Entrevista

‘Regime político está em frangalhos’, diz Rui Pimenta

Em entrevista a Leandro Fortes, presidente nacional do PCO analisou a crise eleitoral, a política direitista do PT e a submissão do Brasil ao imperialismo

O regime político brasileiro construído após 1988 está esgotado e a burguesia encontra dificuldades para controlar as principais forças eleitorais do País. Essa foi uma das avaliações apresentadas por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, em entrevista concedida ao jornalista Leandro Fortes nessa terça-feira (28), no Canal do Galo Preto, no YouTube.

Durante a conversa, Pimenta analisou a candidatura de Flávio Bolsonaro, a tentativa da burguesia de encontrar uma alternativa eleitoral ao bolsonarismo, a política do PT, a repressão policial, as urnas eletrônicas, a desindustrialização brasileira e a relação do Brasil com a China e os Estados Unidos.

Uma convenção “grotesca”

A entrevista começou com a convenção do Partido Liberal (PL) que confirmou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. O ato contou com a participação do presidente argentino Javier Milei, que atacou Lula e Alexandre de Moraes.

Para Pimenta, a presença do argentino revelou a desorientação política da campanha de Flávio Bolsonaro. Milei não possui popularidade no Brasil e sua aparição insultando o presidente da República dificilmente conquistaria apoio fora dos setores mais fanáticos da direita.

“Achei grotesco. Acho que a equipe do Flávio Bolsonaro está meio sem noção do que está fazendo. Não acho que Javier Milei seja uma pessoa muito bem vista no Brasil. Depois, a pessoa vir ao Brasil e insultar o presidente da República é uma coisa ruim. Mesmo as pessoas que não apoiam Lula não vão achar isso bom. Pareceu uma coisa muito mal arrumada.”

Pimenta também criticou a imitação da campanha argentina. Durante a convenção, Flávio Bolsonaro exibiu uma tesoura em referência à motosserra usada por Milei para representar o corte de gastos públicos.

A proposta, segundo o presidente do PCO, combina com partidos diretamente ligados ao grande capital, como o Novo, ou com grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e seu partido Missão, mas pode afastar a base popular do bolsonarismo.

“Cortar gastos é uma política boa para o Partido Novo, para o MBL e até para o Caiado. Agora, para o Bolsonaro, não. Bolsonaro é uma força popular, tem uma política de demagogia populista. Não pode sair por aí atacando o bolso das pessoas. Isso vai provocar uma reação negativa. Não sei se a base bolsonarista vê a política de Milei com bons olhos.”

Burguesia procura substituir Bolsonaro

Pimenta discordou da ideia de que o bolsonarismo esteja próximo de desaparecer. O movimento não possui uma doutrina clara e reúne setores muito diferentes, mas Jair Bolsonaro ainda conserva amplo apoio entre a direita, os militares, integrantes do aparato repressivo e parcelas da população que veem nele uma alternativa ao PT.

Ao mesmo tempo, a burguesia procura retirar Flávio Bolsonaro da disputa. A campanha conduzida pelos grandes jornais e por políticos da direita tradicional para que o senador abandone a candidatura revelaria essa tentativa.

“Uma coisa a que eles teriam de prestar bastante atenção é que a burguesia quer liquidar o bolsonarismo. A gente viu a campanha feita recentemente pelos principais órgãos de comunicação da burguesia e por vários políticos, dizendo que Flávio Bolsonaro deveria sair da candidatura. Eles gostariam de se livrar do Bolsonaro. Isso vai ser uma fonte permanente de pressão.”

O problema para a burguesia é que nomes como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema não possuem uma base popular própria. São políticos tradicionais, dependentes do grande capital, da imprensa e do aparelho de Estado.

Bolsonaro, por sua vez, conquistou um movimento de massas que não pode ser transferido automaticamente para outro candidato. Por isso, embora tenha aplicado uma política de direita durante seu governo, nunca foi inteiramente controlado pela burguesia.

“Para a burguesia, o político ideal é aquele político do PSDB, um político de direita como Eduardo Leite ou Caiado, se ele tivesse popularidade. O político burguês precisa ser dependente da burguesia. O que tem base social própria é um problema.”

Flávio Bolsonaro tampouco possui a popularidade do pai. Sua candidatura depende do sobrenome e da impossibilidade de Jair Bolsonaro participar da eleição.

“Flávio Bolsonaro é um candidato substituto. Não é o pai. Jair Bolsonaro é um político carismático para o pessoal que gosta dele, assim como Lula é um político carismático para quem é de esquerda. Flávio Bolsonaro não é assim. Ele é uma pessoa comum, não tem essa popularidade. Está aí porque o pessoal olha e fala: ‘é o filho do Bolsonaro’. Se Jair Bolsonaro estivesse livre e elegível, a situação de Lula ficaria muito difícil.”

Partidos do regime estão esgotados

A dificuldade para encontrar um candidato confiável não seria apenas um problema eleitoral. Para Pimenta, ela expressa a falência do regime político formado depois da ditadura militar.

Os partidos que dominaram a política brasileira nas últimas décadas perderam apoio. O PSDB praticamente desapareceu, o MDB se transformou numa federação de oligarquias regionais e as demais legendas burguesas não possuem candidatos com projeção nacional.

O PT ainda funciona como um ponto de sustentação desse sistema. Mesmo aplicando uma política conservadora, porém, Lula não é inteiramente aceito pela burguesia.

“A burguesia está numa situação difícil porque o regime político burguês construído a partir de 1988 está completamente em frangalhos, está esgotadíssimo. E os partidos políticos do regime estão todos esgotados. O PT é meio que o último respiro desse regime político, e a burguesia, mesmo assim, não gosta dele. Pode aceitar, pode trabalhar com ele, mas não gosta.”

Pimenta afirmou que Lula exerce um papel moderador. Sua ausência poderia abrir espaço não apenas para a direita, mas também para o crescimento de uma força situada à esquerda do PT.

“Se amanhã Lula não estiver aí, isso pode dar lugar ao crescimento de uma força de esquerda bem à esquerda do PT. Lula, em certo sentido, é um elemento moderador da situação política. O regime democrático está condenado. Pode se arrastar por um período, mas está acabado.”

PT acompanha a direita na segurança pública

A guinada do PT na segurança pública também foi abordada. Para Pimenta, o partido abandonou a explicação de que a criminalidade é produto da pobreza, da desigualdade, da violência estatal e da decomposição social.

Em lugar dessa política, dirigentes petistas procuram competir com a direita na defesa da repressão policial. Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo, tenta apresentar-se como defensor de uma política mais dura contra o crime, disputando o terreno de Tarcísio de Freitas.

“Quem vai levar a sério que Haddad poderia ser mais repressivo que Tarcísio de Freitas? Ninguém. Se Haddad se elegesse governador e promovesse um massacre parecido com o que Tarcísio promoveu no litoral, o governo dele não sairia do chão. Haveria uma crise monumental. Na hora em que o sangue começa a correr, é outra história.”

A própria base do PT, formada em grande medida por trabalhadores e setores populares, não aceitaria com facilidade uma política aberta de massacres policiais. A tentativa de imitar a extrema direita colocaria um eventual governo petista em choque com seus eleitores.

Para Pimenta, a relação entre pobreza e criminalidade deveria ser uma posição elementar da esquerda.

“Teria de ser um patrimônio ideológico da esquerda. Você não precisa ser um revolucionário radical para pensar assim. É uma questão democrática e de humanismo. Toda vez que discuto segurança pública, eu falo: o problema do Brasil é a pobreza. Se o povo tivesse dinheiro, o crime diminuiria. A direita trata o criminoso como se fosse uma figura diabólica. Não são. São pessoas comuns, submetidas a determinadas condições sociais.”

Eleição precisa ser fiscalizada pelo cidadão

Ao tratar das urnas eletrônicas, Pimenta criticou a tentativa do Supremo Tribunal Federal e de setores da esquerda de criminalizar qualquer questionamento sobre o sistema eleitoral.

O presidente do PCO afirmou que não considera o voto em papel livre de fraudes. A diferença é que uma cédula pode ser examinada diretamente por fiscais, partidos e eleitores, enquanto a urna eletrônica depende de técnicos e programas que o cidadão comum não pode verificar.

“Eu sempre tive a ideia de que o equipamento eletrônico é penetrável. Ninguém pode garantir que não existam brechas. Depois, como é que a população faz para saber? Tem de acreditar na palavra dos técnicos. O aparelho eletrônico impenetrável não existe.”

Pimenta concordou com Leandro Fortes, que sugeriu que um sistema no qual o voto registrado eletronicamente e produz também uma cédula física depositada numa urna é mais seguro. O papel não precisaria ser contado em todas as eleições, mas serviria para conferir o resultado em caso de dúvida.

“Você teria os dois votos. Não precisa contar o papel normalmente. Você tem a urna eletrônica, mas, se houver dúvida, tem o papel que pode corroborar ou não o resultado. A eleição é amplamente manipulada do ponto de vista político antes mesmo de ser fraudada. A eleição brasileira é muito antidemocrática nesse sentido.”

A questão central, portanto, não seria afirmar antecipadamente que toda eleição é fraudada, mas garantir que o resultado possa ser fiscalizado por qualquer cidadão.

“No caso da urna eletrônica, o problema maior é a auditoria. É muito difícil. A eleição teria de ser passível de auditoria pelo cidadão comum.”

Brasil voltou a exportar matérias-primas

Na discussão sobre a economia brasileira, Pimenta rejeitou a ideia de que o Brasil tenha sido historicamente apenas um exportador de matérias-primas. O País construiu uma indústria importante ao longo do século XX, posteriormente destruída pela política neoliberal.

Esse retrocesso ganhou força no governo Fernando Henrique Cardoso. Além das privatizações, a valorização artificial do real diante do dólar barateou produtos estrangeiros e atingiu duramente a produção nacional.

“O Brasil é um país industrial há muito tempo. Não é fundamentalmente um país exportador de matéria-prima. Estamos vivendo um retrocesso e voltando no tempo porque o sistema político brasileiro aceitou todas as imposições do imperialismo. A partir do governo FHC, o Brasil entrou numa rota de desagregação econômica muito grande.”

A eleição de um presidente, por si só, não seria suficiente para reverter esse processo. As instituições, a burocracia, os partidos burgueses e a imprensa estão comprometidos com a submissão do País ao imperialismo.

Pimenta afirmou que o PT tampouco poderá promover uma reindustrialização enquanto mantiver suas alianças com a direita. Em São Paulo, citou a composição formada por Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva.

“O PT está fazendo uma frente que é um verdadeiro Frankenstein, cheia de gente de direita. A chapa de São Paulo tem Haddad, Márcio França, que votou e fez campanha para Bolsonaro em 2018, Simone Tebet, uma direitista latifundiária, e Marina Silva, que é a pessoa de George Soros. É uma chapa grotesca. Isso está se reproduzindo de norte a sul do País. Como é que você vai mudar as coisas com essas pessoas?”

China não domina o Estado brasileiro

Pimenta defendeu que o Brasil utilize suas relações com a China para reconstruir a indústria, obter tecnologia e diminuir a dependência dos Estados Unidos.

Ele rejeitou a afirmação de que uma aproximação com os chineses representaria apenas a troca de uma dominação por outra. O imperialismo não se limita a relações comerciais desiguais. Ele depende do controle econômico, político e militar exercido pelos países imperialistas sobre os Estados mais fracos.

“O imperialismo não é um problema comercial. É uma questão econômica, militar e política. O Estado brasileiro não é independente. A China não tem a menor possibilidade de exercer sobre o Brasil o mesmo domínio dos Estados Unidos. O poder chinês é incomparavelmente menor, e esse fator objetivo é decisivo.”

A China procura mercados para suas mercadorias e investimentos. Diferentemente dos Estados Unidos, porém, não controla as Forças Armadas, a Polícia Federal, o Congresso e a imprensa brasileira.

“A vantagem dos chineses é que eles não têm esse poder. Qual é a influência da China no regime político brasileiro? Nenhuma. O imperialismo controla as Forças Armadas brasileiras, a Polícia Federal, o Congresso Nacional e a imprensa. Trocaríamos um vampiro poderoso por um parceiro que não tem condições de impor qualquer coisa.”

Pimenta utilizou uma comparação para explicar a diferença entre os dois países:

“A China precisa vender o peixe dela. Os Estados Unidos não vendem o peixe: apontam o revólver para a cabeça e dizem que você tem de levar, mesmo que esteja podre.”

Uma política nacional deveria aproveitar essa diferença para exigir transferência de tecnologia, construção de fábricas e desenvolvimento da indústria brasileira. No caso das terras raras, por exemplo, o governo poderia formar uma parceria com a China que garantisse ao Brasil conhecimento técnico e capacidade própria de exploração.

Unidade deve nascer das lutas

Questionado sobre uma possível unidade dos partidos de esquerda para 2030, Pimenta considerou insuficiente a formação de uma frente puramente eleitoral. A alternativa seria construir um partido baseado num programa comum e impulsionado pelas lutas dos trabalhadores.

“O ideal não seria tanto uma frente eleitoral, mas a constituição de um partido que tivesse um programa comum à esquerda. Algo parecido com o processo que deu lugar ao PT, mas mais honesto e genuíno. O PT foi rapidamente tomado por um setor pequeno-burguês que o transformou numa máquina eleitoral.”

Essa organização não poderia nascer apenas de acordos entre direções partidárias. Seria necessário um movimento de baixo para cima, capaz de incorporar novos militantes formados na luta política.

Pimenta também respondeu à acusação de que o PCO seria um “puxadinho” do PT. O partido dá importância ao PT porque ele ainda ocupa, embora de maneira deformada, o espaço de um partido operário de massas. Isso não significa apoio à política de sua direção.

“Nós damos importância ao PT porque é um partido importante na vida política brasileira. Acreditamos que ele ocupa, de maneira deformada, o lugar de um partido operário. Procuramos ter diálogo com o pessoal do PT porque é um partido real, apesar de todas as deficiências. Mas não temos nada com o PT. Nossa posição é muito diferente e muito crítica.”

Ao final, Pimenta confirmou que o professor Antônio Carlos Silva será o candidato a vice-presidente na chapa do PCO. A escolha, explicou, foi baseada na experiência política do militante e em sua capacidade de participar ativamente da campanha nacional.

“Antônio Carlos é um militante experiente, bem articulado e um dos melhores militantes que temos. Ele é conhecido, é um militante tradicional e veterano do PCO. O critério foi prático: poderemos fazer campanha com dois candidatos, e ele será um bom representante da chapa presidencial.”

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.