Causa Operária TV

Zona do Agrião volta à COTV com crise na FIFA e denúncia do VAR

Programa esportivo retorna às segundas-feiras, às 12h, com debates sobre a disputa pelo controle da FIFA, a arbitragem no futebol brasileiro e a campanha contra o futebol nacional

O Na Zona do Agrião voltou à programação da Causa Operária TV (COTV) nesta segunda-feira (3). Apresentado por Henrique Áreas, com Henrique Simonard e Juca Simonard, o programa será transmitido todas as segundas-feiras, às 12h.

Na edição de retorno, o principal debate foi a crise na FIFA provocada pelo vazamento de um projeto para permitir a entrada de investidores privados nos negócios da entidade, a reação das federações europeias e o uso do VAR e do impedimento semiautomático. Também foram discutidas a arbitragem no futebol brasileiro e a campanha da imprensa contra o futebol nacional após a Copa do Mundo de 2026.

Áreas anunciou ainda que a revista Zona do Agrião deverá voltar a circular em breve e divulgou o livro A evolução do futebol brasileiro através das copas, de Juca Simonard, publicado pela Editora Democritos.

A partir da próxima edição, o programa terá dois novos quadros. Um deles será dedicado a jogadas de Pelé e outros grandes lances do futebol brasileiro, inclusive enviados pelos espectadores. O segundo contará a história de jogadores brasileiros pouco lembrados pela imprensa esportiva.

“Você, telespectador, que sabe que o futebol brasileiro não morreu, mande para a gente os lances mais bonitos do Pelé, o rei do futebol, e também mande lances bonitos do futebol brasileiro. Pode ser recente, pode ser antigo, pode ser de dez anos atrás, um ano atrás, pode ser da semana também”, afirmou Henrique Simonard.

O outro quadro procurará recuperar jogadores que tiveram papel importante no futebol nacional, mas acabaram esquecidos.

“O futebol brasileiro tem mais de 200 mil jogadores que dão de dez a zero na maioria dos jogadores que jogam na Europa. E muitos jogadores esquecidos. Então, se você tem um jogador que sabe que é desprezado pela imprensa, ignorado, foi abandonado ou o pessoal não dá a devida importância, manda para a gente. A gente vai passar aqui no programa, vai falar um pouco da história dele, mostrar alguns lances, se tiver na Internet, e, se não tiver, a gente vai se contentar em narrá-los aqui, para honrar um pouco essa história do futebol.”

Crise na FIFA

O primeiro tema foi a disputa entre a FIFA e as federações continentais, principalmente a UEFA. O estopim foi o vazamento de informações sobre o FIFA Forward Enterprise (FFE), projeto que abriria espaço para investidores privados em parte dos direitos comerciais ligados à Copa do Mundo e a outras competições.

A UEFA tomou a dianteira contra a proposta e foi acompanhada por federações de outros continentes. Segundo o programa, houve ameaça de boicote às competições da FIFA caso o projeto não fosse abandonado, o que levou Gianni Infantino a recuar.

Juca Simonard relacionou o conflito atual ao FIFA Gate, desencadeado há cerca de dez anos contra dirigentes da FIFA e da CBF.

Ele lembrou que, durante um longo período, a direção da FIFA se apoiou numa aliança entre setores tradicionais do futebol europeu e dirigentes ligados a João Havelange. Foi nesse período que quatro Copas seguidas foram realizadas fora do eixo tradicional das grandes potências ocidentais: África do Sul, em 2010; Brasil, em 2014; Rússia, em 2018; e Catar, em 2022.

“Isso levou a um verdadeiro golpe de Estado, liderado principalmente pelos Estados Unidos. Inclusive, não é por acaso que a Copa no Catar foi tão questionada, até com documentário na Netflix falando da corrupção para comprar os votos para fazer a Copa no Catar e tudo mais. Corrupção existe, mas isso é um instrumento político. É como se os norte-americanos não tivessem feito nada para conseguir a Copa agora no país deles. Isso levou ao que ficou conhecido como FIFA Gate. O FIFA Gate foi um processo movido pelo FBI, pela Justiça suíça, contra os principais dirigentes da FIFA e também, aqui no Brasil, contra dirigentes da CBF. Esse processo foi feito pelos norte-americanos e por alguns setores do futebol europeu justamente para tirar do poder os setores que controlavam a FIFA até então.”

Juca destacou que a chegada de Infantino marcou uma nova etapa. A Copa de 2018, primeira disputada sob sua presidência, foi também a primeira com o VAR.

“Infantino atua meio que como representante dos interesses norte-americanos no futebol”, afirmou. O conflito atual mostraria que setores europeus que participaram da derrubada da antiga direção agora veem seus próprios interesses ameaçados.

“Estamos vendo agora uma briga política envolvendo os dois principais setores do imperialismo mundial: um que não tem muita tradição no futebol, os Estados Unidos, e outro que, nesse sentido, é bem mais tradicional no esporte, que é a Europa”, disse.

Copa aprofundou a briga

Henrique Áreas ressaltou que a crise não começou com o projeto empresarial. A Copa do Mundo de 2026 já havia exposto um grande descontentamento das federações europeias com a condução da FIFA, particularmente com a arbitragem e o tratamento dado à Argentina.

“A crise recente começou, de fato, na Copa do Mundo. Deu para ver que as federações europeias estavam muito, mas muito descontentes com o tratamento que foi dado para elas em relação à Argentina. Ficou claro que teve um favorecimento grande da Argentina na Copa, até para favorecer os Estados Unidos, país onde o Messi joga. E se gerou um escândalo muito grande. Tanto é que essa informação da criação do FFE foi vazada, ela não tinha sido lançada ao público ainda. Então teve toda uma operação para vazar essa informação. A UEFA se pronunciou em tempo recorde e praticamente todas as federações, de todos os continentes, se posicionaram em questão de dias.”

Áreas lembrou que jornalistas de diferentes países já passaram a defender publicamente a saída de Infantino, sinal de que a crise pode chegar ao próprio comando da FIFA.

Apesar da eliminação brasileira, o apresentador avaliou que a Copa produziu um resultado importante ao expor o funcionamento da entidade e a campanha contra o futebol brasileiro.

“Ficou exposta a farsa que é a seleção argentina, a farsa que é a FIFA, a campanha que existe contra o futebol brasileiro e a campanha a favor do futebol argentino. E isso fez com que toda essa crise explodisse agora”, afirmou.

Henrique Simonard acrescentou que, em Copas anteriores, denúncias de manipulação eram facilmente descartadas como “teoria da conspiração”. Em 2026, porém, a quantidade de casos teria tornado a situação muito mais difícil de esconder.

Ele afirmou ainda que o escândalo prejudicou a campanha construída durante anos em torno de Lionel Messi. “Nessa Copa, com os escândalos, eles conseguiram destruir tudo o que demoraram dez anos para fazer”, declarou.

A divisão entre os dirigentes do futebol internacional, na avaliação de Simonard, pode reduzir sua capacidade de controlar a situação.

“Quando você tem uma crise por cima, você tem uma chance de pegar uma brecha. Eles têm uma briga lá, têm mais dificuldade de controlar. Não sei como vai ser, mas quem sabe”, afirmou.

Impedimento semiautomático começa com polêmica

Com a retomada das competições brasileiras depois da Copa, o programa passou à estreia do impedimento semiautomático no País.

Juca Simonard criticou o critério que transforma diferenças praticamente invisíveis em impedimento. “Se você tem uma molécula à frente da linha de impedimento, está impedido. Eu acho particularmente um absurdo”, afirmou.

A discussão também atingiu as imagens tridimensionais produzidas pelo sistema. Como um impedimento pode ser decidido pela ponta de uma chuteira, Henrique Simonard questionou o grau de precisão desses modelos.

“Eles sabem quanto calça o jogador? No modelo 3D ele calça 41, 40 ou 42? Porque faz diferença para a ponta da chuteira passar pela linha de impedimento”, ironizou.

Juca criticou a ideia de que a tecnologia, por si só, eliminaria as fraudes.

“Essa tecnologia que supostamente todo mundo fala que chegou para ajudar, na verdade serve justamente para justificar a manipulação. E não é por causa disso que vai parar de ter roubo, muito pelo contrário. O que eu quero colocar em questionamento é a tecnologia em si. A gente viu, por exemplo, esse chip da bola da Copa do Mundo. O mesmo chip que sentiu o fio do cabelo de um jogador para marcar um impedimento não sentiu quando a bola bateu em um jogador em outro lance. Então são coisas muito esquisitas que acontecem. Com todo esse negócio de que a tecnologia vai ajudar, na verdade estão facilitando a fraude e escondendo muito melhor do que antes.”

‘O VAR é o vídeo para arrumar o resultado’

Henrique Simonard afirmou que o problema central do VAR não é apenas a correção ou o erro de determinada marcação. O sistema permite que uma equipe fora de campo escolha quais jogadas serão revisadas e quais imagens serão apresentadas ao árbitro.

“O VAR é o vídeo para arrumar o resultado. Tem um cara lá que vai decidir acima do jogo, um cara que não está dentro do jogo, que é diferente do árbitro. Ele vai friamente olhar e decidir o que deve acontecer ou não. Se ele olhar e falar: ‘teve um gol aqui do time X que eu acho que pode estar impedido’, ele chama e força a barra. Se tiver uma molécula impedida, está impedido. Quem vai contestar? Mas você pode ter um outro time que faz um gol do mesmo jeito e o VAR não decide chamar, porque, afinal de contas, quem vai saber a olho nu se tem uma molécula na frente ou não?”

A discussão, portanto, não deveria se limitar à pergunta sobre se havia alguns milímetros de impedimento, mas a quem decide quais jogadas serão submetidas a esse nível de escrutínio.

“O problema é a decisão lá em cima do que você apita ou não. Quem decide o que vai ser apitado é o cara lá em cima. Então você para o jogo na hora que quiser”, disse.

Simonard também destacou a diferença entre o árbitro de campo e a cabine do VAR. Dentro do gramado, o juiz está sujeito à pressão dos jogadores, da torcida e do andamento da partida. A equipe de vídeo, ao contrário, atua fora dessa dinâmica.

Como alternativa, citou mecanismos que permitam fiscalizar o funcionamento da tecnologia, como a abertura dos dados para auditoria pública ou a presença de representantes das equipes na cabine.

“Você disponibiliza o resultado para qualquer um ver na Internet. Se o chip tremeu na hora em que bateu no cabelo do jogador, você pode conferir. Outra maneira seria ter um representante dos times também na cabine do VAR. Tem várias maneiras de fazer, mas o fato é que neste momento o futebol é um dos negócios mais manipulados que tem”, declarou.

Regras abrem margem para interpretação

Juca Simonard chamou atenção também para as mudanças nas próprias regras do futebol. Ao mesmo tempo em que o VAR ampliou o poder de intervenção externa, várias situações passaram a depender cada vez mais da interpretação do árbitro.

“Antigamente, mão dentro da área era pênalti. Agora você tem mão de apoio, mão de não sei o quê, vale, mas às vezes não vale. Finalmente o juiz vai decidir se é pênalti ou não. E a mesma coisa com falta. Tudo está virando lance interpretativo”, afirmou.

Ele citou como exemplo a expulsão de Adryelson no jogo entre Botafogo e Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro de 2023. A equipe do VAR, lembrou, escolhe quais ângulos serão enviados ao juiz.

“O VAR pode simplesmente decidir mostrar o ângulo que ele quiser. Ele determina qual imagem, das várias câmeras que tem, vai mandar para o árbitro. A segunda coisa é: vamos dizer que fosse falta. Era o último homem, só que ele estava correndo pelo lado. Poderia ser cartão amarelo, mas ele deu vermelho. Aí entra a interpretação. Você pode inventar que um lance foi falta e um lance igualzinho, no mesmo jogo ou em outro jogo, não foi falta. Essas mudanças de regra para ficar tudo cada vez mais interpretativo também passaram a ocorrer nessa época. Isso favorece a manipulação.”

Flamengo muda o discurso

O programa também comentou uma nota publicada pelo Flamengo no sábado (1º), na qual o clube questionou a arbitragem brasileira e apontou números que indicariam favorecimento ao Palmeiras.

O texto citou levantamento do Espião Estatístico, do portal GE. De acordo com os números apresentados pelo Flamengo, desde 2020 até o Campeonato Brasileiro de 2026 o Palmeiras acumulou 65 decisões do VAR alteradas a seu favor e 47 contrárias, saldo positivo de 18.

A nota apresentou ainda dados disciplinares. Segundo o clube carioca, o Palmeiras é a quinta equipe que mais precisa cometer faltas para receber um cartão amarelo, com média de 6,72 faltas por advertência.

Henrique Áreas lembrou que o Flamengo havia adotado outra postura quando John Textor, proprietário do Botafogo, apresentou denúncias sobre a arbitragem brasileira dois anos antes.

“É irônico essa nota vir do Flamengo e é irônico essa nota vir agora, dois anos depois da denúncia que fez o John Textor, com base nos mesmos dados e nos mesmos números, quando o Flamengo foi contra”, comentou.

Juca observou ainda a diferença no tratamento dado pela imprensa conforme o clube que reclama.

“Quando algum outro time que não é desses que a grande imprensa tem um critério mais favorável denuncia erro de arbitragem, todo mundo fala que é choro. Agora, o Flamengo se sentiu prejudicado, denuncia e inclusive alguns jornalistas começam a falar sobre isso. Se é o Vitória, o Botafogo, o Vasco ou o Santos, aí está chorando”, afirmou.

A campanha contra o futebol brasileiro

No encerramento, o programa voltou à campanha contra o futebol brasileiro após a Copa de 2026. Henrique Áreas destacou que parte da imprensa passou a apresentar a Espanha como novo “país do futebol” e repetiu mais uma vez que a escola brasileira estaria ultrapassada.

“Depois da Copa, declararam a Espanha como um novo país do futebol. Na verdade, estavam declarando o fim do futebol, porque, se a Espanha é o país do futebol, o futebol acabou. E disseram que o Brasil como país do futebol tinha acabado. Isso não foi a primeira vez que foi dito e não vai ser a última. Infelizmente ainda vai ser repetido infinitas vezes por essa imprensa. Mas, a partir da semana que vem, a gente vai entrar em profundidade em toda a campanha que a imprensa brasileira e internacional fizeram contra o futebol brasileiro e mostrar como isso é uma farsa e como o futebol brasileiro ainda reina no mundo e é o verdadeiro futebol-arte.”

A discussão terá continuidade nas próximas edições do programa.

O Na Zona do Agrião volta na próxima segunda-feira, às 12h, pela Causa Operária TV, com a estreia dos quadros dedicados aos lances de Pelé e aos jogadores esquecidos do futebol brasileiro.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.