João Pimenta

Estudante da USP. Colunista do Diário Causa Operária, membro da Coordenação da AJR e do Comitê Estadual do PCO de São Paulo. Autor do Livro “A era da Censura das Massas”.

Coluna

Folha de S.Paulo quer acabar com a aposentadoria

Não é à toa que a Folha colaborou com a repressão e a tortura durante a ditadura militar

Li hoje um editorial diabólico da Folha de S.Paulo e gostaria de entender como pode ser tão desalmado quem escreve essas coisas. O jornal defende uma nova reforma da previdência. A verdade, porém, é que o trabalhador brasileiro não consegue se aposentar sequer pelas regras atuais. Basta fazer a conta.

A reforma de Temer e Bolsonaro alterou todas as regras. Hoje, é preciso ter ao menos 65 anos para se aposentar — e todos os exemplos aqui consideram os homens. Já parece muito, mas a situação é pior do que aparenta. É preciso ler a letra miúda.

O trabalhador só se aposenta aos 65 anos se tiver contribuído por 20 anos, ou 240 meses. A pergunta que se impõe é: quanto tempo, em média, uma pessoa permanece em um emprego? Afinal, é preciso ter emprego para contribuir. A resposta é 18,6 meses — número que despencou nos últimos cinco anos. E quanto tempo se leva para encontrar um novo emprego? Segundo o levantamento mais recente, os mesmos 18 meses, ou um ano e meio. A conta, portanto, fica ainda mais dura: na média, o trabalhador leva dois anos para conseguir contribuir por apenas um.

Suponha-se que alguém comece a trabalhar aos 18 anos. Correndo tudo bem, contribuirá os 240 meses exigidos ao longo de 40 anos. Depois, ainda terá de esperar mais sete anos para, aos 65, finalmente se aposentar. O que não costumam explicar é quanto essa pessoa vai receber: apenas 60% do salário médio.

Na média, o salário é de R$3.652. A aposentadoria, então, sai por meros R$2.191,20. O que se compra com isso? Não muito. Em São Paulo, o valor cobre duas cestas básicas e sobram cerca de R$200 para todo o resto — aluguel, luz, água. E o que vem nessa cesta básica? Muito pouco para uma única pessoa: dois pedaços de frango por dia, com sorte, e cerca de 20 gramas de café, o equivalente a uma colher. Para uma família de duas pessoas, não há o que dividir.

A conclusão é evidente: ninguém consegue viver com apenas 60% do salário. Como fazer para se aposentar com mais? Trabalhando muito mais. Se a pessoa contribuir por 25 anos, o benefício sobe para 70%. Mas, lembrando que cada período contribuído corresponde a outro tanto de tempo procurando emprego, isso significa chegar aos 68 anos. Para receber 80%, são necessários 30 anos de contribuição — e, aos 78 anos, se ainda estiver vivo.

E aqui está o ponto central. Na média, o trabalhador brasileiro estará morto antes de conseguir se aposentar com 80% do salário. Um trabalhador de Santa Catarina, onde a expectativa de vida é uma das mais altas do País, poderia desfrutar de 3,16 anos de aposentadoria nessas condições. E os 100%? É melhor desistir: seriam 40 anos pagando e 80 de trabalho e procura por emprego.

O que a Folha quer, então, com uma nova reforma? Quer acabar com a aposentadoria. Sessenta por cento do salário médio já não dá para viver, e o jornal deseja que o cidadão se aposente uma década depois de enterrado. É um jornal sádico e maligno. Não é à toa que colaborou com a repressão e a tortura durante a ditadura militar.

Um último dado dá a dimensão da crueldade: o valor é tão baixo e as regras são tão draconianas que o aposentado, depois de 40 anos correndo atrás de trabalho, recebe apenas R$570 a mais do que o cidadão que vive do BPC — o Benefício de Prestação Continuada, auxílio que evita que o idoso sem aposentadoria caia na miséria.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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