Os bombardeios realizados em conjunto pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita contra posições das Forças de Mobilização Popular no Iraque expõem com clareza o papel desempenhado pela monarquia saudita na política regional. Na madrugada desta quarta-feira (29), aviões dos dois países atacaram instalações militares em pelo menos sete províncias iraquianas, incluindo Nínive, Kirkuk, Wasit, Baçorá e Karbala.
Um balanço divulgado posteriormente pelas forças iraquianas indicou ao menos 20 mortos e 32 feridos. Riade justificou a operação alegando que os alvos estariam ligados a ataques contra sua infraestrutura petrolífera, mas não apresentou publicamente provas que sustentassem a acusação.
As forças atingidas não constituem uma organização estrangeira instalada clandestinamente no Iraque. As Forças de Mobilização Popular foram incorporadas ao aparato militar iraquiano após desempenharem papel decisivo no combate ao Estado Islâmico. Ao bombardear seus quartéis e centros logísticos, Washington e Riade atacaram estruturas oficiais de segurança de outro país.
A operação mostra, ao mesmo tempo, a continuidade da ingerência norte-americana e a disposição da Casa de Saud de participar diretamente de uma agressão contra uma nação árabe sempre que os interesses do imperialismo o exigem.
A comparação entre a Arábia Saudita e “Israel” não decorre de uma identidade absoluta entre os dois Estados. “Israel” foi implantado como enclave colonial sobre a expulsão do povo palestino, enquanto a monarquia saudita surgiu de uma aliança interna entre a Casa de Saud e o clero uahabita. A função regional assumida pelos dois governos, entretanto, apresenta uma semelhança decisiva. Ambos dependem militarmente dos Estados Unidos, atuam contra os movimentos de libertação da região e servem como instrumentos para conter governos e organizações que procuram manter alguma independência diante do imperialismo.
Uma monarquia sustentada pelos Estados Unidos
A aliança entre Washington e Riade consolidou-se no fim da Segunda Guerra Mundial sobre uma fórmula simples: petróleo saudita em troca de proteção norte-americana à monarquia. A riqueza proveniente das reservas de energia permitiu à família real construir um vasto aparelho estatal e comprar armamentos em escala gigantesca, mas não eliminou sua dependência estratégica. Caças, sistemas de defesa aérea, munições, manutenção, treinamento, inteligência e apoio logístico sauditas permanecem profundamente ligados às empresas e às Forças Armadas dos Estados Unidos.
Essa dependência não é um detalhe técnico. Ela constitui uma das bases da sobrevivência da monarquia absoluta. A Arábia Saudita não possui eleições nacionais para escolher o governo, concentra os principais poderes na família real e reprime duramente opositores, sindicalistas, religiosos dissidentes e habitantes da região oriental, onde se concentra uma parcela importante da população xiita e da produção de petróleo. O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul tornou mundialmente conhecido um método de intimidação que já era aplicado havia décadas contra críticos internos.
A doutrina uahabita, associada historicamente à formação do Estado saudita, ofereceu à monarquia uma cobertura religiosa profundamente conservadora. Essa aliança entre a dinastia e o estabelecimento clerical foi utilizada para disciplinar a sociedade saudita e também para projetar influência política no exterior. Ao longo de décadas, recursos sauditas financiaram organizações, instituições religiosas e correntes políticas empregadas como contrapeso ao nacionalismo árabe, às organizações de esquerda e, posteriormente, às forças ligadas ao Irã.
O resultado é um governo que combina riqueza extraordinária, atraso político e subordinação militar. A propaganda sobre modernização econômica e grandes projetos urbanos não altera essa estrutura. A Casa de Saud pode diversificar investimentos e buscar maior margem diplomática, mas sua segurança continua vinculada à proteção do imperialismo norte-americano e à repressão de seu próprio povo.
A guerra de agressão contra o Iêmen
A expressão mais devastadora dessa política foi a guerra iniciada em 2015 contra o Iémen. À frente de uma coalizão apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, a Arábia Saudita lançou uma campanha de bombardeios e bloqueio com o objetivo de derrotar o Ansar Alá e restaurar um governo subordinado a Riade. A operação foi apresentada como intervenção rápida, mas transformou-se em uma guerra prolongada que matou civis, destruiu hospitais, escolas, estradas e instalações de abastecimento e produziu uma das mais graves crises humanitárias contemporâneas.
O poder militar saudita mostrou seus limites diante de uma população muito mais pobre, mas organizada e disposta a resistir. Mesmo dispondo de aviões modernos e de armamentos comprados das grandes potências, Riade não conseguiu impor uma vitória decisiva. O Iémen ampliou suas capacidades de mísseis e drones e passou a atingir instalações petrolíferas e outros alvos estratégicos sauditas. A trégua iniciada em 2022 reduziu os combates em algumas frentes, mas não resolveu o bloqueio, a questão dos salários, a presença estrangeira nem a disputa pela soberania do país.
Os ataques atuais contra o Iraque mostram que a monarquia não abandonou o método empregado no Iémen. Quando enfrenta uma força que não consegue controlar, Riade recorre à aviação, ao bloqueio econômico e à proteção norte-americana. A Resistência Islâmica iraquiana negou ter atacado a Arábia Saudita e acusou a monarquia de transferir para o Iraque a responsabilidade pelas operações iemenitas. Ainda assim, o governo saudita utilizou a acusação como pretexto para bombardear território iraquiano ao lado dos Estados Unidos.
Contra o Irã e contra a independência regional
A rivalidade saudita com o Irã também deve ser compreendida a partir dessa posição. A disputa possui componentes nacionais, religiosos e econômicos, mas sua dimensão central é política. Desde a Revolução Iraniana de 1979, Teerã tornou-se um adversário da ordem regional organizada pelos Estados Unidos. A Arábia Saudita, ao contrário, permaneceu como um de seus pilares. Riade financiou o Iraque de Saddam Hussein durante a guerra contra o Irã, apoiou forças contrarrevolucionárias em diferentes países e tratou a expansão da influência iraniana como ameaça à sobrevivência da própria monarquia.
Essa política não se limita ao Irã. Em 2011, tropas sauditas atravessaram a fronteira do Bahrein para esmagar uma mobilização popular que ameaçava a monarquia aliada. Na Síria, recursos sauditas abasteceram organizações empenhadas em derrubar o governo de Damasco. No Líbano, Riade utilizou dinheiro e pressão diplomática para conter o Hesbolá. Agora, ao atacar as Forças de Mobilização Popular, volta-se contra organizações iraquianas que adquiriram legitimidade durante a luta contra o Estado Islâmico.
O discurso sectário serve para encobrir essa função. A questão não é uma suposta defesa dos sunitas contra os xiitas, mas a defesa de uma ordem regional submetida a Washington. Sempre que uma força sunita, xiita, secular ou nacionalista se opõe efetivamente ao imperialismo, ela entra em choque com a política saudita. Da mesma forma, a monarquia coopera com governos não árabes e não muçulmanos quando essa cooperação protege seus interesses de classe e sua posição internacional.
O privilégio nuclear concedido por Washington
O acordo de cooperação nuclear assinado na semana passada entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita tornou ainda mais evidente o duplo padrão. O documento concede prioridade a empresas norte-americanas na construção de reatores e no fornecimento de combustível ao programa saudita. Ele proíbe o reprocessamento de material nuclear de origem norte-americana para a produção de armas, mas, segundo memorando obtido pela NPR, não contém as cláusulas conhecidas como “padrão ouro”, que obrigariam Riade a renunciar ao enriquecimento de urânio e ao reprocessamento em seu território.
A lacuna é importante. O acordo não autoriza automaticamente a fabricação de uma bomba atômica, e não há prova de que a Arábia Saudita já tenha iniciado um programa de armas. Ele, porém, deixa aberta a possibilidade de enriquecimento utilizando instalações construídas com participação norte-americana ou combustível e tecnologia obtidos de outros fornecedores. Tampouco obriga a monarquia a adotar os termos adicionais que ampliariam a capacidade de fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica. Em outras palavras, Washington aceitou uma margem que nega sistematicamente ao Irã, país submetido a sanções, sabotagens e guerras sob a acusação de que seu programa nuclear civil poderia algum dia produzir capacidade militar.
A diferença de tratamento não obedece a um princípio universal de não proliferação. Ela depende da posição política de cada governo. Ao aliado saudita, os Estados Unidos oferecem cooperação tecnológica sem as garantias mais rígidas defendidas em outros acordos. Ao Irã, exigem limitações extraordinárias, inspeções intrusivas e renúncias permanentes, ao mesmo tempo em que toleram o arsenal nuclear não declarado de “Israel”. O sistema de controle nuclear aparece, assim, como instrumento da hierarquia imperialista, e não como regra aplicada igualmente a todos.
A aliança não declarada com “Israel”
A aproximação entre a Arábia Saudita e “Israel” completa esse quadro. Os dois governos não mantêm relações diplomáticas formais, mas há anos compartilham informações, canais políticos e uma política comum contra o Irã e as organizações da resistência. Washington procura transformar essa convergência em normalização aberta, vinculando a cooperação militar e nuclear com Riade à adesão saudita aos chamados Acordos de Abraão.
As divergências que ainda existem — sobretudo em torno da Palestina, da opinião pública árabe e das condições exigidas pela família real — não anulam a colaboração objetiva. Tanto “Israel” quanto a Arábia Saudita funcionam como centros regionais da política norte-americana. Um ocupa e fragmenta a Palestina, bombardeia o Líbano e ataca os países vizinhos; o outro utiliza seu petróleo, seus recursos financeiros e suas Forças Armadas para sustentar governos aliados, combater movimentos populares e pressionar os demais países árabes.
É nesse sentido preciso que a monarquia saudita pode ser definida como a “Israel” da Península Arábica. Não porque os dois Estados tenham a mesma origem histórica, mas porque cumprem funções complementares dentro do sistema de dominação imperialista. A agressão ao Iraque tornou essa função impossível de esconder: uma monarquia árabe utilizou aviões e armas fornecidos pelo imperialismo para atacar forças oficiais de outro país árabe, seguindo a orientação militar de Washington.
A reação das organizações iraquianas expressa a gravidade do episódio. O Saraya Awliya al-Dam pediu o cancelamento dos acordos com os Estados Unidos e o rompimento das relações com Riade. O Movimento al-Nujaba exigiu a retirada das bases norte-americanas, sistemas modernos de defesa aérea e o fim do “silêncio oficial”, classificando a Arábia Saudita como a “cabeça da serpente”. Essas declarações revelam que a agressão não será tratada apenas como incidente fronteiriço, mas como prova de que a presença norte-americana e a cooperação com a monarquia constituem ameaças à soberania iraquiana.
A Casa de Saud é inimiga dos povos árabes e islâmicos não por uma característica religiosa abstrata, mas por sua atuação concreta. Ela atacou o Iémen, interveio no Bahrein, financiou a reação em diversos países, perseguiu opositores internos e agora bombardeia o Iraque ao lado dos Estados Unidos. Sua aproximação com “Israel” e o privilégio nuclear concedido por Washington confirmam sua posição como uma das principais pontas de lança da reação imperialista e sionista no Oriente Médio.




