O ator Wagner Moura classificou o cancelamento identitário como um “fascismo de esquerda” durante entrevista ao jornalista Pedro Bial, exibida na terça-feira (4), no programa Conversa com Bial, da Rede Globo.
A declaração foi feita quando Bial mencionou setores da esquerda que passaram a estabelecer quem pode ou não falar sobre determinados assuntos de acordo com sua identidade. Moura concordou com a crítica e afirmou que esse tipo de comportamento seria um “fascismo de esquerda”, justamente por procurar determinar o que pode ser dito e quem teria autorização para dizê-lo.
A declaração chama atenção não porque Wagner Moura seja um político de esquerda particularmente avançado. É justamente o contrário. Trata-se de um ator da Rede Globo, um representante típico da pequena burguesia liberal e da esquerda pequeno-burguesa. Não possui uma política operária ou socialista.
Mesmo assim, Moura conseguiu perceber uma característica cada vez mais evidente do identitarismo: seu caráter profundamente direitista e repressivo.
Censura em nome da esquerda
A expressão “fascismo de esquerda” não constitui uma definição política rigorosa do fascismo. O que Moura identificou, porém, é verdadeiro: em nome de causas supostamente progressistas, setores identitários passaram a defender métodos próprios da extrema-direita.
A ideia de que determinadas pessoas não podem falar sobre determinados assuntos é uma política de censura. O chamado “cancelamento” é uma forma de perseguição contra aqueles que não aceitam as normas estabelecidas pelos identitários. Quando essa política sai das redes sociais e passa para as mãos das grandes empresas, dos tribunais e do Estado, transforma-se diretamente em repressão política.
É o que se vê quando setores da esquerda apoiam a censura nas redes sociais, processos judiciais e medidas estatais contra pessoas por suas opiniões. Sob a desculpa de combater preconceitos ou a extrema-direita, acaba-se fortalecendo justamente os instrumentos de repressão do Estado burguês.
O identitarismo, portanto, não amplia as liberdades democráticas. Pelo contrário, serve ao fechamento do regime político.
E Wagner Moura, apesar de todas as limitações políticas próprias do meio social ao qual pertence, percebeu esse problema.
Crise dentro do próprio público
Esse é o principal significado de sua declaração.
A pequena burguesia liberal sempre foi um dos principais públicos da política identitária. O meio artístico ligado à Globo, sobretudo seus setores considerados de esquerda, representa quase uma caricatura desse ambiente.
Se até dentro desse setor começam a aparecer críticas abertas ao identitarismo, é porque sua crise já atingiu um estágio bastante avançado.
Durante anos, essa orientação foi apresentada como a forma mais moderna e progressista de fazer política. Na realidade, trata-se de uma política promovida pelo imperialismo, por meio de suas fundações, universidades, grandes empresas, monopólios da imprensa e organizações não governamentais.
Seu conteúdo consiste em substituir a luta entre as classes sociais por uma divisão permanente da população segundo raça, sexo, orientação sexual e inúmeras outras identidades. Em vez de organizar os trabalhadores contra a burguesia, fragmenta-se a população em grupos e transforma-se a política numa disputa para estabelecer quem tem ou não direito de falar – e, no final das contas, quem decide é o Estado burguês, adorado pelos identitários.
A crescente rejeição a esse mecanismo mostra que o identitarismo está se esgotando.
A esquerda continua mergulhando na merda
A crise, porém, ainda não foi compreendida pela maior parte da esquerda pequeno-burguesa brasileira.
PSOL, UP, PSTU, PCdoB, PCB e a burocracia do PT continuam aprofundando sua adesão ao identitarismo. Quanto mais essa política se torna impopular, mais esses setores insistem no policiamento da linguagem, nos cancelamentos e na defesa da censura.
Isso acontece porque essa esquerda está profundamente atrelada à burguesia e ao aparato político financiado e controlado pelo imperialismo. Por isso, continua seguindo uma orientação que já começa a provocar repulsa até entre setores da própria pequena burguesia liberal.
Enquanto Wagner Moura, um ator da Globo, percebe que há algo profundamente reacionário nessa política, partidos que se apresentam como socialistas continuam defendendo-a como se fosse uma grande conquista popular.
É uma demonstração do grau de adaptação desses grupos à política imperialista.
Um presente para a extrema-direita
Há ainda outro efeito importante.
Como a maior parte da esquerda abraçou o identitarismo, a crítica a essa política ficou quase inteiramente nas mãos da extrema-direita.
É ela que aparece diante de milhões de pessoas denunciando o cancelamento, o policiamento da linguagem e a censura. Com isso, consegue explorar politicamente uma revolta real contra uma orientação profundamente impopular.
A esquerda pequeno-burguesa presta, assim, um enorme serviço aos seus próprios adversários. Adere a uma política do imperialismo, ajuda a fortalecer os mecanismos repressivos do Estado burguês e ainda entrega à extrema-direita uma bandeira capaz de ampliar sua popularidade.
A fala de Wagner Moura é sintomática justamente por isso. Quando até um representante típico da pequena burguesia liberal ligada à Globo passa a chamar o identitarismo de “fascismo de esquerda”, fica evidente que essa política está entrando em falência.
Os partidos influenciados por George Soros e os banqueiros “democráticos”, no entanto, continuam mergulhando de cabeça numa política imperialista cada vez mais desacreditada e fadada ao fracasso.




