O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, denunciou no domingo (2) que os Estados Unidos e “Israel” participaram de uma operação para fraudar a eleição presidencial colombiana e entregar a vitória ao direitista Abelardo de la Espriella. Segundo Petro, os votos efetivamente depositados nas urnas dariam a vitória a Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico, mas um programa de computador israelense teria adulterado até 1.800.000 votos.
A acusação é gravíssima. A diferença oficial entre os dois candidatos ficou em cerca de 250 mil votos. De la Espriella, um capacho do imperialismo, deve tomar posse no dia 7 de agosto. Se a quantidade indicada por Petro for confirmada, ela não apenas mudaria o resultado como revelaria uma operação de proporções inéditas para submeter a Colômbia diretamente aos interesses do imperialismo norte-americano e dos sionistas.
Em publicação na rede X, Petro afirmou que a operação teria sido financiada, de um lado, por dinheiro do narcotráfico de cocaína destinado aos Estados Unidos e, de outro, por recursos da espionagem privada israelense. Empresas privadas responsáveis pela apuração teriam substituído o voto real dos colombianos por um resultado produzido antecipadamente pelo programa.
“Houve uma fraude eleitoral manejada por meio de programas computacionais preestabelecidos para alterar a decisão popular”, declarou o presidente. Petro classificou o caso como uma afronta mundial à democracia e afirmou que o governo de De la Espriella não terá legitimidade popular.
O presidente também relacionou a denúncia à luta contra a recolonização integral do país. Para ele, a interferência estrangeira pretende fazer a Colômbia retornar à condição de vice-reino, negando ao povo o direito de decidir o próprio destino. Diante disso, convocou os colombianos a defender a independência nacional, invocando a espada de Simão Bolívar e as guerras de libertação contra o domínio colonial.
O candidato reconheceu o resultado
Até o momento, Petro não tornou públicas provas capazes de demonstrar a adulteração de 1.800.000 votos. As autoridades eleitorais reconheceram a vitória de De la Espriella, e Iván Cepeda capitulou, aceitando o resultado oficial fraudulento. A aceitação de Cepeda, porém, não responde às perguntas levantadas sobre a entrega de partes decisivas do processo eleitoral a empresas privadas nem apaga os numerosos antecedentes de fraude, compra de votos e falhas de apuração no país.
Também não se pode separar a eleição da intervenção aberta do imperialismo. Donald Trump apoiou De la Espriella, que representa uma aproximação ainda maior da Colômbia com os Estados Unidos e com “Israel”. A burguesia e a oligarquia colombianas querem liquidar os débeis limites impostos por Petro à política norte-americana no país, aprofundar a repressão interna e transformar novamente o território colombiano numa base de operações do imperialismo contra a Venezuela e toda a América Latina.
O apoio dos Estados Unidos ao vencedor, combinado com a participação de empresas privadas estrangeiras em funções fundamentais da eleição, dá conteúdo concreto à denúncia de violação da soberania. Não basta que os capitalistas apresentem uma apuração como “técnica”. Quem controla os programas, a transmissão, a consolidação e a fiscalização dos votos controla os pontos em que a vontade popular pode ser adulterada.
Fraudes não começaram em 2026
A história recente da Colômbia está repleta de casos que demonstram a podridão do regime eleitoral. Nas eleições legislativas de 2018, a então candidata ao Senado Aída Merlano comandou uma estrutura de compra de votos no departamento do Atlântico. A organização usava dinheiro, líderes locais, talonários e até códigos QR para controlar os eleitores comprados. A Corte Suprema colombiana confirmou a condenação e descreveu uma verdadeira empresa criminosa destinada a adulterar a disputa eleitoral.
Na eleição presidencial do mesmo ano, surgiu o escândalo conhecido como Ñeñepolítica. Gravações indicavam uma possível operação de compra de votos na costa do Caribe para favorecer Iván Duque, candidato do setor ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe. As investigações foram arquivadas sem que o funcionamento do esquema eleitoral da direita fosse esclarecido. O arquivamento pelos próprios órgãos do regime está longe de eliminar as suspeitas políticas provocadas pelas gravações.
Em 2022, a eleição para o Congresso produziu outra crise. Segundo a Missão de Observação Eleitoral, a diferença entre a contagem preliminar e a apuração oficial chegou a 1.024.634 votos para o Senado. Centenas de milhares de votos do Pacto Histórico apareceram apenas na apuração oficial, alterando a distribuição das cadeiras. Além de indicar uma fraude, a divergência mostrou que o sistema era incapaz de oferecer uma contagem preliminar confiável e abriu uma crise nacional de confiança na autoridade eleitoral.
Portanto, a denúncia de Petro não surge no vazio. Compra de votos, financiamento pelo narcotráfico, pressão sobre eleitores, programas privados sem fiscalização popular e diferenças enormes entre contagens fazem parte do funcionamento eleitoral colombiano há muitos anos. O escândalo de 2026 seria uma nova etapa: a intervenção direta de empresas ligadas a uma potência estrangeira para decidir quem governa o país.
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Um método aplicado em toda a América Latina
O problema não se limita à Colômbia. Em todos os países da América Latina, com formas e intensidades diferentes, a burguesia e o imperialismo procuram impedir que o voto popular contrarie os interesses dos grandes capitalistas. Quando não conseguem vencer normalmente, recorrem à compra de votos, à proibição de candidaturas, ao controle da imprensa, à perseguição judicial, à chantagem econômica e à manipulação das urnas.
Em Honduras, os Estados Unidos reconheceram em 2017 a reeleição de Juan Orlando Hernández mesmo depois de irregularidades tão graves que a Organização dos Estados Americanos pediu uma nova eleição. Washington felicitou oficialmente Hernández, aliado do imperialismo e posteriormente condenado nos próprios Estados Unidos por narcotráfico. Em 2025, Trump voltou a intervir abertamente na eleição hondurenha, apoiando o direitista Nasry Asfura e ameaçando cortar a ajuda ao país caso seu candidato não vencesse. A apuração terminou sob denúncias de fraude e com milhares de atas inconsistentes.
Na Bolívia, em 2019, uma acusação de fraude da Organização dos Estados Americanos, depois contestada por análises independentes, serviu de pretexto para o golpe militar contra Evo Morales. No Brasil, durante o segundo turno de 2022, a Polícia Rodoviária Federal realizou mais de 500 operações nas estradas, concentradas sobretudo no Nordeste e denunciadas como uma tentativa de dificultar o deslocamento de eleitores de Lula. Em um caso, o imperialismo usa a acusação de fraude para derrubar um governo; em outro, seus aliados usam o aparelho estatal e os pontos frágeis da eleição para deformar a vontade popular.
As eleições latino-americanas não ocorrem num terreno livre. Bancos, monopólios, grandes proprietários, imprensa capitalista, serviços de espionagem e embaixadas estrangeiras dispõem de recursos muito superiores aos dos trabalhadores. A “democracia” admitida pelo imperialismo vale apenas enquanto produz o candidato desejado pelos banqueiros.





