O capítulo mais conhecido da devastação promovida pelo governo FHC foi o das privatizações. Não é novidade que a venda de empresas estatais costuma representar uma perda para o país. O problema é que FHC, por meio do Programa Nacional de Desestatização, decidiu entregar justamente empresas que ocupavam posições estratégicas para o desenvolvimento nacional. Isso, por si só, já seria criminoso. Vendê-las a preços que até hoje são alvo de controvérsia apenas qualificou o crime.
Um dos casos mais emblemáticos foi a privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Em 1997, a empresa foi vendida por cerca de 3,34 bilhões de dólares. Apenas um ano depois, seu lucro aumentou aproximadamente 46%, indicando uma valorização econômica muito superior àquela considerada no momento da venda. O prejuízo para o país tornou-se ainda mais evidente na década seguinte, quando a explosão dos preços do minério de ferro e de outras commodities transformou a Vale em uma das empresas mais lucrativas do mundo. Em vez de esses lucros reforçarem os cofres públicos e financiarem investimentos em infraestrutura, ciência, educação ou industrialização no Brasil, uma parcela significativa passou a ser apropriada por acionistas privados e estrangeiros.
Outro episódio igualmente desastroso foi a privatização do Sistema Telebrás. Após décadas de investimentos públicos na construção da infraestrutura nacional de telecomunicações, o governo vendeu todo o sistema em 1998 por cerca de 22 bilhões de reais. O resultado foi a abertura de um mercado extremamente lucrativo para grandes grupos privados, muitos deles estrangeiros, que passaram a explorar uma estrutura construída com recursos da população brasileira. A promessa era de eficiência, concorrência e serviços de excelência, mas ficamos com o oposto: tarifas elevadas, atendimento precário e empresas estrangeiras acumulando lucros bilionários ano após ano às nossas custas.
Mas há um aspecto ainda mais grave, raramente discutido. Ao privatizar o setor de telecomunicações, o Brasil abriu mão do controle nacional sobre uma área absolutamente estratégica. Basta imaginar um cenário de conflito ou de grave tensão diplomática envolvendo países onde estão sediados os grupos controladores dessas empresas. A Claro pertence a um conglomerado mexicano; a Vivo integra um grupo espanhol. Em uma situação de conflito, a dependência de empresas estrangeiras em um setor tão sensível quanto o das comunicações poderia representar um sério problema para a soberania nacional. Países que levam sua segurança nacional a sério não tratam infraestrutura crítica como uma simples mercadoria. Não à toa, em países como Vietnam, China e Irã, que mantêm uma relativa independência do imperialismo, o sistema de telecomunicações é fortemente controlado pelo Estado.
É justamente por isso que essas privatizações não podem ser reduzidas ao discurso de que eram necessárias para diminuir déficits fiscais ou “modernizar” a economia. O que estava em jogo era muito mais do que equilibrar contas públicas. Tratava-se de transferir para grupos privados — frequentemente estrangeiros — o controle de setores estratégicos da economia brasileira, permitindo tanto a remessa permanente de lucros ao exterior quanto a perda de instrumentos fundamentais de planejamento e desenvolvimento nacional.
No fim das contas, vender patrimônio público estratégico não significou apenas arrecadar recursos no curto prazo. Significou abrir mão de receitas futuras, reduzir a capacidade de intervenção do Estado e aumentar a dependência do país em áreas decisivas. Difícil chamar isso de modernização. Talvez o termo mais adequado seja liquidação. E essa, infelizmente, está longe de ser a última página dessa história.




