Ao defender a participação de alguns candidatos de esquerda nos debates eleitorais e excluir o Partido da Causa Operária (PCO), Jones Manoel adotou a regra das instituições burguesas segundo a qual “você não tem que ser democrático, tem que proteger os amigos”. A crítica foi feita pelo presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, no programa Análise da 3ª dessa terça-feira (4), transmitido pela Rádio Causa Operária.
Jones publicou um vídeo em defesa da presença de candidatos do PCB e do PSTU nos debates. Depois de ser questionado por não mencionar o PCO, declarou que a organização não seria um partido de esquerda, mas uma “seita imbecil”, e que, por esse motivo, não defenderia sua participação. Para Pimenta, a posição inverte o problema: o debate eleitoral não é uma recompensa concedida aos candidatos considerados bons por Jones ou pelas emissoras, mas um direito político do eleitorado.
“Para nós, a questão é muito simples: achamos que todo mundo tem que participar do debate. Não porque estamos defendendo o nosso peixe, mas porque é uma questão política que pessoas como Jones Manoel não entendem. Em um sistema eleitoral representativo, defendemos, em primeiro lugar, o direito do eleitor, os direitos democráticos do povo. O povo deveria conhecer todos os candidatos e, então, tomar uma decisão. Esse negócio de que o candidato A tem que participar porque é maravilhoso, mas o candidato B não deve participar porque é ruim, é uma política totalmente fisiológica, um primitivismo político. É uma coisa que você esperaria de uma pessoa de extrema direita, não de uma pessoa de esquerda.”
O dirigente acrescentou que o veto pretendido por Jones seria arbitrário mesmo que ele tivesse poder para aplicá-lo. O critério da afinidade política permitiria a qualquer emissora ou autoridade afastar candidatos com base em uma opinião particular. O direito democrático desapareceria e seria substituído pela escolha dos “amigos” autorizados a falar.
Segundo Pimenta, os partidos apresentados por Jones como “revolucionários” são justamente aqueles que se adaptaram à política do imperialismo e às coligações com partidos burgueses. Ele destacou que o PSOL, partido de Jones, integra frentes com o PSB e participa do governo do PT. Recordou também a aliança feita com Tábata Amaral, que é sionista e funcionária de Jorge Paulo Lemann.
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“Na realidade, quando ele fala que a esquerda que chama de revolucionária tem que participar do debate, é porque esses são os amigos dele, são os partidos identitários. O PCO não é identitário, logicamente. Esse negócio de seita faz muito tempo que falam do PCO. É uma acusação introduzida por elementos direitistas. Querem dizer que você tem uma posição muito de esquerda e, portanto, é uma seita. Sectário, em geral, significaria não ter flexibilidade na ação política. Logicamente, considerando que o partido de Jones Manoel, o PSOL, está em uma frente com Tábata Amaral, que é sionista, realmente não temos esse tipo de flexibilidade. Estamos mais perto de Breno Altman, que falou que o sionismo é uma linha vermelha. Jones Manoel está aliado com o PSB. Não venham dizer que ele não está, porque é muita duplicidade. O PSOL está no governo do PT e vai continuar no governo do PT.”
Pimenta atribuiu os ataques de Jones ao incômodo provocado pelas críticas políticas do PCO. Entre elas, citou a apresentação das organizações não governamentais financiadas pelo capital imperialista como entidades filantrópicas. O presidente do partido recordou o papel do especulador Jorge Soros no financiamento de operações políticas dos Estados Unidos em diversos países e rejeitou a ideia de que a distribuição desses recursos tenha fins humanitários.
Outro ponto criticado foi a oposição de Jones à defesa do armamento da população. Para Pimenta, alguém que se apresenta como revolucionário não pode tratar como “coisa de otário” a luta para que o povo tenha armas. Deixar o problema para o momento em que uma revolução já tenha começado seria uma posição social-democrata, incompatível com a apresentação de Jones como marxista.
“Toda vez que ouço Jones Manoel falar alguma coisa, é alguma coisa desse tipo. O problema é que ele não aguenta as críticas. E está certo de não aguentar, porque não tem como responder. Ele é um revolucionário de salão, e é isso que estamos desmascarando. Acho, por exemplo, que Lula é uma pessoa bem mais honesta do que ele, porque Lula fala que não é a favor da revolução. Se você vai apoiar a política de Lula, tem que saber disso, porque ele já falou, preto no branco, que não é a favor da revolução. Mas aí vem uma pessoa que é um revolucionário de salão, que não é a favor de revolução nenhuma, quer se passar por revolucionário e enganar as pessoas. É uma farsa, e nós denunciamos essa farsa.”
Para o presidente do PCO, a acusação de que o partido seria uma “seita” não possui conteúdo político e serve apenas para evitar a discussão das divergências. Pimenta chamou Jones de “ignorante” e afirmou que suas declarações sobre o marxismo são contraditórias. Também rejeitou a pretensão de usar a opinião da maioria da esquerda brasileira como prova contra o PCO. Grande parte dessa esquerda, observou, adotou a política do Partido Democrata dos Estados Unidos, abandonou o combate ao imperialismo e se integrou aos governos e às coligações da burguesia.
A polêmica levou à discussão sobre o apoio de Jones a Lula e a acusação de que o PCO teria se tornado “antipetista” por lançar candidatura própria em 2026. Pimenta afirmou que apoiar Lula neste momento não significa estar à esquerda. A frente eleitoral montada pelo PT é muito diferente daquela de 2022 e deu posição de destaque ao PSB, partido que reúne políticos da direita, sionistas, representantes do grande capital e participantes do golpe de 2016.
Pimenta citou Eduardo Paes no Rio de Janeiro e afirmou que o PSB possui hoje mais peso na frente petista do que PSOL, PCdoB, Partido Verde e Rede. O apoio do PCO a Lula em 2018 e 2022, explicou, foi uma medida excepcional diante do golpe de Estado, da prisão do ex-presidente e da cassação de seus direitos políticos. Quatro anos depois, os golpistas estão instalados no governo e assumiram papel ainda maior na coligação eleitoral.
“Os petistas precisam perder a ideia de que nós temos obrigação de apoiar o PT. Não temos. Na eleição passada, fizemos uma coisa extraordinária: apoiar a chapa Lula-Alckmin. Tapamos o nariz e fomos apoiar aquilo, que já era em si uma política criminosa, porque achávamos que a situação política exigia esse apoio. Agora, não achamos. O governo Lula foi um governo de censura, repressão e perseguição política contra a extrema direita, e nós não somos favoráveis a nada disso. É a maior demonstração de uma política não sectária: apoiamos Lula naquela situação.”
O ato eleitoral realizado pelo PT no domingo (2) foi apontado como uma demonstração da mudança. Pimenta chamou atenção para a presença de Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Soraya Thronicke e outros políticos ligados à direita. A declaração de Tebet de que “uma vez golpista, sempre golpista” expôs a contradição de um palanque que pretende falar em democracia enquanto incorpora participantes do golpe contra Dilma Rousseff.
“A presença de Alckmin, que já era ruim na eleição passada, agora tem outro caráter. Acho que o PSB entra na coligação como representante direto do grande capital. Depois há a coisa grotesca. Simone Tebet discursando e falando que ‘uma vez golpista, sempre golpista’ é um desses casos, porque ela é golpista de 2016. Isso é uma indicação de que o governo do PT está recheado de golpistas. Já estava Alckmin, mas agora você tem um partido golpista, o PSB, que é uma espécie de recriação parcial do PSDB.”
Rui Costa Pimenta comentou ainda a intervenção de Rosângela da Silva, a Janja, durante o discurso de Lula. A primeira-dama interrompeu o presidente quando ele falava sobre a gravidez precoce para dizer que as meninas deveriam engravidar “quando quiserem”. Para Pimenta, além de introduzir uma fórmula identitária sem sentido na discussão de um problema social, a correção pública desmoralizou Lula. Ele destacou que a posição ocupada por Janja no PT decorre de seu casamento com o presidente, não da direção de um movimento operário ou de outro setor organizado da população. Ela não é nenhuma liderança de massas, Lula sim.
O programa tratou também da crise econômica e política da Alemanha. Segundo os dados apresentados pelo jornalista João Pimenta, o país perdeu cerca de 17% de sua produção industrial em 10 anos. Paralelamente, o governo anunciou mais de US$100 bilhões para o armamento, uma parte destinada à Ucrânia. Rui Pimenta afirmou que a guerra agravou a decadência da economia europeia, atingida pela redução de suas possibilidades comerciais e pela concorrência chinesa.
O armamentismo, explicou, cumpre duas funções. A primeira é preparar as potências imperialistas para uma guerra de grandes proporções. A segunda é oferecer uma saída capitalista para a crise de superprodução. Ao contrário de máquinas e outros bens que permanecem em uso por anos, as armas são consumidas e destruídas na guerra, permitindo que a indústria receba novas encomendas do Estado.
O rearmamento alemão seria, assim, uma “via de saída para o capitalismo através da catástrofe social”. O inglês Financial Times já defende abertamente a redução dos benefícios sociais europeus para custear a indústria bélica. Pimenta ressaltou, porém, que a destruição dessas conquistas começou muito antes da guerra da Ucrânia.
“O fim do Estado de bem-estar social já tinha sido anunciado pelo amplo desenvolvimento da política neoliberal. Uma das características fundamentais dessa política era acabar com o Estado de bem-estar social implantado no final da guerra. Ele não é uma coisa natural, mas uma peculiaridade de uma determinada situação política. A situação mundial no final da guerra era revolucionária. A classe operária dos países europeus estava muito bem organizada e poderia ter tomado o poder em países como Alemanha, Itália e França; não tomou, em grande medida, devido à política do stalinismo. O neoliberalismo veio para acabar com essa política social e vem acabando. O que acontece é que eles ainda não conseguiram dar um golpe mortal nas principais conquistas: aposentadoria, saúde e educação.”
Os capitalistas, prosseguiu, já não querem manter o sistema de concessões sociais estabelecido depois da Segunda Guerra Mundial. Pretendem retirar dinheiro dos serviços públicos e transferi-lo aos bancos e às grandes indústrias, inclusive mediante a privatização da saúde. O obstáculo é a classe operária alemã, ainda numerosa e poderosa. “À medida que isso vai caindo aos pedaços, o grande problema é que a classe operária pode entrar em ação e desestabilizar completamente o regime político”, declarou.
A possibilidade de mobilização dos trabalhadores ajuda a explicar as medidas ditatoriais adotadas na Alemanha. Autoridades eleitorais procuram impedir candidaturas da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita que pode vencer eleições regionais na Baixa Saxônia, sob a alegação de que seus integrantes não seriam leais à Constituição. O documento usado nessa operação inclui ainda organizações comunistas, movimentos curdos e agrupamentos estrangeiros entre os “extremistas” que devem ser perseguidos.
“Isso explica, para quem quiser ouvir, por que não somos favoráveis à perseguição à extrema direita. A perseguição à extrema direita é só um episódio para a perseguição à esquerda. Como a burguesia alemã é mais consciente e profundamente reacionária do que a burguesia brasileira, eles já incluíram a esquerda toda no crime. No Brasil, a esquerda ainda não está sendo atingida explicitamente, mas está potencialmente ameaçada. Isso é uma espécie de segunda Constituição. A Constituição não fala que você tem de concordar com ela. Constituição não é um dogma, é uma lei aprovada. Você pode discordar. É uma característica do regime democrático que a lei possa ser modificada.”
Para Pimenta, o critério estabelece o crime de opinião: candidatos são punidos não por uma ação concreta, mas por defenderem mudanças na lei, na Constituição ou no próprio regime político. A lista chega a apresentar o antissionismo como uma ameaça constitucional. A classe média pode apoiar a perseguição sob o pretexto de combater o fascismo, mas a burguesia pode, em outra etapa, converter os fascistas em defensores da ordem e dirigir a repressão contra os trabalhadores.
Em resposta a outras perguntas, o dirigente aconselhou cautela diante das notícias da imprensa capitalista sobre um suposto desarmamento do Hamas. Declarações de Donald Trump e Marco Rubio, representantes do imperialismo norte-americano, são reproduzidas como se fossem fatos. Segundo Pimenta, o Hamas não concordou em entregar suas armas. A proposta mencionada consiste em recolher o armamento pesado sob o controle de uma autoridade palestina independente, somente depois da retirada total dos sionistas da Faixa de Gaza e do cumprimento das outras condições de um acordo.
Sobre a Venezuela, afirmou que a natureza de um regime deve ser determinada pelas relações entre as classes sociais, e não por episódios isolados ou pelas proclamações da imprensa. Seria necessário demonstrar que o governo bolivariano deixou de expressar o conflito de um setor da pequena burguesia, apoiado por um vasto movimento popular, contra o imperialismo. Anunciar antecipadamente que o país passou ao controle dos Estados Unidos ajudaria a preparar a justificativa para uma nova agressão imperialista.
Na parte final, os apresentadores denunciaram as manobras do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo para impedir a regularização do diretório estadual do PCO em plena eleição. Mesmo após o pagamento de uma multa referente à prestação de contas de 10 anos atrás, o processo foi paralisado por novas exigências e remetido sucessivamente a outros órgãos. Para Rui Costa Pimenta, a demora não pode ser atribuída a um problema burocrático comum:
“Não tem outra explicação: é uma perseguição política. É uma perseguição sorrateira, mas é uma perseguição. Eles já deveriam ter liberado o diretório e acabado com a suspensão. Segurar a suspensão em plena época eleitoral, quando está tudo regularizado, é perseguição evidente. Lançar candidatos é um direito do partido. Nem deveria existir suspensão de diretório. A ingerência do tribunal eleitoral nos partidos já é muito grande. Neste caso, mesmo com toda essa ingerência, fizemos tudo o que era requerido e não querem liberar o diretório para lançar candidato.”





