A vitória de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo De La Espriella, na Colômbia, além das eleições de representantes da direita no Chile, no Equador e na Bolívia, no ano passado, deixaram o Brasil mais isolado no cenário político sul-americano. O país figura, ao lado do Uruguai, entre os principais representantes do campo progressista da região.
Determinados líderes incorporam símbolos, discursos e alianças religiosas como instrumentos de legitimação política e de ampliação de suas bases eleitorais.
As notícias recentes apontam nessa direção. Segundo o Brasil 247: “O presidente eleito da Colômbia, Abelardo De La Espriella, reuniu integrantes de seu futuro governo em um retiro espiritual marcado por missas, orações, discursos religiosos e distribuição de Bíblias. O encontro reforça o uso da fé e dos símbolos cristãos como elementos centrais da imagem política construída pelo líder de ultradireita.”
A relação entre religião e poder, entretanto, está longe de ser um fenômeno contemporâneo. Desde a Antiguidade Tardia, governantes e instituições religiosas estabeleceram alianças para fortalecer sua legitimidade mútua. O apoio imperial ao cristianismo após Constantino e a progressiva consolidação da autoridade do bispo de Roma demonstram como interesses políticos e religiosos caminharam lado a lado ao longo da história.
As Cruzadas medievais constituem outro exemplo emblemático. Em nome da defesa da fé cristã, milhares de pessoas morreram em conflitos que também envolveram disputas territoriais, econômicas e geopolíticas. Embora apresentadas como guerras santas, as Cruzadas revelam como a religião pôde ser mobilizada para legitimar projetos de poder, evidenciando que fé e política frequentemente estiveram profundamente entrelaçadas.
Entendida aqui em seu sentido mais nobre como religare — a busca por ligar o ser humano ao divino —, a religião constitui um patrimônio espiritual de enorme relevância social e moral. Ela inspira solidariedade, esperança, compaixão e sentido de pertencimento para milhões de pessoas. Seu valor não reside na utilidade política, mas na capacidade de orientar consciências, promover valores éticos e fortalecer a dignidade humana. A fé não deveria ser reduzida a instrumento de marketing eleitoral ou de conquista do poder, sendo assim, ela deixa de servir ao espírito para servir à conveniência e projeto pessoal de poder.





