Trabalhadores da concessionária Loga paralisaram parcialmente a coleta de lixo na zona norte de São Paulo após a morte do coletor Diego Rafael da Silva, de 19 anos.
Diego foi atropelado na noite de domingo (26), na Barra Funda, enquanto recolhia contêineres na parte traseira de um caminhão de limpeza urbana. O veículo estava parado e sinalizado quando um carro atingiu o trabalhador.
O Corpo de Bombeiros e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência foram acionados, mas Diego não resistiu aos ferimentos.
O jovem trabalhava havia apenas dois meses na empresa. Era pai de uma menina de um ano e a mulher estava grávida.
O motorista foi identificado como o empresário Guofang Huang, de 53 anos. Ele deixou o local depois do atropelamento. Um motociclista que presenciou o ocorrido passou a segui-lo, e o empresário retornou algum tempo depois.
O teste do bafômetro registrou 0,73 miligrama de álcool por litro de ar expelido, mais que o dobro do índice de 0,34 miligrama a partir do qual a condução sob efeito de álcool é considerada crime.
A Loga atribuiu a paralisação à comoção dos trabalhadores e informou ter realizado uma coleta emergencial nas principais avenidas. A empresa declarou que os serviços seriam retomados gradualmente.
O motorista deve ser responsabilizado por dirigir embriagado, atropelar Diego e deixar o local. A morte, porém, também revela as condições impostas diariamente aos coletores.
Diego trabalhava na traseira de um caminhão, exposto diretamente ao trânsito. A sinalização do veículo não foi suficiente para impedir que um automóvel avançasse sobre o local onde ele recolhia os contêineres.
Os garis correm ao lado dos caminhões, sobem e descem dos estribos, carregam peso e permanecem no meio da rua durante toda a jornada. Trabalham sob chuva ou sol, em contato com objetos cortantes, lixo contaminado e veículos em alta velocidade.
A paralisação mostra que a categoria não considerou a morte um acontecimento normal. Os trabalhadores interromperam a coleta porque sabem que qualquer um deles poderia ter sido atingido nas mesmas condições.
A limpeza urbana de São Paulo está entregue a concessionárias que recebem dinheiro público e exploram os garis para aumentar seus lucros. A prefeitura transfere o serviço, mas continua responsável pelas condições em que ele é realizado.
As empresas procuram concluir cada roteiro com o menor número possível de trabalhadores e no menor tempo. A rapidez exigida aumenta o esforço físico e a exposição aos acidentes.
Os garis precisam de equipes maiores, caminhões em boas condições, sinalização reforçada, iluminação adequada e sistemas de proteção na parte traseira dos veículos. Em ruas movimentadas, deve haver trabalhadores responsáveis por alertar e interromper o tráfego durante a coleta.
A jornada deve ser reduzida sem diminuição salarial. Também são necessários aumento real dos salários, ampliação dos vales de alimentação e refeição, pagamento integral dos adicionais e respeito aos direitos estabelecidos pela Consolidação das Leis do Trabalho.
Nenhum trabalhador deve ser obrigado a continuar em um veículo com defeito ou em uma rota sem segurança. Para isso, a categoria precisa de estabilidade e organização sindical independente das empresas.
A limpeza urbana deve voltar ao controle direto do poder público, com contratação por concurso, equipes suficientes e fiscalização dos próprios trabalhadores. As terceirizações permitem que empresas recebam verbas públicas enquanto transferem aos garis todo o esforço e todo o risco.
Diego Rafael da Silva tinha 19 anos, uma filha pequena, uma mulher grávida e apenas dois meses de trabalho. Sua morte não pode ser tratada como mais um acidente de trânsito. Ela mostra o preço pago pelos trabalhadores para manter a maior cidade do País limpa.




