Escrito por João Guimarães Rosa e publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas completa 70 anos e é colocado entre as maiores obras-primas da literatura em língua portuguesa e um marco na literatura modernista brasileira.
Otto Maria Carpeaux, o crítico austríaco-brasileiro, autor de História da Literatura Ocidental, sustentava três ideias principais sobre a obra: considerava Grande Sertão: Veredas um acontecimento excepcional na literatura brasileira, um romance que transcendia o regionalismo e alcançava dimensão universal. Enxergava em João Guimarães Rosa um escritor de estatura comparável aos grandes inovadores do romance moderno do século XX, tanto pela experimentação linguística quanto pela profundidade filosófica, e destacava que o sertão de Rosa não era apenas um espaço geográfico, mas um universo simbólico em que se discutem questões universais como o bem e o mal, a liberdade, o destino e a condição humana.
Ezra Pound, em seu famoso livro ABC da Literatura, diz que a literatura é “linguagem carregada de significado até o grau máximo”, e os autores se diferenciam pelo grau de invenção e autenticidade que trazem para a língua.
Dentre os tipos que enumera, os primeiros são os inventores. São os pioneiros reais. Homens que descobriram um processo novo, uma nova forma de expressão ou um novo uso para a linguagem.
Para Pound, o inventor não é apenas quem escreve uma boa história, mas o artista de exceção que descobre um novo processo técnico, uma nova sintaxe ou uma nova forma de carregar a linguagem de significado. E foi exatamente isso o que Guimarães Rosa fez.
Guimarães Rosa não inventava palavras do nada, seguia esquemas linguísticos muito precisas: adicionava sufixos a palavras que já existiam para criar novos verbos ou substantivos; pegou “sertão” para criar o verbo sertanejar. Juntava duas ou mais palavras para criar um conceito totalmente novo, como estorvo-medo, diz-que-diz-que. Além de resgatar termos antigos da língua portuguesa ou do latim, e os adaptava para o falar do sertanejo:
“Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano.”
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente viverear.”
“Quem descobre o norte, sabe sertanejar nas horas de precisão.”
A obra
O romance é um longo monólogo de Riobaldo, um ex-jagunço, então idoso, que conta sua trajetória pelo sertão mineiro a um ouvinte oculto (o próprio leitor).
Riobaldo vive o eterno dilema entre o Bem e o Mal e o Diabo, busca compreender se fez ou não um pacto com o “Cão” e se o diabo realmente existe ou se é apenas uma projeção do medo e das ambiguidades humanas.
“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…”
Riobaldo vive também um amor impossível, a relação entre ele e seu companheiro de armas, Diadorim, misturando fascínio, devoção e mistério.
Fausto e Riobaldo
A comparação de Carpeaux entre Goethe e Rosa é muito interessante. Enquanto Fausto é movido pela ambição intelectual, o desejo de dominar os segredos da natureza, do universo, e superar seu tédio existencial, Riobaldo vai para as Veredas Mortas e quer, com o pacto, adquirir coragem para o combate, pois tem a necessidade de vingar seu bando e, sobretudo, proteger o Diadorim, por quem sente amor e lealdade.
No Fausto, Mefistófeles é uma figura real, que conversa abertamente, propõe termos e assina um contrato com sangue. Em Grande Sertão, o “Cão” nunca responde. Riobaldo faz seu chamado no silêncio da noite, na encruzilhada, mas não ouve gargalhadas nem vê fumaça, nada do que se esperava de tal encontro. Fica para sempre a dúvida existencial. Não sabe dizer se o diabo esteve lá e aceitou o pacto, ou se o “pacto” teria sido apenas um ato psicológico e a coragem de Riobaldo veio de dentro dele mesmo.
Carpeaux mostrou que o sertão de Guimarães Rosa não é apenas um mapa geográfico, um lugar no interior do Brasil, mas uma “entidade metafísica, como a Alemanha medieval de Fausto.
Enquanto Fausto representa a angústia do homem moderno europeu diante da ciência, da fé e da razão, Riobaldo é o homem dividido entre a violência do mundo rude do jagunço e a delicadeza de sua alma, buscando desesperadamente a salvação. No início do livro, ao falar com o “ouvinte”, deixa claro que, na dúvida, acende uma vela para todos os santos.
A inventividade de Guimarães Rosa aparece logo no título Grande Sertão: Veredas. Os dois pontos não estão aí por acaso. Gramaticalmente, os dois pontos servem para introduzir uma explicação, uma enumeração ou uma consequência. Dessa maneira, Rosa propõe uma relação direta entre os dois conceitos.
Enquanto o Sertão é um espaço árido, bruto, perigoso, vasto e sem limites bem definidos, uma região de mistérios, medo, guerras; por onde o diabo faz sua ronda e o homem se perde, as Veredas são pequenos caminhos, riachos que cortam o solo árido, são pontos de descanso.
A última palavra do livro, antes do símbolo de infinito, é “travessia”, que faz a conexão entre essas duas partes aparentemente antagônicas.
“O sertão é do tamanho do mundo. (…) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se conselho vale: é preciso rezar muito, para o diabo não dar. Deus é paciência. O contrário é o diabo. O diabo — é a negridão do nada… Existir, firmou. (…) Homem humano. Travessia.” ∞



