Análise da 3ª

Rui Pimenta: esquerda precisa romper com a política do imperialismo

Presidente do PCO criticou a submissão da esquerda aos partidos do regime e defendeu a construção de um programa revolucionário

A esquerda precisa romper política e ideologicamente com o programa do imperialismo e apresentar aos trabalhadores uma alternativa revolucionária. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas por Rui Costa Pimenta nesta terça-feira (28), durante o programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária.

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) analisou a política de censura nas redes sociais, as manobras da burguesia nas eleições brasileiras, a ofensiva contra Jean-Luc Mélenchon na França, a desindustrialização alemã e os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre o preço do petróleo.

O programa vai ao ar todas as terças-feiras, às 12h30.

‘Um abraço de afogados’

A perseguição contra Mélenchon na França serviu de ponto de partida para uma discussão sobre a situação da esquerda europeia e brasileira.

Setores do Partido Socialista e do Partido Comunista Francês procuram organizar uma candidatura que impeça o dirigente da França Insubmissa de encabeçar a esquerda nas eleições presidenciais de 2027. Mélenchon passou a ser acusado de “autoritarismo” e “antissemitismo”, sobretudo depois de intensificar suas críticas ao sionismo.

Para Pimenta, o dirigente tornou-se um elemento incômodo para a burguesia francesa ao adotar posições mais à esquerda.

“Ele não tem uma política muito radical, mas deu uma guinada à esquerda e acabou se transformando em um elemento perigoso e indesejável para a burguesia francesa. Está recebendo o tratamento que nós recebemos aqui no Brasil. Em vez do tratamento dado à esquerda adaptada, está tendo um tratamento PCO, um tratamento Rui Costa Pimenta. Quanto mais atacarem Mélenchon, mais ele vai crescer, porque os outros não têm moral nenhuma.”

Pimenta chamou atenção para a contradição entre a campanha contra Mélenchon e o tratamento dado ao Reagrupamento Nacional. A organização fundada por Jean-Marie Le Pen tem ligações históricas com o fascismo e o antissemitismo francês, mas procura ser normalizada por meio de seu apoio ao Estado sionista.

Segundo o presidente do PCO, o problema fundamental da esquerda está em sua incapacidade de romper com os partidos burgueses e com as instituições do regime.

“A extrema esquerda não pode ficar a reboque da esquerda burguesa. Esse é o principal problema. A esquerda não consegue romper ideológica e politicamente com a política oficial do imperialismo, que é a política do PT no Brasil. É a política identitária, a defesa da democracia imperialista e a substituição da luta dos trabalhadores por coisas absurdas. Estar junto com os partidos oficiais do regime é um abraço de afogados.”

Pimenta destacou que o rompimento não pode limitar-se à recusa de votar em determinado candidato. A tarefa central consiste em apresentar uma política que se oponha ao programa aplicado pela burguesia.

“Romper não significa simplesmente dizer: ‘não vou votar em fulano’. Isso é secundário. O problema é formular um programa alternativo. Não adianta fazer críticas pontuais: ‘Lula fez isso, Lula fez aquilo’. É preciso opor ao programa do PT um programa revolucionário e uma perspectiva revolucionária.”

O dirigente também rejeitou a acusação de que o PCO estaria adaptado ao lulismo por procurar dialogar com a base do PT. Segundo ele, denunciar o governo não basta. É necessário disputar politicamente os trabalhadores que ainda mantêm expectativas em Lula.

Ao responder a uma pergunta do público, Pimenta apontou o Programa de Transição da Quarta Internacional como referência. As reivindicações devem partir das necessidades imediatas e do nível de consciência dos trabalhadores, conduzindo-os a um enfrentamento com o conjunto do regime capitalista.

Brasil adere a rede internacional de censura

A entrada da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) na Global Online Safety Regulators Network também foi analisada no programa. A organização reúne órgãos responsáveis pelo controle das redes sociais em diversos países.

Pimenta classificou a adesão como mais uma forma de subordinação do Estado brasileiro às instituições organizadas pelo imperialismo. A chamada cooperação internacional serviria para ampliar a interferência dos países imperialistas nos assuntos internos das nações oprimidas.

“Isso é mais um aspecto da subordinação do Brasil. É uma organização para promover e organizar, em escala internacional, a censura na Internet. Assim como muitas outras organizações internacionais, são formas institucionais que o imperialismo encontrou para dominar o Estado das nações oprimidas. O governo Lula não rompeu nenhum desses acordos.”

O presidente do PCO mencionou a influência exercida por órgãos norte-americanos sobre as instituições brasileiras, particularmente o FBI sobre a Polícia Federal. Essa interferência é apresentada como uma relação normal entre Estados e ganha aparência legal por meio de organismos internacionais.

Pimenta também criticou a ausência de uma campanha contra a entrada da ANPD na rede por parte do PT, do PSOL e do PCdoB.

A discussão sobre censura prosseguiu com a ação apresentada pelo PT contra um vídeo produzido com inteligência artificial e exibido pela campanha de Flávio Bolsonaro. Na gravação, uma representação de Jair Bolsonaro manifesta apoio ao filho.

Para Pimenta, o episódio mostra que a esquerda pequeno-burguesa passou a recorrer ao Judiciário diante de qualquer ação de seus adversários, abandonando a luta política.

“O PT e boa parte da esquerda se transformaram em partidos que querem usar a Justiça contra os adversários políticos. A esquerda desenvolveu uma reação automática: ir para a Justiça em todas as questões. Isso não permite o desenvolvimento da luta ideológica. Ao mesmo tempo, várias posições tradicionais da direita estão sendo encampadas pela esquerda. É adaptação ideológica de um lado e perseguição judicial de outro.”

Burguesia procura reorganizar a direita

Ao analisar as eleições brasileiras, Pimenta afirmou que a indefinição dos partidos de direita está ligada à tentativa da burguesia de retirar Flávio Bolsonaro da disputa presidencial.

Enquanto o PT reuniu seus aliados tradicionais, as principais legendas burguesas ainda evitam apoiar formalmente um candidato da direita. Não aderem a Flávio Bolsonaro porque esperam sua substituição, mas tampouco fecham com Ronaldo Caiado ou Romeu Zema enquanto o resultado da operação permanece incerto.

“Flávio Bolsonaro está sob ataque da burguesia, que está pedindo a desistência dele em favor de outro candidato de direita, por exemplo, Ronaldo Caiado. Não apoiam Caiado porque não sabem se a manobra vai dar certo e não apoiam Flávio Bolsonaro porque estão torcendo para que ela dê certo.”

Pimenta classificou Caiado como um candidato da terceira via, semelhante aos nomes lançados anteriormente pelo PSDB. A substituição seria difícil, mas ainda poderia ocorrer caso aparecesse algum fato capaz de desorganizar a candidatura de Flávio Bolsonaro.

O dirigente também recomendou cautela diante das pesquisas eleitorais divulgadas pelos monopólios de imprensa. A campanha contra Flávio Bolsonaro não demonstra, por si só, que sua base eleitoral tenha desaparecido.

Questionado sobre a possibilidade de a retirada do candidato favorecer Lula, Pimenta avaliou que a troca poderia agravar o isolamento do petista. Um nome diretamente escolhido pela burguesia receberia o apoio dos grandes empresários, da imprensa e, em um segundo turno, dos próprios Bolsonaro.

“Vamos supor que a burguesia consiga retirar Flávio Bolsonaro da corrida e o substitua por Zema, Caiado ou qualquer outro. Os Bolsonaro vão apoiar o candidato de direita contra Lula. Esse cidadão teria o voto do bolsonarismo e, além disso, a burguesia o apoiaria em peso. Isso poderia levar a um completo isolamento da candidatura lulista.”

Pimenta considerou improvável uma vitória de Lula no primeiro turno, embora tenha ressaltado que as pesquisas não devem ser tratadas como uma reprodução exata da disposição dos eleitores.

Chapa de Haddad é ‘praticamente do PSDB’

A composição organizada pelo PT em São Paulo foi outro tema do programa. Fernando Haddad deve disputar o governo estadual tendo Márcio França como vice, enquanto Simone Tebet e Marina Silva aparecem como candidatas ao Senado. No plano nacional, Geraldo Alckmin permanece como vice de Lula.

Para Pimenta, a chapa expõe o peso da ala direita do PT e sua aproximação com o antigo tucanato.

“Praticamente é uma chapa do PSDB. Essa é a realidade, não adianta dourar a pílula. Haddad, com essa chapa, consagra-se como a ala burguesa e direitista do PT. Simone Tebet é ligada ao latifúndio mato-grossense, sua candidatura em 2022 foi apoiada formalmente pelo PSDB e Marina Silva apoiou formalmente Aécio Neves em 2014. Márcio França também foi filiado ao PSDB.”

Pimenta lembrou ainda que o próprio Lula já descreveu Haddad como o petista mais próximo de um tucano. A defesa feita pelo ministro do retorno do PSDB ao cenário político estaria de acordo com sua política econômica de ajuste fiscal, cortes e concessões aos banqueiros.

Segundo o dirigente, a burguesia possui vários instrumentos para impor seu programa mesmo diante de uma vitória de Lula. Pode pressionar diretamente o governo, utilizar o Congresso contra qualquer medida progressista e aprofundar a transferência de poder do Executivo para o Legislativo.

Crise industrial avança na Alemanha

O programa também abordou a desindustrialização alemã. Foram apresentados dados sobre a eliminação de aproximadamente 15 mil empregos industriais por mês e os planos de demissão anunciados por grandes empresas.

A Volkswagen estuda cortar até 100 mil postos de trabalho em todo o mundo. A fabricante de autopeças ZF prevê eliminar 14 mil vagas até 2028, enquanto a Bosch pretende suprimir 20 mil empregos até 2030.

Pimenta afirmou que o declínio da indústria alemã começou antes da guerra na Ucrânia. O conflito e a interrupção do fornecimento de energia russa aprofundaram um processo iniciado após a crise de 2008.

“A situação já era difícil antes da guerra na Ucrânia. A Alemanha é um país exportador de produtos industriais e vinha se mantendo numa posição relativamente favorável, mas, depois da crise de 2008, isso começou a decair. Quando veio o problema do combustível, a situação foi levada ao paroxismo.”

Mesmo que o fornecimento de gás russo fosse retomado, a Alemanha não recuperaria facilmente seu nível anterior de produção industrial.

A crise recai sobre os trabalhadores, enquanto as direções sindicais permanecem ligadas ao Partido Social-Democrata da Alemanha, responsável pela aplicação de medidas neoliberais.

“Em algum momento, os trabalhadores vão entrar em luta contra o regime político alemão. Eles já estão se expressando nas eleições. A decadência dos principais partidos do regime mostra isso. Quando perceberem que a eleição não vai resolver nenhum problema, teremos lutas importantes.”

Pimenta lembrou que a Alemanha Oriental nunca se recuperou da destruição econômica provocada pela restauração capitalista e pela anexação à Alemanha Ocidental. A decadência industrial agora avança também sobre os centros produtivos do oeste do país.

Alta do petróleo ameaça economia capitalista mundial

Na parte final do programa, Pimenta analisou a retomada da crise no Estreito de Ormuz e a elevação do preço do petróleo para mais de US$100 por barril.

Com o bloqueio de uma das principais rotas petrolíferas do mundo, a Arábia Saudita procurou transferir parte de suas exportações para o Mar Vermelho. A alternativa, porém, passou a ser atingida pelas operações das forças revolucionárias do Ansar Alá contra navios e instalações ligadas ao regime saudita.

Pimenta advertiu que o governo de Donald Trump pode provocar uma elevação descontrolada dos preços.

“Trump está brincando com fogo, porque essas coisas não evoluem apenas gradativamente. Com o que ele fez, o petróleo foi a mais de US$100 e depois deu uma parada. Mas pode acontecer de o preço explodir. Se isso acontecer, será difícil controlar a situação.”

A combinação entre a alta do petróleo, a crise industrial europeia e a instabilidade financeira poderia desencadear uma crise internacional semelhante à de 2008.

As exportações terrestres do Irã para a China e a continuidade das vendas russas aliviam parcialmente a situação, mas não eliminam o risco de uma retirada repentina de capitais e de uma queda generalizada nas bolsas.

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