Estados Unidos.

Naquele período, o FBI já conhecia profundamente as investigações brasileiras. Ao mesmo tempo, empresas estratégicas do País eram submetidas a processos e multas bilionárias pelas autoridades norte-americanas.

O resultado político da Lava Jato é conhecido.

Em 4 de março de 2016, cerca de 200 policiais federais e 30 auditores da Receita participaram da Operação Aletheia. Lula foi submetido a uma condução coercitiva apesar de nunca ter se recusado a depor.

A imprensa estava de prontidão.

Doze dias depois, uma conversa entre Lula e Dilma Rousseff, interceptada pela Polícia Federal, foi divulgada publicamente em meio à crise que levaria ao golpe contra a presidenta.

A Lava Jato foi decisiva para desorganizar o PT, aprofundar a ofensiva pelo golpe de 2016, retirar Lula das eleições de 2018 e abrir caminho para Jair Bolsonaro.

As imagens gravadas durante a própria condução coercitiva de Lula acabariam aproveitadas no filme Polícia Federal: A Lei é Para Todos, uma peça de propaganda da operação cujos financiadores nunca foram devidamente esclarecidos.

Sergio Moro, depois de entrar no governo Bolsonaro como ministro da Justiça, foi aos Estados Unidos, visitou instalações da DEA e passou pelo centro de treinamento do FBI na Virgínia.

A velha ligação apenas assumira novas formas.

Do FBI ao Mossad

Nos últimos anos, a colaboração estrangeira apareceu de maneira particularmente clara nas investigações classificadas como de combate ao terrorismo.

A Operação Trapiche, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2023 contra uma suposta célula do Hesbolá no Brasil, teve origem em informações do escritório do FBI instalado na Embaixada dos Estados Unidos.

Depois da operação, o próprio gabinete de Benjamin Netaniahu confirmou a participação do Mossad.

Segundo informações divulgadas à época, o Itamaraty não havia sido previamente informado da atuação desses serviços na investigação.

A política externa brasileira era colocada diante de um fato consumado por sua própria polícia.

Outros casos seguiram o mesmo caminho.

Em abril de 2025, uma operação da PF contra um estudante de 19 anos começou a partir de relatório do FBI sobre suas comunicações em fóruns e redes sociais.

Em janeiro de 2026, a corporação informou que a prisão de um homem em Bauru, sob acusação de atos preparatórios de terrorismo, havia ocorrido “com apoio do FBI”.

A presença norte-americana chegou ainda às polícias civis. Investigações recentes receberam informações da Homeland Security Investigations, ligada ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, além de relatórios produzidos por agências cuja identidade sequer foi revelada.

Serviços estrangeiros monitoram cidadãos brasileiros, produzem informações e as entregam às autoridades locais, que passam então a executar prisões, buscas e processos.

Uma polícia para defender a “ordem política”

A facilidade com que a PF assume esse papel não surgiu por acaso.

Durante a ditadura militar, a corporação possuía estruturas voltadas diretamente à repressão política e à censura.

A Divisão de Ordem Política e Social (DOPS) desapareceu do organograma depois do regime militar, mas a própria Constituição de 1988 preservou à Polícia Federal a atribuição de investigar infrações contra a “ordem política e social”.

A função de polícia política permaneceu.

Também permaneceu, sob diferentes nomes, a estrutura formada durante os anos de estreita colaboração com a CIA. O aparato que passou pelo CDO e por outras siglas desembocou na atual Divisão Antiterrorismo.

A acusação de terrorismo transformou-se, por sua vez, em instrumento cada vez mais utilizado para investigações de natureza política.

O PCO já foi diretamente atingido por isso.

Rui Costa Pimenta e outros dirigentes foram chamados a depor por causa das posições do Partido em defesa da resistência palestina. O Ministério Público abriu diferentes investigações envolvendo acusações de racismo, terrorismo e manifestações políticas do PCO.

A invasão da casa de seu presidente aparece agora como mais um capítulo dessa perseguição.

Lula fortalece a corporação que o perseguiu

Apesar de toda essa experiência, o governo Lula procura ampliar o poder da Polícia Federal.

A PEC da Segurança Pública prevê maior participação da União e reforço das atribuições da PF e da Polícia Rodoviária Federal. Lula também defendeu a criação de uma “guarda nacional de verdade” e uma presença maior do governo federal na segurança pública.

O Programa Brasil Contra o Crime Organizado prevê R$11 bilhões entre investimentos e financiamentos.

Parte da esquerda apresenta essa política como contraponto à extrema-direita, que concentra sua propaganda no fortalecimento das polícias militares.

É um falso contraponto.

As polícias militares são responsáveis pela repressão diária contra a população pobre, especialmente nas periferias. A Polícia Federal possui outro perfil, mas seu histórico está longe de ser progressista: espionagem política, operações espetaculares, colaboração clandestina com serviços estrangeiros e atuação direta em grandes crises do regime.

Há ainda a intenção de aprofundar a cooperação com Washington. O governo Lula pretende tratar da segurança pública com os Estados Unidos por meio de uma comitiva que envolve Ministério da Justiça, Polícia Federal, Receita Federal e Procuradoria-Geral da República.

Foi justamente sob o rótulo da “cooperação” que o FBI ajudou a elaborar a Operação Lava Jato.

Lula pretende fortalecer a corporação que o submeteu a uma condução coercitiva ilegal, participou da interceptação que alimentou a campanha contra Dilma e trabalhou com agentes norte-americanos durante as investigações que antecederam sua prisão.

A experiência deveria levar à conclusão oposta.

Uma ameaça a qualquer setor político

A Polícia Federal não pertence politicamente ao PT, a Lula, a Bolsonaro ou a qualquer governo de turno.

Hoje, seus agentes entram na casa do presidente do PCO. Antes, participaram da perseguição contra Lula. Mais recentemente, foram utilizados contra bolsonaristas. Conforme muda a situação política, muda também o alvo.

O erro é acreditar que o fortalecimento desse aparato será positivo quando ele atinge o adversário e perigoso apenas quando se volta contra os próprios aliados.

As reportagens de Bob Fernandes mostraram uma polícia financiada e aparelhada por CIA, FBI e DEA. A Lava Jato revelou a cooperação clandestina com agentes norte-americanos em investigações farsescas que levaram ao golpe de Estado. A Operação Trapiche expôs a participação do Mossad dentro do Brasil. Casos mais recentes mostram que esses vínculos permanecem ativos.

A operação contra Rui Costa Pimenta não constitui, portanto, um raio em céu azul.

É a atuação de uma corporação que há décadas combina funções de polícia política com estreitas relações com os aparelhos de segurança do imperialismo.

Não há razão para fortalecer uma instituição desse tipo. A Polícia Federal atua contra os direitos democráticos, contra os interesses nacionais e contra o povo brasileiro.

A Polícia Federal precisa acabar.

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