No programa Análise Política da Semana deste sábado (1º), transmitido pela Causa Operária TV (COTV), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, analisou a situação política nacional e internacional e discutiu episódios históricos para falar sobre a política adotada atualmente pela esquerda brasileira.
Pimenta denunciou o avanço da censura no Brasil, comentou a polêmica em torno da Guerra do Paraguai, analisou as experiências da Alemanha, França e Espanha diante da ascensão do fascismo, criticou a frente ampla do PT e comentou a campanha da imprensa sobre um suposto desarmamento do Hamas. Também tratou da acusação de terrorismo contra Evo Morales, da crise em Ceuta, das revelações envolvendo Anthony Fauci e da exclusão dos candidatos do PCO das pesquisas da Quaest.
Censura transforma crítica política em crime
Pimenta abriu o programa comentando a condenação do jornalista José Fernandes Linhares Júnior, sentenciado a dois anos e 15 dias de detenção por injúria e difamação contra Flávio Dino. O processo decorre de críticas feitas quando Dino era governador do Maranhão.
Para o presidente do PCO, o caso mostra como o sistema jurídico brasileiro vem transformando críticas contra autoridades públicas em crimes.
“Eu acho vergonhoso uma pessoa pública, um governador, nesse caso o Dino era governador, processar um indivíduo, um jornalista, por críticas que ele tenha feito. Aí fica a interpretação da lei de que isso seria uma injúria. Você não pode ofender a honra da pessoa que está no governo. Agora, é mais ou menos óbvio que qualquer crítica mais dura vai ser caracterizada como uma ofensa à honra. Nós estamos caminhando para uma situação em que você não pode falar mais nada.”
Pimenta lembrou processos movidos contra o próprio PCO e citou a ação na qual são cobrados R$240 milhões do Partido por suas posições contra o sionismo e em defesa da Resistência Palestina.
O dirigente também criticou a ampliação dos chamados crimes de opinião e afirmou que essa política atinge diretamente os defensores da Palestina. A tentativa de classificar o Hamas e o Hesbolá como organizações terroristas, disse, abre caminho para criminalizar até a defesa pública do direito dos povos oprimidos à resistência.
“Nós estamos organizando uma campanha para denunciar essa verdadeira perseguição política que atinge várias pessoas, sendo que o nosso partido, de longe, é o mais atingido por isso. O que os sionistas não perdoam ao PCO é que nós defendemos de maneira intransigente a Resistência Palestina. Você pode chorar pelos palestinos que morreram. Agora, falar que as pessoas têm o direito de reagir, inclusive pela força das armas, quando estão sendo massacradas, isso você não pode falar.”
Guerra do Paraguai e campanha contra o Brasil
Outro tema foi a Guerra do Paraguai, que voltou ao debate após uma declaração do presidente Lula segundo a qual o Brasil teria sido invadido pelo Paraguai no início do conflito.
Pimenta criticou aqueles que passaram a apresentar o Brasil como agressor. Embora a intervenção brasileira no Uruguai tenha agravado as tensões na região do Prata, afirmou, isso não dava a Solano López o direito de invadir o território brasileiro.
O presidente do PCO também destacou que o Paraguai possuía forças militares proporcionalmente superiores às brasileiras, enquanto o Brasil precisou organizar uma ampla campanha de recrutamento para enfrentar a guerra.
“Existe um esforço nacional, mas que vem de fora do Brasil, para fazer uma propaganda intensa contra o Brasil. Então, apresentar o Brasil da pior maneira possível é uma coisa política do presente, não é o passado. Eu acho que o Paraguai estava errado. Mas e daí? Eu não tenho nada contra o Paraguai. Agora, quando as pessoas falam que o Brasil estava errado, é mais uma tentativa de jogar o País para baixo. E essa tentativa de jogar o País para baixo não é inocente.”
“Quem ameaça o Brasil é o imperialismo, não é o Paraguai, não é a Argentina, não é o Uruguai”, completou.
Pimenta rejeitou, ao mesmo tempo, a caracterização liberal de Solano López como um simples “ditador maluco”. Para ele, López era um nacionalista paraguaio que pretendia ampliar a influência de seu país na Bacia do Prata, mas sua política desembocou na invasão do Brasil e em uma guerra que quase destruiu o Paraguai.
A luta contra o fascismo
Ao tratar dos 90 anos da greve geral francesa de 1936 e do início da Revolução Espanhola, Pimenta retomou a experiência europeia para discutir a política de alianças com partidos burgueses.
Na Alemanha, a crise capitalista iniciada em 1929 provocou uma radicalização dos trabalhadores. Diante desse quadro, os grandes industriais alemães passaram a financiar o Partido Nazista.
Leon Trótski defendia uma frente única das organizações operárias contra o fascismo. A social-democracia, entretanto, depositava suas esperanças nas instituições da República de Weimar e na aliança com setores da burguesia, enquanto o Partido Comunista Alemão recusava uma frente única com os socialistas.
“A política do Partido Socialista é a mesma política que está sendo preconizada para os dias de hoje no Brasil e em vários países do mundo: a solução seria fazer uma aliança com a burguesia. Só que, no caso da Alemanha, ela estava vivendo uma situação algumas casas à frente da situação que nós estamos vivendo hoje. A social-democracia falou o tempo todo, na República de Weimar, que a aliança com os partidos da burguesia era a solução. E, com isso, desarmou o proletariado alemão diante da ascensão do fascismo.”
A social-democracia apoiou Paul von Hindenburg como uma barreira institucional contra Hitler. Foi Hindenburg quem nomeou Hitler chanceler em 1933.
Na França, uma Frente Popular formada por socialistas, comunistas e pelo burguês Partido Radical venceu as eleições em 1936. A vitória foi seguida por uma gigantesca mobilização operária, com mais de 10 mil fábricas ocupadas somente na região de Paris.
“Na região de Paris, mais de 10 mil fábricas são ocupadas pelos operários. Quer dizer, é o começo de uma revolução. A luta contra o fascismo tinha dado lugar a uma revolução. A burguesia entende que a única maneira de escapar de uma revolução proletária era fazendo pesadas concessões. Aí os partidos comunista e socialista vão para as fábricas para convencer os operários a abandonar a ocupação e voltar ao trabalho.”
Na Espanha, outra Frente Popular venceu as eleições no mesmo ano. Poucos meses depois, setores do Exército deram início ao golpe que levou à Guerra Civil Espanhola. A tentativa somente não triunfou imediatamente porque os trabalhadores se levantaram e enfrentaram os militares em regiões como Catalunha e Madri.
Para Pimenta, essas experiências mostram o fracasso da política de confiar à burguesia o combate ao fascismo.
Frente ampla não deterá o fascismo
A análise histórica serviu de base para a crítica à frente ampla formada em torno de Lula. Pimenta afirmou que a incorporação de partidos burgueses ao bloco petista não constitui uma barreira contra a extrema direita.
Entre os exemplos, citou o PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin, Márcio França e Tabata Amaral, além da aproximação de nomes como Simone Tebet e Soraya Thronicke.
“Estamos diante dos aprendizes de feiticeiro que estão apresentando como receita, 90 anos depois, para derrotar o fascismo a mesma coisa que foi utilizada com resultados extremamente desastrosos em 1933, em 1936 e em várias outras oportunidades. A solução seria fazer uma aliança eleitoral com a burguesia e essa aliança, que no Brasil é chamada de frente ampla, vai deter o fascismo. Isso não vai segurar nenhum fascismo, não tem como.”
Pimenta ressaltou que sua crítica não se resume à discussão sobre votar ou não em Lula. “Se o pessoal quer votar no PT, muito que bem. Nós achamos que é necessário construir uma organização que aponte um caminho de luta efetiva contra a direita, contra o fascismo e contra a burguesia”, declarou.
O dirigente criticou ainda o caráter despolitizado da disputa eleitoral, na qual tanto o campo lulista quanto o bolsonarismo procuram apresentar seus candidatos como honestos e o adversário como criminoso, deixando em segundo plano os principais problemas econômicos e políticos do País.
Hamas não aceitou entregar suas armas
Pimenta denunciou a campanha da imprensa segundo a qual o Hamas teria capitulado diante dos Estados Unidos e de “Israel” ao aceitar seu desarmamento.
Segundo ele, o que está em discussão é que, após o cumprimento das condições de um acordo, incluindo a retirada das forças sionistas da Faixa de Gaza e a formação de um governo palestino, o Hamas admitiria recolher parte de seu armamento.
“O que o Hamas está disposto a concordar é o seguinte: cumpridas todas as partes do acordo — e não está sendo cumprida quase nenhuma —, o Hamas concordaria em recolher, não entregar, as armas. Nas discussões que foram feitas, o Hamas nunca concordou em entregar as armas nem para ‘Israel’, nem para os Estados Unidos. O que concordaram foi em recolher as armas pesadas. Seria constituída uma autoridade, um governo palestino, e eles recolheriam essas armas. Não vão entregar essas armas para o inimigo.”
“Essa mentira de que o Hamas está capitulando diante da pressão dos Estados Unidos não tem absolutamente nada a ver com o que está acontecendo”, afirmou.
O programa também lembrou os dois anos do assassinato de Ismail Hanié, ex-chefe do Birô Político do Hamas, morto em Teerã em julho de 2024.
Terrorismo, Ceuta e Fauci
Pimenta comentou ainda o indiciamento do ex-presidente boliviano Evo Morales por terrorismo.
“O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, foi indiciado pelo governo boliviano como terrorista. Quer dizer, a mobilização dos trabalhadores bolivianos, dos operários e dos camponeses, está sendo considerada pelo governo como terrorismo”, afirmou.
O dirigente relacionou o caso à ampliação das legislações antiterroristas e à possibilidade de seu uso contra movimentos populares.
Outro assunto foi a crise em Ceuta. Pimenta afirmou que existem denúncias sobre uma possível participação do governo marroquino e até do Mossad na entrada de dezenas de milhares de marroquinos no território, mas destacou que ainda não há elementos suficientes para estabelecer o que ocorreu.
Sua crítica concentrou-se na defesa da soberania espanhola sobre Ceuta. Para Pimenta, Ceuta e Melilha são ocupações coloniais espanholas em território africano, assim como as Malvinas são ocupadas pela Inglaterra.
“O problema não é quem chegou primeiro, nem quem mora lá. O problema é territorial”, afirmou.
Pimenta também comentou as novas revelações envolvendo Anthony Fauci e sua atuação durante a pandemia de Covid-19. Ele lembrou que, naquele período, o PCO defendeu a vacinação diante da emergência sanitária, mas se opôs à vacinação compulsória e à transformação de qualquer questionamento das políticas oficiais em “negacionismo”.
“Na época nós falamos: tudo bem, tem que vacinar o pessoal porque a pandemia está se espalhando. Agora, vamos ter claro, ninguém sabe qual é a eficiência da vacina, você está tomando uma vacina e não sabe o que vai acontecer. Portanto, não pode obrigar ninguém a se vacinar. Queriam obrigar os pais a levar as crianças para se vacinar três vezes. Nós, por falar que, embora fosse necessária a vacinação, tinha que tomar cuidado e ninguém tinha que confiar cegamente, éramos chamados de negacionistas.”
Quaest exclui candidatos do PCO
No fim do programa, Pimenta comentou a exclusão de seu nome e dos demais candidatos do PCO da última rodada de pesquisas da Quaest.
Após ser questionado pelo Partido, o instituto respondeu que não teria obrigação de incluir pré-candidaturas ainda não formalizadas e afirmou não ter conhecimento de que Pimenta pretendia disputar a Presidência.
“Segundo eles, não sabiam que eu era candidato. Mas isso é uma empresa de pesquisa eleitoral. Se eles não conseguem nem saber quem são os candidatos a presidente e, particularmente, nunca ouviram falar da minha candidatura, não sei se estão habilitados para fazer pesquisa. Não parece que tenham competência suficiente para fazer uma pesquisa.”
Para Pimenta, a exclusão faz parte do mecanismo que dificulta o acesso dos pequenos partidos ao eleitorado, seja pela ausência nas pesquisas, seja pela exclusão dos debates e pelo boicote da imprensa capitalista.
“A eleição é isso mesmo: você não participa de debate. A empresa capitalista, justamente porque é capitalista, estabelece um boicote absoluto de informações a respeito da sua candidatura. É uma tentativa de que o público, o eleitor, não saiba quem são os candidatos. Isso quando a pessoa não vai lá e apresenta dois candidatos quando tem 15. Isso é o que eles chamam de eleição democrática.”





